segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Mistério de Rennes-Le-Chatêau

Depois de quase dois meses de ausência, cá estou novamente.
Após um crash em meu notebook, a maior parte da minha antiga pesquisa sobre o Santo Graal (ou melhor, toda ela) foi pro saco. Fazia tempo que gostaria de retornar a escrever sobre o tema ou assuntos que orbitassem essa demanda, mas, para isso, seria necessária uma pequena pesquisa sobre o assunto.
Então vamos lá: o tema em questão deste post há muito tempo gostaria de abordá-lo, mas sequer em minhas anteriores pesquisas eu o havia feito tamanha foi a riqueza de detalhes que o compõem. É claro que, com o passar do tempo, passamos a ser mais criteriosos no que lemos e escrevemos, discernir um pouco mais o que é sério do que é fanfarra.
Bem, o mistério sobre a aldeia francesa de Rennes-Le-Chatêau é um misto dessas duas coisas. Mas para não comprometer o grau de curiosidade sobre o assunto, vamos imediatamente nos remeter ao que elevou este lugarejo misterioso a local de peregrinação de vários entusiastas das conspirações históricas.


Rennes-Le-Chatêau situa-se ao sul da França, na região de Provence, mais especificamente no Languedoc logo acima dos Pirineus, antigamente conhecida como Oquitânia (Occtane). Esta região por si só já é berço de muita história interessante e de especulações em torno dela.
O mito de Rennes-Le-Chatêau está em torno da figura do padre Bérenger Saunière que fora transferido para a paróquia local em 1877 com então 33 anos. Conta-se que o então pároco dá início a pequenas obras de restauração na igreja da aldeia dedicada à Santa Maria Madalena e que durante estes trabalhos encontra um possível tesouro que abala totalmente sua vida refletindo em suas próximas ações ao longo de seu trabalho na paróquia.


De forma sintética, tudo começa quando o padre resolve remover o altar-mor da nave da igreja e encontra em uma das colunas de sustentação, uma cavidade contendo jóias e manuscritos. Ao descobrir tais objetos imediatamente suspende as obras dispensando os pedreiros envolvidos e começa a trabalhar solitariamente a fio por dias e noites.
Após esta descoberta, Saunière começa a gastar quantias incompatíveis com a sua condição de padre nas obras de reformas da igreja, do cemitério em anexo bem como na construção de novos prédios adjacentes a estrutura. Não somente a origem do dinheiro empregado passa a ser já um mistério como também a forma como o empregou, começando por detalhes peculiares na ornamentação da igreja, sugerindo a adição de mensagens subliminares ao longo de toda a estrutura, assim como em pequenas viagens de destino desconhecido e hábitos extravagantes, como a coleção de tecidos e selos.

      

Para poder contextualizar um pouco, convém remontarmos um pouco da história daquele local e vinculação com fatos históricos remotos.
Em 66 d.C. a Palestina revoltou-se contra o domínio romano. Foi o Imperador Tito que em 70 d.C. deu um fim a situação quebrando o pau e arrasando Jerusalém expulsando de vez os judeus da Palestina (a famosa Diáspora). O Templo de Salomão foi saqueado e o seu conteúdo foi levado em grande pompa para Roma. Para a chegada do espólio do saque à Cidade Eterna, um enorme cortejo foi organizado de modo a receber um tão ilustre tesouro. Pois bem...
No ano 410 Roma cai e a Cidade Eterna foi saqueada pelos bárbaros visigodos chefiados por Alarico, o Grande. Todas as riquezas da cidade foram capturadas e o tesouro do Templo nunca mais foi visto. Durante a Alta Idade Média, conhecida como a Era das Trevas devido a queda de Roma e a falta de organização política e militar da Europa, a região do Languedoc foi de domínio de vários povos até a sua tomada pelos Francos sob o domínio de Clóvis: Iberos, Estrogodos, Celtas e...Visigodos. Sim, a região do Languedoc teve presença visigótica de 440 a 720.
A partir daí muitas peças começam a se encaixar, pra quem tem uma boa imaginação e gosta de histórias de mistérios...
Pra início de conversa, é no sul da França que surgiram muitas das lendas referentes ao Santo Graal e suas derivações. A mais famosa delas na atualidade, a de que o Santo Graal é na verdade um conhecimento e não um objeto cálice, como sendo a menção ao "Sangue Real" (uma linhagem de reis merovíngios descendentes diretamente de Jesus Cristo com Maria Madalena) obtém contextualização através de várias lendas locais. Uma delas fala sobre o suposto desembarque de José de Arimatéia que levava Maria Madalena e sua filha Sara (filha de Jesus) fugidos da Palestina, onde Sara passaria a ser venerada por uma imagem conhecida como a "Santa Negra" devido a sua pele mais escura. Segundo a lenda, Sara teria originado a linhagem dos reis merovíngios. Outras tantas, como a lenda do Rei Pescador, somam-se ao passado mitológico da região. Soma-se a tudo isso o fato de que esta região foi também refúgio dos cátaros (dediquei um post só sobre esse assunto a um tempo atrás), ceita medieval que também carregou consigo uma boa dose de mito a cerca de serem possíveis guardiões do Santo Graal.
Enfim, voltando a Rennes-Le-Chatêau...
Como já falamos, tudo começa quando Saunière resolve trabalhar em reformas na igreja.
Na igreja, começou por efetuar apenas as alterações essenciais. Durante estes primeiros trabalhos, decorridos por volta de 1886-87, Saunière tentou remover o altar-mor da igreja, peça composta por uma pedra que descansava sobre dois pilares. Segundo se diz, um estava em bruto e o outro esculpido. Em um destes pilares afirma-se ter descobertos dois tubos de madeira contendo pergaminhos.
Ainda durante as obras de restauro da igreja de Sta. Maria Madalena, Saunière levantou um bloco de pedra que estava colocado com a face para baixo em frente ao altar, recorrendo à ajuda de dois trabalhadores. Estes teriam notado imediatamente que se tratava de uma sepultura. Segundo a tradição oral da aldeia, Saunière mandou-os imediatamente embora, exigindo não ser perturbado e proibindo a entrada de quem quer que fosse na igreja. Nesse dia teria trabalhado até tarde, e mesmo noite a dentro, no interior da igreja. Teria comunicado pouco tempo depois a descoberta aos seus superiores imediatos. Não se sabe ao certo o que estaria debaixo do bloco, que teria sido esculpido no século VII ou VIII, mas provavelmente cobria uma câmara funerária. É perfeitamente possível que ocultasse uma câmara com restos mortais e até pequenos tesouros de antigos senhores da região. De fato, Saunière ofereceu a alguns amigos moedas de ouro, um cálice e até jóias visigóticas. Esta pedra ficou conhecida por "la Dalle des Chevaliers" (a Laje dos Cavaleiros).
A partir desse momento, Saunière começa literalmente a viajar na batatinha (ou nem tanto, veja no fim do post porque). Uma série de providências esquisitas a cerca da ornamentação da igreja foi tomada pelo padre aguçando a curiosidade, consumando assim o mistério de Rennes-Le-Chatêau.
Em 1891, quatro anos depois da remoção do altar-mor da igreja, Saunière decidiu aproveitar o pilar esculpido do altar-mor e colocou-o no exterior, debaixo de uma estátua da Virgem de Lourdes. Ao fazê-lo, mandou gravar uma inscrição que ainda hoje é suficientemente legível: "Mission 1891". Há quem veja esta inscrição como um marco deixado por Saunière para a posteridade, assinalando o ano de 1891 como o ano do início da sua "missão". Que missão seria esta? Não se sabe, mas estará certamente relacionada com as várias restaurações e construções que Saunière empreendeu em Rennes-le-Château.
E assim o padre seguira com uma série de ações bizarras, tais como:
a) Ter gravado na entrada da igreja a frase em latim terribile est locus iste (este lugar é terrível);


b) Postado na entrada da igreja a estátua de um demônio ao qual alguns creem ser a imagem do demônio Asmodeo, guardião dos tesouros;


c) A colocação de uma via-sacra no interior da igreja, da esquerda para a direita, apresentando uma série de inconsistências, algumas óbvias, outras sutis sendo as duas principais: na oitava estação, há uma criança vestida com uma capa escocesa e na décima quarta, onde está retratado o episódio de Jesus a ser levado para o túmulo, o céu está pintado num tom escuro, noturno, como se sugerisse que Jesus tinha sido enterrado à noite. 

     

d) A profanação de túmulos do cemitério ao lado da Igreja, como a do sepulcro de Marie de Négri-d'Ables, mulher do marquês de Hautpoul de Blanchefort, que teria sido desenhado e construído um século antes pelo padre Antoine Bigou, o mesmo que se diz ter sido o autor de dois dos pergaminhos atrás mencionados. Na pedra sepulcral, Bigou mandou gravar uma inscrição aparentemente normal, apesar de conter erros de soletração e de espaçamento, mas que curiosamente constituiria um anagrama perfeito para a decodificação do segundo texto descoberto por Saunière.


e) A aquisição de uma cópia de uma pintura de Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie ("Os pastores da Arcádia"). Até há bem pouco tempo, perto de Rennes-le-Château, em Arques, existia uma sepultura igual à pintada por Poussin.


f) A construção de uma mística torre, a Torre Magdala, nos arredores da aldeia.


g) E por aí vai...

Só que tem muita coisa mal contada nessa história...
Esta trama histórica cruza-se, por "acaso do destino", com a de dois amigos parisienses, entusiastas do esoterismo e da mitologia, que tinham ouvido falar dos caçadores do tesouro de Rennes-le-Château e das aventuras e desventuras do "padre dos milhões". Tratava-se de Pierre Plantard, mitômano erudito de aspirações aristocráticas, e Phillipe de Chérisey, marquês de título, ator e surrealista, escritor e fiel braço direito de Plantard. Juntos, percorrem o sul de França e a região de Rennes-le-Château, recolhendo depoimentos da boca dos habitantes locais. Conseguem construir sobre as lendas do padre Saunière, uma boa atochada, um conjunto de mitos modernos e antigos baseado em meias verdades e meias mentiras onde nomes de locais reais e de pessoas reais são misturados com acontecimentos fantasiosos e com documentação forjada. Plantard apresentava-se como "Pierre Plantard de Saint-Clair", o herdeiro legítimo do trono de França, descendente do rei merovíngio Dagoberto II, uma realização inventiva de Chérisey, o artista. Foi Chérisey que criou falsos pergaminhos em código que, supostamente descobertos por Saunière durante as suas obras de restauração da igreja de Santa Maria Madalena provariam a veracidade deste "grande segredo oculto durante séculos". Os picaretas resolvem dar mais credibilidade à sua montagem depositando documentos falsos na Biblioteca Nacional em Paris ao longo dos anos sessenta onde está afirmado que existe uma organização secreta de mais de mil anos chamada de "O Priorado de Sião". Plantard e Chérisey apresentavam-se como a face do Priorado, onde este é responsável por proteger uma linhagem real secreta, da qual Plantard seria o atual descendente. A mitologia de Rennes, graças aos caçadores de tesouros e ao "Priorado de Sião" cresce em popularidade, atingindo toda a França.

Pierre Plantard (1920-2000)
Pierre Plantard
O assunto se globaliza com a entrada em cena dos britânicos Lincoln, Baigent e Leigh. Este trio tinha ouvido falar da história do padre de Rennes, e achou que era matéria de best-seller. Não podiam estar mais certos. Na internacionalização do mistério, foi decisivo o papel destes que escreveram em conjunto a obra Holy Blood, Holy Grail (editado no Brasil como O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).
A história deturpada de Rennes iria encontrar uma fama bem maior do que aquela para a qual tinha sido destinada. O trio britânico iria fazer escola, levando ao aparecimento de uma claque de seguidores, que surgiriam mais tarde com as suas obras, e cujo babaca que vos escreve nesse momento comprou uma pá de livros nos seu calor de euforia sobre o assunto. Autores como Lionel e Patricia Fanthorpe, Michael Bradley, Richard Andrews e Paul Schellenberger, Robin Mackness e Guy Patton, David Icke, Ean Begg, David Wood, Ian Campbell, Patrick Byrne, Lynn Picknett e Clive Prince, Christopher Knight e Robert Lomas, Marilyn Hopkins, Graham Simmans, Timothy Wallace-Murphy, Andrew Sinclair, Laurence Gardner, Barbara Thiering e Margaret Starbird fazem todos parte da criativa "geração Rennes". Nasceram e cresceram com a leitura das obras de Gérard de Sède, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln. Todos se tornaram adeptos da mitologia de Rennes, e as suas obras revelam uma adesão total e inabalável às teses do Priorado de Sião. Frequentemente, fazem referências cruzadas às obras uns dos outros, elogiando-se e prefaciando-se mutuamente, de forma a transmitir ao leitor a ideia falsa de que há consenso e plausibilidade científica nas suas teorias. Portanto, se verem algum livro destes caras em alguma livraria, afaste-se imediatamente.
Então, pra fechar a conta, temos o espertíssimo caça-níqueis do Dan Brown, "O codigo Da Vinci" que mais uma vez dá uma ressuscitadazinha  na mitologia de Rennes-Le-Chatêau e consagra a questão da linhagem sagrada como o maior manancial para romances e obras literárias distorcidas dos anos 2000.
Ta bom, ta bom, mas... e os outros detalhes pitorescos elencados acima sobre as excentricidades do padre acerca da reforma da Igreja em Rennes? Evidentemente que, para cada uma destas e tantas outras peculiaridades na história de Saunière em Rennes deve-se ter uma atenção toda especial, pois é devido ao conjunto de todas estas que fazem da mitologia desta aldeia única. Os argumentos que recém apresentei acerca da vigarice de Plantard e seu comparsa desmontam sim boa parte da mitologia moderna de Rennés-Le-Chatêau (moderna porque surgiram em meados dos anos 70 e 80 graças a safadeza dos supracitados). No entanto, não destrói com a mística do local nem com a totalidade de seus mistérios, longe disto. Embora muitas das ações misteriosas do padre possam ter explicações simples e não muito retumbantes, outras ainda permanecem passíveis de especulação histórica e fantasiosa. Além do mais, convenhamos: o padre Saunière é, sem dúvida alguma, um personagem pitoresco e intrigante, pois foi capaz de captar para si inúmeros mistérios onde cada um deles pode até ter explicações, mas de diferentes naturezas e sempre com um pouco de esforço imaginativo. Obviamente que não poderei me dedicar a elucidar todos esses pontos porque senão teria que dedicar um blog inteiro sobre o assunto.
Na verdade, o que temos aqui, portanto, é a detonação de um mito? Talvez sim talvez não. Mas mesmo assim o fascínio por histórias como esta estão longe de acabar... e da própria Rennés.
Para quem quer ler mais sobre o assunto, uns link legais:

Abração a todos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Dossiê Odessa

Fazia tempo em que um livro não prendia tanto a minha atenção e entusiamo em sua leitura quanto este, pois, fissurado por história e apaixonado pela II Guerra Mundial, suas causas e consequencias, como sou, minha empolgação ao ler este livro não poderia ser diferente.
Romance clássico de espionagem de autoria do especialista no assunto Frederick Forsyth, O Dossiê Odessa é muito mais que um bom romance no momento em que consideramos muitas de suas passagens como factuais, pois de fato, elas são.
O que me deixa puto da cara (comigo mesmo, diga-se de passagem) é: "como não li esse livro antes?" Já havia ouvido falar de Frederick Forsyth, inclusive já lido um de seus livros (Cães de Guerra), então como que ainda eu não tivera conhecimento deste? Ao comentar com meu tio, este prontamente afirmou já ter ouvido falar do livro "pois era um clássico do gênero", segundo ele mesmo. Porra meu...


Então, apresentemos a obra:
Forsyth nos apresenta logo no prefácio que o significado de Odessa nada tem a ver com a cidade Russa ou a cidade homônima nos Estados Unidos e sim uma abreviação para Organisation Der Ehemaligen SS-Angehorigen (não sabem como foi horrível escrever o significado dessa sigla) que significa, em resumo Organização dos Ex-Membros da SS, sendo esta o tema central do plot do livro.
Em síntese, a narrativa conta a história do repórter freelancer Peter Miller que se envolve numa investigação e ao acaso se ve envolvido com a Odessa. Não é minha intenção, como de praxe em meus posts, descrever ou sintetizar a obra mas sim analisá-la e contextualizá-la.
Vários foram os aspectos que me chamaram a atenção nesse comance publicado em 1972. O primeiro deles é o período e local onde a história se passa: a Alemanha do pós-guerra, 1963, justamente quando o Presidente dos EUA John Kennedy é assassinado em Dallas. O assassinato de Kennedy em si não reflete em nenhum momento na trama senão no auxilio ao leitor para que se situe na geopolítica daquele momento. Forsyth cita em sua obra personagens verídicos, mesmo que em alguns casos brevemente, como o Presidente Egípcio Anuar Saddat, o premier alemão Konrad Adenauer, entre outros.
Sempre foi de meu interesse saber um pouco mais de como era a Alemanha, sua organização política e economica, logo após a II Guerra e o livro tem como pano de fundo justamente essa realidade. A obra retrata o milagre economico alemão do pós-guerra e a crise cultural, ética e moral vivida por sua população ante os crimes horrorosos promovidos pelos nazistas à humanidade e desconhecidos por ela. O protagonista da trama Peter Miller possuia apenas 29 anos e seus questionamentos frequentes sobre os fatos ocorridos há 20 anos atrás em seu país permeiam a narrativa.

Frederick Forsyth
Outro aspecto interessantíssimo sobre este livro é o fato de que o mesmo fora usado para promover a caça a nazistas e a denúncia da existencia da Odessa. Em determinado ponto da narrativa, o protagonista Peter Miller encontra-se com o renomado Simon Wiesenthal, judeu sobrevivente dos campos de concentração nazista que se tornou após a guerra caçador de nazistas, para que o ajude na caça a um fugitivo nazista ex-oficial da SS de nome Eduard Roschmann, conhecido como "O Açougueiro de Riga". De fato, Wiesenthal existiu (falecido em 2005  em Viena aos 97 anos), bem como Roschmann, que vivera em segredo até ser encontrado morto na Argentina. A bem da verdade é que Wiesenthal usou a obra de Forsyth  (com sua conivência, é claro) para que a Odessa fosse realmente denunciada. Com o advento da obra, as autoridades alemãs entre outras tornam-se mais empenhadas na caça a antigos membros da SS e demais nazistas ainda escondidos pelo mundo, principalmente na America do Sul, como relata o livro.

Simon Wiesenthal
A obra de Forsyth também fala da tensa questão no Oriente Médio quando aborda as mobilizações militares de Israel e Egito que culminaram na Guerra dos Seis Dias em 1967, bem como as movimentações diplomáticas da então Alemanha Ocidental pró-Israel que motivaram a Odessa a tomar partido da causa árabe por os considerarem "antigos amigos do Reich".
Assim como seus outros livros como: Cães de Guerra e O Dia do Chacal, O Dossiê Odessa foi parar nas telas em 1974 tendo como interpretw do protagonista nada mais nada menos que John Voight. O filme também ajudou a alavancar a causa de Wiesenthal (cabe aqui lembrar que Wiesenthal foi consultor durante as filmagens). Taí mais um filme em que me faz ficar fodido da vida por até então nunca ter ouvido falar na sua existencia, o que me faz ficar obcecado por assisti-lo. Mas, como é de praxe, por já ter lido o livro, é de se esperar a inferioridade da obra cinematográfica.
Mesmo assim não vou descançar se não encontrar esse troço.


É evidente, no entanto, que o livro nos trás um pouco de reflexão e não apenas puro entretenimento e informação. Forsyth nos leva a entender que em um momento da recente história mundial o mundo não foi somente bipolar com comunistas de um lado e capitalistas de outro, mas que houve uma terceira ideologia que ceifou a Europa e muitas outras nações no início do séc. XX. Noutro determinado ponto da narrativa onde Peter Miller finalmente está cara-a-cara com Roschmann, o perseguido assim se pronuncia:
 "...Quer uma prova da nossa grandeza? Veja a Alemanha de hoje. Esmagada e destroçada em 1945, completamente destruída a mercê dos bárbaros do Leste e dos loucos do Oeste..."
Ou seja, a Alemanha nazista era o contraponto entre o capitalistmo yanque e o comunismo bolchevique. O filme A Soma de Todos os Medos,cujo protagonista é o agente Jack Rian (o mesmo de Caçada ao Outubro Vermelho, Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato) também conta uma história semelhante onde uma aliança de líderes europeus de extrema direita planeja o início da Terceira Grande Guerra com atentados terroristas.


Entretanto, a existencia da Odessa, ao que tudo indica, não tinha como objetivo a priori fomentar uma revolução de larga escala mundial ou mesmo a construção de um futuro 4º Reich Alemão, senão apenas a proteção de ex-membros da SS perseguidos nos tempos já de paz por suas atrocidades durante a guerra, principalmente contra judeus nos inúmeros campos de concentração.
Está claro, tanto no livro quanto em demais fontes de pesquisa que pude consultar, que os fundos criados durante a guerra para o financiamento das operações da Odessa foram usados apenas para  a proteção e fuga de seus membros.
É fato, no entanto, que a Odessa teve inúmeros êxitos, por mais que muitos carrascos nazistas viessem a ser capturados. Muitos deles viveram seus ultimos dias em paz e no anonimato, sob falsas indentidades em países distantes da Alemanha. A Argentina foi o principal destino destes ao final da guerra principalmente pela simpatia que Perón tinha pelos nazistas (até nisso esses castelhanos cagaram no pau). Hoje, certamente que existem alguns membros vivos da Odessa, mas devem estar usando fraldas geriátricas sentados numa cadeira de rodas com um chale no colo.
A Odessa deixou de ser uma organização temida.
Graças aos novos valores universais do nosso contemporaneo os ideais nazistas deixaram de ser uma ameaça sobrevivendo apenas na cabeça de alguns jovens imbecis que possuem vácuo ao invés de massa encefálica, pois não são capazes de se preocupar em conhecer os estudos que expoem as teorias xenofobas ao ridículo.
Com os nazistas e fascistas varridos da Europa bem como a queda da Cortina de Ferro, ficamos assim, a mercê dos arrogantes yanques e da real organização que deveria ser temida. Nada de Maçonaria, nada de Iluminatti, nada de Rozacruz, nada de Comissão Trilateral ou Comissão Bilderberg... Só que se eu disser quem eu penso ser, irei preso por xenofobia.
Abaixo, um link sobre um documentário no TerraTV sobre a Odessa. É longo, tem mais de 45 minutos mas vale a pena.

http://terratv.terra.com.br/videos/Diversao/Documentarios/History-Channel/4689-391030/Cacadores-de-Misterios-A-Ascensao-do-Quarto-Reich.htm

Humilde opinião de quem vos escreve.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Para reflexão!


Reproduzo, na íntegra, o texto de Dom Henrique Soares, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Aracajú-SE, que aborda a realidade da TV brasileira.
Peço que, ao iniciarem a leitura do texto abaixo, procurem esquecer os detalhes religiosos ou que venham a vincular qualquer idéia à carolagem ou ética católica. Ou seja, independente do aspecto religioso, devemos reconhecer que o texto diz muuuuita coisa contundente e não menos verdadeira.


"A situação é extremamente preocupante: no Brasil, há uma televisão de altíssimo nível técnico e baixíssimo nível de programação. Sem nenhum controle ético por parte da sociedade, os chamados canais abertos (aqueles que se podem assistir gratuitamente) fazem a cabeça dos brasileiros e, com precisão satânica, vão destruindo tudo que encontram pela frente: a sacralidade da família, a fidelidade conjugal, o respeito e veneração dos filhos para com os pais, o sentido de tradição (isto é, saber valorizar e acolher os valores e as experiências das gerações passadas), as virtudes, a castidade, a indissolubilidade do matrimônio, o respeito pela religião, o temor amoroso para com Deus.

Na telinha, tudo é permitido, tudo é bonitinho, tudo é novidade, tudo é relativo! Na telinha, a vida é pra gente bonita, sarada, corpo legal… A vida é sucesso, é romance com final feliz, é amor livre, aberto desimpedido, é vida que cada um faz e constrói como bem quer e entende! Na telinha tem a Xuxa, a Xuxinha, inocente, com rostinho de anjo, que ensina às jovens o amor liberado e o sexo sem amor, somente pra fabricar um filho… Na telinha tem o Gugu, que aprendeu com a Xuxa e também fabricou um bebê… Na telinha tem os debates frívolos do Fantástico, show da vida ilusória… Na telinha tem ainda as novelas que ensinam a trair, a mentir, a explorar e a desvalorizar a família… Na telinha tem o show de baixaria do Ratinho e do programa vespertino da Bandeirantes, o cinismo cafona da Hebe, a ilusão da Fama… Enquanto na realidade que ela, a satânica telinha ajuda a criar, temos adolescentes grávidas deixando os pais loucos e a o futuro comprometido, jovens com uma visão fútil e superficial da vida, a violência urbana, em grande parte fruto da demolição das famílias e da ausência de Deus na vida das pessoas, os entorpecentes, um culto ridículo do corpo, a pobreza e a injustiça social… E a telinha destruindo valores e criando ilusão…

E quando se questiona a qualidade da programação e se pede alguma forma de controle sobre os meios de comunicação, as respostas são prontinhas: (1) assiste quem quer e quem gosta, (2) a programação é espelho da vida real, (3) controlar e informação é antidemocrático e ditatorial… Assim, com tais desculpas esfarrapadas, a bênção covarde e omissa de nossos dirigentes dos três poderes e a omissão medrosa das várias organizações da sociedade civil – incluindo a Igreja, infelizmente – vai a televisão envenenando, destruindo, invertendo valores, fazendo da futilidade e do paganismo a marca registrada da comunicação brasileira…

Um triste e último exemplo de tudo isso é o atual programa da Globo, o Big Brother (e também aquela outra porcaria, do SBT, chamada Casa dos Artistas…). Observe-se como o Pedro Bial, apresentador global, chama os personagens do programa: “Meus heróis! Meus guerreiros!” – Pobre Brasil! Que tipo de heróis, que guerreiros! E, no entanto, são essas pessoas absolutamente medíocres e vulgares que são indicadas como modelos para os nossos jovens!

Como o programa é feito por pessoas reais, como são na vida, é ainda mais triste e preocupante, porque se pode ver o nível humano tão baixo a que chegamos! Uma semana de convivência e a orgia corria solta… Os palavrões são abundantes, o prato nosso de cada dia… A grande preocupação de todos – assunto de debates, colóquios e até crises – é a forma física e, pra completar a chanchada, esse pessoal, tranqüilamente dá-se as mãos para invocar Jesus… Um jesusinho bem tolinho, invertebrado e inofensivo, que não exige nada, não tem nenhuma influência no comportamento público e privado das pessoas… Um jesusinho de encomenda, a gosto do freguês… que não tem nada a ver com o Jesus vivo e verdadeiro do Evangelho, que é todo carinho, misericórdia e compaixão, mas odeia o fingimento, a hipocrisia, a vulgaridade e a falta de compromisso com ele na vida e exige de nós conversão contínua! Um jesusinho tão bonzinho quanto falsificado… Quanta gente deve ter ficado emocionada com os “heróis” do Pedro Bial cantando “Jesus Cristo, eu estou aqui!”

Até quando a televisão vai assim? Até quando os brasileiros ficaremos calados? Pior ainda: até quando os pais deixarão correr solta a programação televisiva em suas casas sem conversarem sobre o problema com seus filhos e sem exercerem uma sábia e equilibrada censura? Isso mesmo: censura! Os pais devem ter a responsabilidade de saber a que programas de TV seus filhos assistem, que sites da internet seus filhos visitam e, assim, orientar, conversar, analisar com eles o conteúdo de toda essa parafernália de comunicação e, se preciso, censurar este ou aquele programa. Censura com amor, censura com explicação dos motivos, não é mal; é bem! Ninguém é feliz na vida fazendo tudo que quer, ninguém amadurece se não conhece limites; ninguém é verdadeiramente humano se não edifica a vida sobre valores sólidos… E ninguém terá valores sólidos se não aprende desde cedo a escolher, selecionar, buscar o que é belo e bom, evitando o que polui o coração, mancha a consciência e deturpa a razão!

Aqui não se trata de ser moralista, mas de chamar atenção para uma realidade muito grave que tem provocado danos seríssimos na sociedade. Quem dera que de um modo ou de outro, estas linha de editorial servissem para fazer pensar e discutir e modificar o comportamento e as atitudes de algumas pessoas diante dos meios de comunicação."

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Cavaleiros Templários, Piratas, Cristovão Colômbo,... mas bah!

O legal de se ter um blog é justamente escrever o que se quer sem se preocupar em quem vai ler. Melhor ainda, mata a vontade de falar sobre algo que você curte e que mais ninguém tem interesse (eh eh eh...) mas depois de postado, uma pá de gente lê, curte e depois comenta.
Fanático em história como sou e com um gosto bastante peculiar (pra não dizer estranho) com relação a literatura estou sempre revirando as estantes de livros nas livrarias com temas históricos mas que beiram (eu disse "beiram") ao esoterismo e abordam mistérios da história ocultos e existentes apenas em lendas, contos e narrativas especulativas. Claro, a medida em que a gente lê esse tipo de material que eu chamo de "literatura especulativa" e já dominando um pouco os conceitos aceitos academicamente dos contextos históricos, a gente fica cada vez mais criterioso com relação ao conteúdo que se lê, deixando de tomar tudo aquilo como verdade absoluta. Minha intenção agora é escrever uma série de posts justamente desses livros viajandões que já li e apresentar seu conteúdo sob resenhas. Assim, como já disse, posso falar sobre os assuntos e dar minha oipinião sobre os livros. Muitos de passagem já direi, serão sumariamente detonados. Por essas e outras que o foco de leitura será "levemente" modificado daqui pra diante.
Então vamos lá.
O lance do Graal me levou a ler sobre coisas incríveis que estão nas linhas marginais da história e que são brevemente abordados em artigos acadêmicos. Tais "coisas" são de fato realçadas com o intuito de fundamentar as lendas e especulações históricas. Assim, me peguei já lendo sobre: templários, cátaros, Rosslyn, Montségur, Os Monferrato, Rennes-le Chateau, Priorado de Sion, Leonardo Da Vinci, Opus Dei, Merlin, Rei Arthur, Glastombury, Santa Sara, Linhagem Sagrada, Reis Merovíngios, Familia Martel, Vonfran Von Eishenbach, Robert de Boron, Bernardo de Clairvoix, Chretien de Troyes, Cruzadas, Ordem de Cristo, Infante Dom Henique, Cavaleiros Hospitalários, William Wallace (ele mesmo), Maçonaria, Celtas, Visigodos, Vaticano, As narrativas dos Zenos, os Sinclair, e por aí vai. Não há como não ter uma pequena coleção de livros sobre esses diversos temas que, em algum tipo de lenda ou especulação, se encontram, se entrelaçam e se completam.
Pois é essa a receita do livro "Os Piratas e a Frota Templária Perdida: O Segredo de Cristóvão Colombo", escrito pelo americando David Hatcher Childress.


O título do livro já faz o cara que gosta desse tipo de assunto brilhar os olhos. Não deu outra, gastei 40 pratas na livraria. O assunto é, de fato, muito interessante e a forma de como o livro foi escrito pode ser lido de forma extremamente fácil, sendo uma leitura bastante acessível. Porém, é necessário que tenhamos em mente a natureza da obra: especulativa. Mas então, o que vem a ser a "literatura especulativa"?
Eu considero literatura especulativa toda obra literária que apresenta algum tipo de narrativa histórica como factual, baseada e referenciada em outras obras literárias que também possuem a mesma forma de embasamento mas que não possuem valor acadêmico algum. Em inúmeros casos, como o da obra em questão, se vê a referência a outras publicações que também não possuem credenciais acadêmicas, o que acarreta numa pirâmide de suposições sem valor histórico algum, senão o de puro entretenimento. Também considero literatura especulativa aquela que apresenta um assunto histórico e ao final conclui com uma interrogação. Ou seja, o próprio autor conclui seus capítulos e parágrafos com questionamentos fantasiosos sem se aprofundar na resposta destes caracterizando em incitação à especulação histórica dos fatos apresentados.
Não é a toa que sempre devemos considerar as credenciais dos autores de tais obras para, posteriormente, começar a dar algum crédito naquilo que eles escrevem. Então conheçamos um pouco do autor desta obra, David Hatcher Childress.



 De acordo com a Wikipedia, David Hatcher Childress é um autor e editor americano de livros com tópicos em História Alternativa e Revisionismo Histórico. Seus trabalhos tratam de temas como contatos trans-oceânicos pré-colombianos, Tesla, Ordem dos Templários, cidades perdidas e Vimanas. Apesar do seu envolvimento público em áreas gerais de estudo, Childress admite não ter credenciamento acadêmico como arqueólogo profissional ou qualquer outro campo de estudo.
Então já se tem uma base do que sai daí. Childress também é conhecido como o "verdadeiro Indiana Jones", por se embretar nas grotas do mundo atrás de cidades perdidas, tesouros e afins.
Bem, Childress faz uma verdadeira sopa de teorias num livro de apenas 250 páginas. Primeiro começa a abordar a questão Difusionismo X Isolacionismo: coloca em xeque as posições acadêmicas de que a descoberta do continente americano foi feita por europeus no séc. XV e recorda as teorias de que os fenícios e romanos já teriam visitado a costa sul americana do atlântico na antguidade. Nada bem fundamentado, cita o caso das ânforas romanas encontradas no mar proximo a Ilha do Governador no RJ nos anos 70 e de supostas incrições fenícias no Rio Grande do Norte. Se esquece de mencionar as posições oficiais da marinha brasileira e do histórico de estelionato do descobridor das supostas antiguidades, bem como o misterioso desaparecimento dos artefatos do fundo do mar. Em síntese, conta uma história apenas em seu começo, só a parte "boa". Se formos a fundo veremos mais argumentos de improbabilidade de que romanos ou fenícios em suas pequenas embarcações incapazes de transportar muita água potável não conseguiriam atravessar o oceano atlântico. É claro que o assunto é polêmico e cabe sim muita especulação. O sabor do livro ta aí, mas se não tomar cuidado, Childress pode fazer com que você rasgue todos os seus livros de história.
A parte mais bruxa e central do livro é quando Childress aponta o início da pirataria romantica com a perseguição à Ordem Templária e ao sumiço de toda a sua frota. Em síntese, Childress afirma categoricamente que os Templários  deram origem aos piratas e tinham como objetivo basicamente afrontar as marinhas católicas. Afirma que os piratas respeitavam países como Inglaterra e Portugal por estes terem sido portos seguros à perseguição promovida pelo Vaticano.
Para qualquer um que tenha um pouco de conhecimento histórico, as teorias de Childress são no mínimo fantasiosas demais, necessário uma pequena averiguação. Peguei um antigo livro da Coleção Coruja, que ganhei quando era criança cujo título era "Histórias de Piratas e Corsários" e comparei as afirmações de Childress com o que a literatura oficial dizia sobre os piratas.

Childress viajou. Ao relembrar a origem da Maçonaria junto à Ordem Templária (até aí tudo bem) foi capaz de afirmar que piratas como Morgan e Kidd seriam.. maçons. A principal atochada de Childress é a afirmação de que os Jolly Rogers (as famosas bandeiras negras) são oriundas dos templários. Afima que as caveiras e ossos cruzados são símbolos templários e que a origem da expressão "Jolly Roger" ("Alegre Rogerio") vem do Rei Normando da Sicilia Rogerio II em afronta a Igreja Católica.

O livro "Histórias de Piratas e Corsários" desmente tudo isso e faz relembrar a verdadeira origem dos piratas românticos quando estes iniciaram como sendo corsários, a serviço de bandeiras e coroas quando estas não dispunham de frotas marítimas de vulto para enfrentar países como Espanha e Portugal que, na época, dominavam os mares. Quando finalmente esses corsários são dispensados pelas nações por estas já terem suas armadas estruturadas, resolvem utilizar suas bandeiras brincando com a morte. Cada capitão pirata adota uma versão do "Jolly Roger".
Por fim, Childress se sobressai ao tentar afirmar que Critovão Colombo não era italiano, mas espanhol e... judeu. Cita uma obra do famoso caçador de nazistas Simon Wiesenthal (um judeu, não é de admirar) ao afirmar que "Cristoforo Colombo" era na verdade "Cristóban Colon" e que era judeu. Por isso sua motivação para atravessar o atlantico era a de encontrar a colonia perdida judia, fundada quando estes cruzaram o atlântico depois da diáspora judia e cuja rota já era conhecida pelos judeus desde o tempo do Rei Salomão, utilizada para trazer o ouro para a contrução de seu templo. Sim, Childress especula (é o que ele mais faz durante todo o livro) que o judeus podem ter chegado até o Mexico e ter entrado em contato com as civilizações pré-colombianas. Daí viria o tesouro para o Grande Templo em Jerusalém.
Achei o livro uma viagem, porém não menos interessante.
Childress ainda afirma que os Templários teriam um projeto: a construção da "Nova Jerusalém", longe de sarracenos e do Vaticano, no Novo Mundo. Daí as expediçoes de William sinclair e Nicoló Zeno a partir das ilhas Orcadas no século XIV.
Childress não segue um único raciocínio em sua obra, caracterizando, como já disse, uma sopa de teorias especulativas inacabadas e sem muito embasamento científico. Vale a pena compra-lo? Sim, vale, mas se tiver plena consciencia de que não se pode toma-lo como uma verdade absoluta.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Hawking, Big Bang, Deus, deísmo e eu...

Mas antes de começar nossa viagem pelo Revisionismo Histórico, preciso (eu digo, preciso...) falar sobre algo que constantemente me desafia. Digo isso pois os desafios impostos por estas idéias a mim acabam por atingirem os mais diversos aspectos, desde o lógico e racional até o religioso, cutucando minha fé em Deus.
Todos nós sabemos dos avanços de nossa ciência no estudo do Universo e de toda sua complexidade na busca por compreender sua dinâmica. Com tais avanços os cientistas hoje podem criar modelos teóricos sobre sua origem apresentando uma descrição hipotética dos eventos físicos que resultaram na criação do cosmos, sem necessariamente a existência de figura de um criador, de Deus.


Todos já ouviram falar na teoria do Big Bang. Para ser mais sintético a teoria do Big Bang diz que todo o Univero foi criado a partir de uma explosão. Desde então, toda a matéria que ela formou continua se expandindo no espaço. Ou seja, o maior diferencial que esta teoria trás é a de atribuir ao Universo uma história, uma evolução, calcando seu início sendo mensurado principalmente pela dimensão temporal, pois afirma que o Universo não existiu desde sempre, mas que teve um início. Antes disso, acreditava-se num Universo eterno, estático e imutável. A história da teoria do Big Bang tem início em 1917 com a publicação da Teoria da Relatividade de Albert Eisntein e 20 anos após com o astrofísico americando Edwin Hubble ao descobrir que as galáxias se distanciam uma das outras, descrevendo o fenômeno da expansão do Universo. Em 1927 o estrofísico Geroges Lemaître se aproximou da teoria de Einstein ao afirmar que o Universo está se expandindo e ao mesmo tempo se esfriando o que se supõe que em seu princípio ele era muito quente.
Por fim temos Stephen Hawking, aperfeiçoando a teoria do Big Bang ao adicionar o estudo dos buracos negros.

Em síntese, Hawking admite que a criação do Universo e os buracos negros possuem relação. A teoria da relatividade diz que o tempo se distorce quando um corpo se aproxima de outro com grande força gravitacional. A concentração do Universo num ponto de densidade infinita, a partir do qual, por meio do Big Bang, o Universo começou a se expandir, constitui uma "singularidade", ou seja, há uma descontinuidade entre o que "houve" antes do Big Bang e o que aconteceu depois. Assim, nem é possível saber o que houve antes a partir do conhecimento do que houve depois, nem seria possível antecipar a partir do conhecimento do antes, o que aconteceria depois do Big Bang.
Hawking diz então: "Pode-se imaginar que Deus criou o Universo em qualquer momento, pode-se imaginar que Deus criou o Universo no momento do Big Bang ou mesmo depois e de tal modo a nos fazer imaginar que houve um Big Bang, mas seria sem sentido supor que o Universo foi criado antes do Big Bang. Um Universo em expansão não inclui um criador, mas coloca limites, quanto ao momento em que ele teria feito a coisa". Creio que o que Hawking quer dizer é que se houvesse alguma coisa "antes" do Big Bang, esta coisa não seria o Universo, precisamente porque a partir do seu conhecimento nada se poderia prever quanto ao que ocorreria depois do Big Bang. Com efeito, logo a seguir Hawking explica o que é uma teoria científica: ela deve ser capaz de descrever de forma acurada um grande número de observações a partir de um modelo de poucos elementos e ser capaz de prever os resultados de futuras observações. É interessante notar que, Hawking apela para um argumento "teológico" para se decidir a respeito do "estado inicial" do Universo: ele diz que "parece que Deus criou um Universo que evolui de forma regular, de acordo com certas leis. Portanto parece razoável supor que há leis governando o estado inicial do Universo". Hawking usa aqui o argumento inverso ao da 5ª via de São Tomás, que dizia: Há ordem no universo, portanto existe Deus. O maior do físicos deste século, Einstein, já usara este tipo de argumento para rejeitar a explicação probabilística dos fenômenos quânticos: Não é possível, dizia ele, que Deus jogue sorte com o destino do Universo (Frase textual de Einstein: "Deus não joga dados").

Neste momento, nosso principal foco de discussão não está somente na teoria do Big Bang mas na própria personalidade paradoxal de Hawking que se descreve como agnóstico. Ele repetidamente tem usado a palavra "Deus" em seus livros e discursos, mas segundo ele próprio, no sentido metafórico e relativo.  Hawking declarou que não é religioso no sentido comum, e que acredita que "o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido criadas por Deus, mas Deus não intervém para quebrar essas leis". Hawking comparou a ciência e a religião durante uma entrevista, dizendo "há uma diferença fundamental na religião, que se baseia na autoridade, e na ciência, que se baseia na observação e na razão. A ciência vai ganhar porque ela funciona".
Em alguns trechos de seus livros, Hawking também parece seguir uma linha de pensamento baseado em Einstein ou em Leibniz, que se aproxima muito À linha de pensamento filosófica do deísmo. No livro "Uma breve história do tempo" ele cita que "tanto quanto o Universo teve um princípio, nós poderíamos supor que tenha um Criador". Ainda nesse livro, ele diz que "no entanto, se nós descobrirmos uma teoria completa...então nós conheceríamos a mente de Deus".
Porém, em seu mais recente e polêmico livro "The Grand Design", Hawking contradiz suas antigas declarações sobre a ideia de um criador e sugere que "Deus não tem mais lugar nas teorias sobre criação do Universo, devido a uma série de avanços no campo da física". No livro, numa declaração controversa, afirma que "por haver uma lei como a gravidade, o Universo pode e irá criar a ele mesmo do nada. A criação espontânea é a razão pela qual algo existe ao invés de não existir nada, é a razão pela qual o Universo existe, pela qual nós existimos", dizendo que o Big Bang foi simplesmente uma consequência da lei da gravidade.
A impressão que temos é que Hawking é receoso em muitos momentos ao afirmar ou mesmo a negar a existência de um Deus criador do Universo. Isso é compreensível quando um cientista encontra-se uma sociedade  cujo conhecimento científico é relativamente periférico à população em geral e por isso resistente a uma avaliação e reflexão mais profunda dos argumentos científicos apresentados por este, o qeu o levaria a citar Deus para fins melhorar a aceitação de suas idéias num primeiro momento. No entanto, independente da questão teológica que envolve, é necessário que seja considerado o contraponto relativo a teoria do Big Bang.


Se as observações sustentam a idéia do Big Bang, isso significa apenas que se trata de uma teoria altamente crível, mas não uma verdade absoluta e definitiva. A imagem de um universo resultante de um explosão geralmente se produz a partir de um lado muito quente, do qual a matéria se derrama para ocupar um espaço vazio. Só que, no Universo não existe centro, não existe vazio. A teoria do Big Bang, tudo acontece como se cada ponto explodisse, como se a explosão acontecesse em toda a parte. Também a noção de um tempo zero deve ser revista: esse ponto zero, a partir do qual o tempo escorreria, começaria quando a temperatura fosse infinita. Mas em física quântica não existe temperatura infinita, e nem sequer infinito. Ou seja, não há como remontar antes de 13,7 bilhões de anos: a ultima imagem que se pode obter é a de uma sopa de partículas antes do advento, o que não significa que nada existia antes dela mas sim apenas que se trata de uma questão à qual ainda não se tem meios para responder.
É nesse momento que acho interessante os pensamentos da corrente filosófica do deísmo, onde um Deus pode ter criado as leis que regem todo um universo mas que não intervém para mudá-las. Em momento algum gostaria de iniciar uma discussão em prol da existencia de Deus, mas sim sobre esse questionamento. Inegável em inúmeros aspectos o fato de que estamos tratando apenas de física teórica onde ainda nossa ciência indispõe de meios para que estas teorias sejam comprovadas senão apenas por modelos matemáticos. Isso significa que, considerando os atuais avanços inquestionáveis da ciência, negar a existência de Deus é a mesma coisa, porém de forma inversa, que negar a ciência como entre os séculos XII e XVI pelas sociedades medievais.  Ou seja, estamos novamente criando um preconceito sobre o assunto. 
No contexto apresentado, discutimos a criação do nosso Universo. Digo "nosso" Universo. Alguém por acaso chegou a se perguntar se existe mais de um universo? A teoria da inflação já incita dizer que o Universo é na verdade um "multiverso" pois cria um universo diversificado. Com essa teoria, em vez de se obter uma cobertura unida, nos encontramos diante de uma extraordinária manta de retalhos, composta de "meio ambientes distintos". Faz sentido, conhecemos apenas 4 dimensões universais: altura, comprimento, largura e  tempo, mas não será que não existem outras? A matemática, mais precisamente a algebra linear, e a física dizem que sim.
Então, Deus existe? A minha posição é sim, embora meu conceito de Deus está longe do conceito de domínio geral. A cada dia fico mais receioso a crer ou mesmo a aceitar a idéia de um Deus intervencionista, Pai Celestial ou coisa parecida capaz de interferir de acordo com sua vontade. Creio veramente que nada é por acaso e que a razão é a principal lei que rege nosso cosmos. A razão é Deus! Portanto, sim, Ele existe!
Para tentar fazer-me entender novamente relembro o renomado astronomo Carl Sagan em seu romance Contato. Nesta obra, Sagan conta a história de uma astronoma que viaja pelo espaço numa máquina construída sob orientação alienígena. Nesta viagem encontra-se com um espectro com a aparencia de seu pai já falecido e jovial. Esta entidade dirige-se a ela afirmando que não era seu pai mas que aquela forma foi "a maneira encontrada por eles para poderem comunicarem-se" pois sua natureza de fato seria incompreensível aos olhos dela como uma pessoa humana. Nesse breve contato a entidade responde perguntas antes sem respostas mas outras continuam sem quando a entidade responde "ainda não sabemos". Isto é, aquela mesma entidade, evoluída, que necessitou fazer uso de uma imagem conhecida da astronoma para se comunicar devido ao seu alto grau evolutivo também possui grandes dúvidas sobre o Cosmos e a existencia. A intenção de Sagan é clara ao sugerir que todo e qualquer ser possui uma escala evolutiva no Universo e que cada uma delas trará esclarecimentos a perguntas referentes ao seu Cosmos. Ou seja, estamos recém começando uma longa caminhada de compreensão do nosso Universo.
Minha crença na existencia de uma força superior é imutável senão na forma como a vejo. Sem dúvida que aquilo que criou todo esse complexo e organizado Universo e suas leis possui um poder inimaginável e aos olhos de nós simples seres humanos completamente incompreensível do qual chamamos simplesmente de Deus. Não podemos nos limitar apenas ao início da criação do Universo, pois... e antes? Bem, Hawking afirma que "antes não havia antes" pois não havia tempo, somente o tempo zero. Mas o tempo é apenas uma das dimensões que conhecemos. Seremos então estúpidos e soberbos para afirmar que não existem outras dimensões e que estas não venham a abrigar outros universos?
Então invocamos a filosofia ao perguntar o que havia antes do universo senão outro universo com dimensões que não conhecemos ou simplesmente não somos capazes de compreender? Hawking em uma série de TV para o canal NatGeo é categórico ao afirmar que Deus não existe (apesar de suas contradições em suas obras) pois ele não pode ter sido o criador do Universo. Limitamos então à grande força criadora apenas a criação do Universo?
A existencia de Deus está longe de ser descartada. Mas a releitura da forma como esta Força Criadora é representada ou compreendida não. O fato é que a ciência não deve ser temida pelas religiões pois será através desta ciência que as religiões obterão respostas que fundamentarão as suas reais razões de existirem.
Humilde opinião de quem vos escreve.
Bah, me puxei! Gostei de escrever esse post!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O Santo Graal parte VI: Os Cátaros


Depois de uma pá de tempo sem escrever, volto a apresentar mais um pedacinho de uma pequisa que realizei a 10 anos atrás na web sobre o Santo Graal. Já citados em vários livros desde Dan Brown e em várias teorias sobre o Santo Cálice, venho apresentar a história do s Cátaros. Pois bem, vamos lá...
Citados por Wolfram Von Eschenbach e Richard Wagner: os cátaros, a região do Languedoc na França, sua doutrina e a história cátara escondem detalhes da procura do Santo Graal no mínimo intrigantes. Em algumas passagens, o Santo Cálice é mencionado diretamente e noutras são subsídios para escritores e trovadores criando um emaranhado rico em detalhes sobre esta relíquia.
No início do século XII, a Igreja católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros ("Kataroi", puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de "Albi", na qual vivia um certo número de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sudoeste da França (da língua occitâna da região – “Língua do Oc”; Oc= ”Sim”, em oposição à “Langue d’Oui”, do norte da França). Também se designava freqüentemente esta região por “Occitânia”, que advém das mesmas raízes lingüísticas.
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a idéia de inferno, pois no fim o deus do bem triunfaria sobre o deus do mal todos seriam salvos.

Os cátaros organizaram uma igreja e seus membros estavam divididos em crentes, perfeitos e bispos. As pessoas se tornavam perfeitos (homens bons) pelo "ritual do consolament" (esta cerimônia consistia na oração do Pai Nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido à propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combate-la, sendo que no início tentava os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando trágicas medidas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo. Vemos aqui um motivo político para investidas contra as comunidades cátaras e sua doutrina. Poderia haver outros motivos para tais investidas?
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia à província de Narbona, somente a região de Albi ligada à província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux. O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo)
De acordo com este cenário, temos um motivo político para que a Igreja promova mais uma cruzada. Compondo as “Cruzadas do Ocidente”, a Cruzada Albigense vem por objetivo acabar com a heresia cátara no sul da França.
Em 1206, chegou ao Languedoc o bispo espanhol Diego de Osma, acompanhado pelo superior Domingos de Guzman, estes pretendiam instruir as massas ignorantes no catolicismo através da pregação. Obtiveram alguns êxitos, porém o assassinato de Pierre de Castelnau (legado do papa), em 1208, precipitou uma mudança na condução política da Igreja. Qual seria o motivo do assassinato? Seria os bispos apenas um ardil para um plano já definido de repressão violenta? Qual seria o real objetivo desta cruzada?
O conde Raimundo de Toulouse era o suspeito do assassinato, sendo excomungado pelo papa Inocêncio III, que escreveu ao rei da França, Felipe Augusto, para expulsar o acusado dos estados do Languedoc, ordenando uma cruzada contra Raimundo VI.
O novo legado do papa, Amaury, anunciou a cruzada contra os cátaros e contra os senhores que os protegiam. Um exército mercenário comandado por Simão de Montfort declarou guerra ao vice-condado de Trencavel, que estava sob proteção de Raimundo VI e Rogério de Trencavel. Raimundo VI teve que se humilhar ante a igreja, e acabou perdendo seus domínios.

Castelo de Carcassone
Em 1224 Luís VIII liderando os barões do norte, empreendeu uma cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo entre o rei da França e conseqüentemente que os domínios disputados passariam para a coroa da França (Tratado de Meaux, 1229). Raimundo VII teve que se submeter ao rei da França, sendo coagido a reconhecer a vontade da Igreja e atacar a heresia.
As cruzadas contra os albigenses duraram em torno de 50 anos.

 A relação entre os cátaros e os Cavaleiros Templários:

Desde seus primeiros tempos a Ordem do Templo mantinha uma certa relação compreensiva com os cátaros, especialmente em Languedoc, onde os Templários, a exemplo dos Cavaleiros Teutônicos, intensionavam criar um estado próprio.

Muitos cátaros e simpatizantes doaram grandes extensões de terra a Ordem. Existem autores que afirmam que pelo menos um dos fundadores da ordem era cátaro. Um pouco improvável, embora saibamos que Bertrand de Blanchefort, o sexto grão-mestre da Ordem Templária, procedia de uma família cátara. Quarenta anos depois da morte de Bertrand seus descendentes combatiam ombro-a-ombro com outros senhores cátaros contra os invasores nortenhos.

Montségur



O cerco à fortaleza de Montségur é o episódio mais misterioso e intrigante das cruzadas contra os albigenses.É dado, em 1241, o início ao sitio em torno do misterioso castelo de Montségur, uma fortaleza construída no topo de uma montanha, situada às farpas dos Pirineus. Montségur tornou-se um refúgio para aqueles que fugiam da catástrofe. A sua defesa era fácil, pois das suas ameias observava-se toda a região ao redor com grande alcance.
Bem apetrechada de alimentos e água a com ajuda do exterior, esta fortaleza conseguiu sempre resistir aos ataques, fazendo sempre desistir o inimigo, esgotado por longos cercos sem fim.
O grande bastião dos cátaros, outrora praticamente intransponível, é atacado e tomado de assalto em 1243. Durante o ataque os cátaros conseguiram retirar seu “tesouro” do castelo e escondê-lo (inicia-se a especulação em torno desse tesouro: poderia ser apenas riquezas, ou então que o tesouro era livros ou apenas alusão à sabedoria dos perfeitos, ou o próprio Santo Graal). A queda de Montségur marca o fim da igreja cátara organizada. Mais de 200 pessoas na ocasião morreriam em fogueiras no final do cerco. Alguns sobreviventes se refugiaram na Catalunha e na Itália. Uma outra fortaleza, a de Quéribus, caíra em 1255.
A idéia inicial era impedir a todo o custo a saída ou entrada de mantimentos para o seu interior, levando assim os seus habitantes à morte por fome, mas o cerco nunca foi suficientemente apertado a ponto de isolar a fortaleza. Muitas das tropas eram locais (simpatizantes dos cátaros) ou mercenárias (pouco confiáveis), o que tornava o bloqueio imperfeito, o que ajudou aos cátaros resistirem por dez meses.
Antes, porém, do castelo ser tomado pelos cruzados, algumas pessoas ali alojadas receberam o "consolament", desceram a montanha e se encaminharam livre de espontânea vontade, com as mãos dadas, para as fogueiras inquisidoras dos cruzados. Tudo isso antes da capitulação, em 16 de março daquele ano. Os defensores pediram uma trégua de duas semanas, enquanto ponderavam sobre a decisão a tomar, conforme propostas dos cruzados de rendição e absolvição pela Santa Igreja (não cumpridas, obviamente). Não se sabe o que os cátaros discutiram nestas duas semanas de trégua, mas com certeza deveriam estar sem vontade alguma de renegar as suas crenças, pois ninguém se quis converter. Haveria algo que eles escondiam que não poderiam nunca contar aos tribunais da Santa Inquisição? Sabe-se que, no fim da trégua, em 15 de março, vinte homens, seis mulheres e cerca de quinze combatentes receberam o "consolament" e tornaram-se “perfeitos”. A opção de martírio fora tomada em unanimidade e, na madrugada de 16 de março, entregaram-se.



Conta-se que, na noite que precedeu a rendição de Montségur, quatro homens "parfaits"(perfeitos) se esgueiraram do castelo, levando um fardo precioso, e seguiram pela vereda de Saint Barthelémy rumo ao castelo de Usson, em Aríege, na direção de Montreal de Sos. Como o tesouro em ouro e prata fora evacuado de Montségur oito semanas antes, é possível supor que os quatro homens transportavam um bem que os sitiados queriam conservar junto deles até os últimos momentos, mas que não deveria cair nas mãos dos inquisidores. O que seria? Depois de Usson, perde-se a pista do precioso fardo: segundo alguns pesquisadores, o respectivo depósito teria sido levado para Aragão, ou para o norte de Huesca, ou, mais provavelmente, para San Juan de La Penã.

Parte do mistério consiste no estranho fato de só na noite de 16 de março ter sido tomada uma medida concreta no sentido de se fazer evacuar o segredo. Se na verdade os quatro fugitivos transportavam algo de importante, por quê deixar para tão tarde a evacuação quando poderia ter sido feita três meses atrás? O segredo poderia ser transportado por fugitivos anteriores que também obtiveram sucesso.

Existe uma teoria que associa esta decisão à necessidade que os cátaros teriam de usar esse segredo até o dia 16 de março, possivelmente numa cerimônia religiosa cátara, que não poderia ser celebrada noutra data. O tempo de trégua coincidiu com o equinócio da primavera e também com a Páscoa. A estranha passagem de tantos leigos a perfeitos logo antes do fim da trégua poderá evidenciar qualquer cerimônia religiosa realizada. Se o objeto secreto fosse essencial para a cerimônia, isso explicaria a necessidade de o manter na fortaleza até o fim das celebrações.

Os Cátaros e as Lendas do Graal

É, contudo, outro assunto que costuma ser freqüentemente associado aos cátaros: o Cálice Sagrado. O próprio Richard Wagner visitou Rennes-le-Chateau em busca de algo relacionado ao Graal. A ligação dos cátaros ao Graal tem origem anterior à própria cruzada albigense, nos romances que misturavam conceitos cátaros com simbolismos cristãos.Muitos dos romances sobre o Graal foram atacados na altura das Cruzadas pelos eclesiásticos como sendo heréticos. A interligação entre os romances do Cálice e a história dos cátaros chega a ser flagrante: num dos seus romances, Wolfram Von Eschenbach situa o castelo do Cálice nos Pirineus, dando-lhe o nome de “Munsalvache” na versão original alemã, ou como é conhecido: “Montsalvat”. Será uma semelhança demasiada grande com “Montségur” para ser coincidência? E ainda mais quando Wolfram chama ao senhor do castelo o nome de “Perilla”. Como se sabe, Raymond de Pereille era o senhor de Montségur na altura do cerco, e o seu apelido foi encontrado em documentos da época como Perilla, na sua versão latina. Detalhe: o mesmo Eschenbach credita a descoberta do Santo Graal aos “Cavaleiros Moradores do Templo”

Pode-se dizer que, as lendas cátaras sobre o Santo Graal são a contribuição francesa no conjunto de lendas sobre o Santo Cálice, juntamente com especulações sobre as atividades dos Cavaleiros Templários na época. Existe também a lenda de que José de Arimatéia, após a morte, sepultamento e ressurreição de Cristo, tenha vindo viajar para o continente europeu a caminho da Bretanha e deixado na França o Santo Cálice aos cuidados de seu cunhado, Brons (A História de José de Arimatéia). Se ele tinha como destino a Bretanha, provavelmente tenha aportado em algum lugar no sul da França, então... Hoje, os habitantes da região creditam o paradeiro do Santo Cálice em alguma caverna, entre as montanhas dos Pirineus.

Em mais outra lenda, conta-se que:

”Durante o assalto dos cruzados à fortaleza albigense de Montségur, apareceu no alto da muralha uma figura coberta por uma armadura branca. Os soldados recuaram, temendo ser um guardião do Santo Graal. Mas, prevendo a derrota, os cátaros, ocultaram o Santo Graal num dos numerosos subterrâneos, ou foi emparedado em uma das várias muralhas da fortaleza, onde estaria até hoje”.

domingo, 28 de agosto de 2011

O Santo Graal Parte V: As Cruzadas


Como eu me propuz a escrever uma série de posts dedicada específicamente ao assunto do mitológico Santo Graal, inevitável não abordar por um momento o assunto das Sagradas Cruzadas. Afinal, foi exatamente no momento histórico em que ocorreu estas expedições militares de motivação religiosa que surgem as menções do Sacro Cálice na literatura medieval ocidental.
Sendo assim, nada mais correto que contextualizar históricamente a busca do Graal, tentando explicar alguns elementos que surgem ao longo da lenda do Cálice. Nesse caso, fazer uma breve leitura sobre as Cruzadas nos auxiliará a entender o fervilhante momento histórico onde Chréstien de Troyes, Wolfram Von Eschenbach e Robert de Boron conceberam suas obras bem como nos fará compreender melhor o proximo post que escreverei, que falará dos Cavaleiros Templários.
Pois bem, vamos lá...

Papa Urbano II e Monge Pedro conclamando os fiéis
"No dia 18 de novembro de 1095, o Papa Urbano II e o monge Pedro, o Eremita, literalmente botaram fogo no mundo ocidental. Atendendo aos apelos dos cristãos do oriente, o Papa reuniu nobres feudais em Clermont, na França, e pediu que libertassem Jerusalém dos muçulmanos. Foi um discurso fulminante. Começaram, aí, as Cruzadas, a verdadeira Primeira Guerra Mundial. Para os muçulmanos, foram 200 anos de invasões bárbaras que deixaram cicatrizes que doem até hoje”.
Super Interessante, Ano 9 N.º 10 out 1995

“... Estas expedições, religiosas e militares ao mesmo tempo, nas quais tomaram parte quase todos os países europeus, sucederam-se, com intervalos mais ou menos longos, dos fins do séc. XI aos últimos anos do séc XIII. Umas fizeram-se por terra, outras por mar.”
 Antônio G. Matoso. História de Portugal, Lisboa, 1939, vol. I, 72

A visita aos lugares santos de Jerusalém era a principal meta do peregrino europeu, até que os Turcos Seldjúcidas conquistaram a Palestina em 1078, impedindo seu acesso aos cristãos. Um dos mais caros valores da espiritualidade medieval estava sendo ameaçado, e os europeus não hesitaram em organizar expedições militares para “resgatar a Terra Santa das mãos dos infiéis”. Estas expedições receberam o nome de Cruzadas. Seus integrantes distinguiam-se do guerreiro comum porque usavam uma cruz em suas vestes como símbolo. Eram os guerreiros-vassalos do Cristo-Suserano.
As Cruzadas na Terra Santa começaram em 1095 e terminaram em 1291, com a derrota dos cristãos. Mas, fora da Palestina, continuaram até o século XVI. Houve cruzadas na Espanha e no Báltico, contra os pagãos da Letônia e da Finlândia, contra cristãos herálticos, como os cátaros franceses e os hussitas tchecos, e até contra camponeses sublevados na Alemanha. Todas foram convocadas pelos papas em nome de Cristo e em defesa da cristandade.


As cruzadas expulsaram os muçulmanos da Europa, expandiram a influência européia e criaram países latinos na Palestina que duraram 200 anos, mas falharam no essencial: não conquistaram a Terra Santa. Como se não bastasse tal fracasso, embora fossem convocadas para defender os peregrinos cristãos, perseguidos pelos muçulmanos em Jerusalém e os cristãos do oriente contra a expansão muçulmana, uma das cruzadas, iniciada no século VIII (a Quarta), invadiu Constantinopla, a Roma grega do oriente (também conhecida como Bizâncio, hoje Istambul), saqueou-a e repartiu o Império Bizantino entre barões europeus. Os cristãos gregos nunca mais perdoaram os ocidentais e consumou-se o cisma entre a Igreja Ortodoxa Grega e a Igreja Católica Apostólica Romana, que perdura até hoje.
Para os muçulmanos, a tragédia foi maior. Durante 200 anos, centenas de milhares de peregrinos armados, aventureiros, guerreiros, cavaleiros medievais e exércitos regulares liderados pelos reis da Europa desabaram sobre o Oriente Médio. Embora a guerra fosse contra os muçulmanos, no caminho até Jerusalém, os cruzados também atacaram os judeus.
Na palestina, conviviam cristãos de várias seitas, gregos, armênios, judeus, georgianos, muçulmanos sírios, egípcios e turcos. A cultura islâmica era mais próxima da grega, mais cosmopolita e mais humanista do que a cultura medieval. Mas os muçulmanos eram desunidos e guerreavam entre si, sem parar. Os cruzados encontraram povos independentes e souberam aliar-se com alguns.
Não eram raras as peregrinações de cristãos ao Santo Sepulcro. Os califas muçulmanos não se opunham às visitas, que acabavam sendo lucrativas para eles. No entanto, na segunda metade do século XI, os turcos dominaram grande parte da Ásia Ocidental. Rapidamente, os turcos assimilaram a fé muçulmana. Uma de suas tribos, os seldjúcidas expulsaram os cristãos e proibiram suas peregrinações ao local.
Sob o pretexto de libertar a Terra Santa e impedir o avanço muçulmano na Europa Oriental, o papa Urbano II incentivou a Primeira Cruzada.
As expedições armadas com o objetivo de libertar a Terra Santa do domínio muçulmano estenderam-se de 1096 até 1270. Oito foram as cruzadas oficiais, isto é, organizadas pelo Papa, pelas monarquias européias e pela nobreza. Na verdade, houve um fluxo ininterrupto de peregrinações a Jerusalém, armados ou não, que desembarcavam todos os anos durante a primavera.

Tomada de Jerusalem pelos Cruzados
A notícia da queda de Jerusalém e o apelo de Urbano II atingiram profundamente os anseios populares, reforçados pela pregação de Pedro, o eremita. Alguns milhares de despossuídos de toda a espécie dirigiram-se a Terra Santa, sob a liderança do místico Pedro sem nenhum preparo, formando uma verdadeira “Cruzadas dos Mendigos”. A fome levou os primeiros cruzados ao roubo e ao massacre das populações que encontraram pelo caminho. Apesar da ajuda fornecida pelo império bizantino foram dizimados pelos turcos. A Cruzada dos Mendigos foi totalmente destruída ao chegar na Ásia Menor.
No entanto, a expedição mais emblemática que relaciona-se com nossa demanda foi denominada de Primeira Cruzada que ocorreu entre 1095 e 1099: Em 1095 partiram oficialmente os cavaleiros da Primeira Cruzada. Seus chefes eram Roberto da Normandia, Godofredo de Bulhão, Balduíno de flandres, Roberto II de Flandres, Raimundo de Toulousse, Boemundo de Tarento e Tancredo, chefe normando do sul da Itália. Godofredo de Bulhão, então Duque de Lorena, foi eleito Defensor do Santo Sepulcro e seu sucessor foi rei de Jerusalém.
Passando por Constantinopla, onde receberam o apoio do imperador bizantino, os cruzados sitiaram Nicéia; tomaram o sultanato de Doriléia, na Ásia Menor; conquistaram Antioquia; e finalmente avançaram sobre Jerusalém, conquistada em 15 de julho de 1099, depois de um cerco de cinco semanas. O imperador Aleixo I forneceu apoio naval aos cruzados e fez acordo para que a primeiras terras conquistadas integrassem seus domínios. É nessa Cruzada que muitos surgem muitas narrativasd de fatos obscuros, muitos deles considerados apenas apologias ou mesmo lendas.Conta-se, por exemplo:

“... quando os cruzados sitiavam Antioquia... foram surpreendidos pelo exército de Mossul. Desesperados e com fome os cruzados estavam destinados ao fracasso, quando Raimundo de Toulouse recebeu um pobre padre provençal chamado Bartolomeu, que lhe disse que o apóstolo André lhe tinha aparecido em seus sonhos e dissera que uma relíquia capaz de trazer a vitória aos cruzados – a lança que transpassara o flanco de Jesus crucificado – estava enterrada no solo de uma cidade chamada Petrus. Raimundo seguiu o homem até a igreja que indicaria o local. Doze homens escavaram o dia todo, enquanto milhares deles esperavam no lado de fora da igreja. Perto do crepúsculo, o próprio Pedro desceu e voltou trazendo na mão a lança sagrada. Uma enorme ovação saudou sua reaparição. Quando os cruzados avançaram, precedidos da lança sagrada, mostraram-se irresistíveis. E ganharam a cidade de Antioquia.”

Os chefes cruzados fundaram então uma série de Estados Cristãos no Oriente Médio. Cuja organização obedecia ao sistema existente na Europa, o feudalismo. Foram fundados, na Primeira Cruzada, quatro estados latinos no oriente: o condado de Edessa, o principado de Antioquia, o condado de Trípoli e o reino de Jerusalém.
A conquista de Jerusalém foi episódio de grande carnificina. Segundo cronistas da época, os cruzados cometiam atos hediondos como estupros, canibalismo e penduravam as cabeças de seus inimigos em lanças para intimidar os muçulmanos a medida que avançavam sobre seu território.


Em junho de 1099, os Cruzados chegam a Jerusalém, que foi sitiada e capturada em julho. Os primeiros a porem os pés nas muralhas da Cidade Santa foram dois irmãos flamengos. Por essa proeza tornaram-se heróis legendários. Os guerreiros que permaneceram no oriente tornaram-se proprietários de terras, nos moldes do feudalismo europeu. Outros fundaram ordens militares, que foram importantíssimas para defesa das regiões conquistadas e para dar assistência aos peregrinos. Os monges-cavaleiros (Templários em 1100, Hospitalários em 1118, Teutônicos em 1190) acumulavam enorme fortuna em terras, por meio de donativos e de empreendimentos financeiros. No oriente, estes guerreiros eram mais poderosos que a nobreza e os outros representantes da Igreja.

Eu poderia escrever muito mais sobre as Cruzadas. Afinal, esse movimento militar foi o grande responsavel pelo incremento e renovação de toda a cultura ocidental, no momento em que os europeus entram em contato com a então avançada cultura árabe.
Entretanto, saber um pouco sobre As Cruzadas é necessário para que possamos compreender o que tenho a contar mais adiante.
O melhor está por vir...