terça-feira, 28 de março de 2017

Narloch e seu Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

Recentemente concluí a leitura de mais um livro: trata-se do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, escrito pelo jornalista Fernando Narloch.
O livro, como muitos já devem saber, é bastante polêmico, pois traz uma proposta revisionista da história do Brasil e da forma como essa mesma história é contada.
Entretanto, a fórmula como a qual esta obra foi concebida foi comercialmente um sucesso. Tanto, que Narloch se animou a escrever mais dois livros nos mesmos moldes, e não menos polêmicos: "O guia politicamente incorreto da história do mundo" e "O guia politicamente incorreto da América Latina".
Antes de entrarmos discussão a dentro (e se tem muito o que dizer sobre esse livro), convém descrever um pouco sobre o mesmo.

PS: só pra lembrar: não dou muita bola com os erros de ortografia, embora tente evita-los ao máximo. Sou blogueiro por esporte, não um jornalista profissional. Se não gostou, sorry...


O livro de 350 páginas é escrito de forma despojada, com uma linguagem nada rebuscada senão até mesmo apelando para o coloquialismo, sendo esse o motivo de ser um livro leve, fácil e pouco enfadonho de ser lido. Porém, embora venha a ser um texto leve, é irreverentemente inquietante e petulante para com os maiores conceitos que aprendemos nos bancos escolares sobre a história do Brasil.

"Zumbi tinha escravos"
"Santos Dumont não inventou o avião"
"João Goulart favorecia empreiteiras"
"A origem da feijoada é européia"
"Aleijadinho é um personagem literário"
"Antes de entrar em guerra, o Paraguai era um país rural e burocrático"
"Quem mais matou os índios foram os índios"

Estas são algumas das afirmações inquietantes que o livro trás, contrariando o que a academia brasileira tradicional prega sobre a história brasileira, especialmente a partir do período pós-ditadura militar, quando os esquerdas tomaram de assalto os diretórios acadêmicos dos cursos de ciências humanas nas universidades. É desde então que vemos a opinião pública malhar a campanha brasileira da Guerra do Paraguai tratando o Brasil como um marionete britânico, ou elevando as revoltas de Canudos e a figura de Zumbi dos Palmares como os maiores exemplos nacionais sobre a luta de classes, e por aí vai.
Até aqui não escrevi nada que em 5 minutos não se encontre no Google sobre o livro. A partir daqui vou passar a escrever o que realmente vi. Mas pra isso, devo falar um pouco do autor: Leandro Narloch. E como introdução... Wiki!



Leandro Narloch (Curitiba, 1978) é um jornalista e escritor brasileiro. Foi repórter da revista Veja e editor das revistas Aventuras na História e Superinteressante, do Grupo Abril. É mestre em filosofia pela Universidade de Londres.
Durante dois anos (de Dezembro de 2014 a Novembro de 2016), Narloch manteve a coluna O Caçador de Mitos no site da revista Veja. Desde Dezembro de 2016, mantém uma coluna no jornal Folha de S.Paulo.
Ganhou notoriedade em 2009, ao publicar o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, abordando imagens criadas em torno de personalidades e eventos marcantes da História do Brasil. O livro foi um sucesso de vendas.

Pois bem, além da Wikipedia, também saí campeando sobre o tal Narloch pela web onde encontrei manifestações de amor e ódio para com o moço.  É inegável, em primeiro lugar, a enorme carga ideológica nas suas três obras (mas, "quem não...?"), a ponto de eu mesmo reconhecer que ele pegou pesado em algumas coisas e forçou em outras, mesmo que tenha adorado a forma como ele esculhambou com os esquerdinhas que pintavam  a história ao seu bel prazer e como bem queriam que todos a conhecessem.
Narloch é polêmico. Mesmo tendo uma nítida opinião de direita, ainda não é consenso por aqueles hoje conhecidos como membros da "nova direita" (mesmo que ele também possa ser considerado um dos membros). Olavo de Carvalho, por exemplo, detona ele, conforme o video abaixo:


Mesmo assim, as opiniões de Narloch são contundentes e inquietantes. Sua forma despojada de escrever eleva o raciocínio ao sarcasmo, algo bastante característico nas redações da Super Interessante e da Veja que simplesmente irrita aqueles que estão sendo desafiados e leva os simpatizantes (como quem vos escreve) aos risos.
Esse é o Narloch.
No entanto, um detalhe quanto ao Narloch escritor. Ele se meteu no terreno espinhento por demais que é a história brasileira. Assim como Eduardo Bueno, Narloch está sendo mal aceito como escritor de livros de história por não ser historiador e sim jornalista. Essa é uma treta velha cujo argumento foi usado também para desfazer as obras de Eduardo Bueno, outro jornalista reconhecido por uma postura ideológica, não digo de direita, mas anti-petista.
De fato, trabalhar com história é complicado. Embora o jornalista também venha a consistir em intensa pesquisa, a formulação de textos e de teses históricas não poderá se restringir a leitura e compilação de registros históricos já existentes, mesmo que o processo de historização passe por isso também, mas sim na identificação de documentos, fragmentos, depoimentos, objetos e demais evidencias.
Mesmo assim, o livro (relembrando: estamos falando especificamente do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil") também recebe boas considerações por historiadores e especialistas da área quando afirmam que a obra se trata de uma nova forma de se abordar a história brasileira  e da necessidade de se extirpar estigmas maliciosos oriundos de manifestações ideológicas exacerbadas. A todo instante, o autor sempre relembra que os fatos históricos até então apresentados nos bancos escolares são produtos de interpretações ideológicas de intelectuais brasileiros de esquerda que gostariam de contar a história da forma como eles queriam e como queriam que nós a entendêssemos.

A história é contada pelos vitoriosos. 

E desde 1984 os vitoriosos, ano a ano, foram os intelectuais da esquerda: desde a tucanada (sim, eles são esquerda) até a petezada.
Mas,...
O livro é interessante. E faço questão de comentar algumas passagens que marquei.
Vambora.

 Narloch cita o historiador José Murillo de Carvalho logo no início do livro:

"A geração anterior foi muito marcada pela luta ideológica,exacerbada durante os governos militares, Divergências eram logo transpostas para o campo político-ideológico, com prejuízo para o diálogo e a qualidade dos trabalhos. A nova geração formou-se em ambiente menos tenso e polarizado, com maior liberdade de debate e um ambiente intelectual mais produtivo".

Essa foi a melhor definição, ao meu ver, de como a história do Brasil foi tratada por toda minha formação no ensino médio. Não é a toa que a minha geração formou professores de esquerda em sua maioria, o que já não ocorre tanto hoje, mesmo que os diretórios acadêmicos ainda estejam infestados pelos malas do PCdoB e do PSTU.
Ainda no inicio do livro se escreve sobre essa nova geração que não aceita mais a simplórias conclusões históricas após a redemocratização:

"...as interpretações que tiram do armário são mais complexas e, numa boa parte das vezes, saborosamente desagradáveis para os que adotam o papel de vítimas ou bons mocinhos...".

Divino!

O trecho agora trata do mito sobre o genocídio histórico indígena. Todos nós aprendemos sob a forma de um verdadeiro mantra que os índios foram massacrados no Brasil, especialmente pela dizimação e escravização sistemática dos povos indígenas pelos bandeirantes. Narloch escreve o seguinte:


"Muitos historiadores  mostram números  desoladores sobre o genocídio que os índios  sofreram depois da conquista portuguesa. Dize que a população nativa diminuiu dez, quinze, vinte vezes. As tribos passaram mesmo por um esvaziamento, mas não só por causa de doenças e ataques. costuma-se deixar de fora da conta o índio colonial, aquele que largou a tribo, adotou um nome português e foi compor a conhecida miscigenação brasileira ao lado de brancos, negros e mestiços - e cujos filhos, pouco tempo depois, já não se identificavam como índios".

Embora eu já tinha lido em algum lugar a respeito dessa "teoria", Narloch não trata essa questão como uma teoria, mas uma forte afirmação. Mesmo mostrando a referencias bibliográficas que utilizou para suas afirmações, me incomoda a veemência como se não deixasse espaço para qualquer outra ideia  a respeito respirar. Todavia, são conclusões que possuem sua lógica e evidencias claras na nossa sociedade de hoje. Um ótimo exemplo é a extraordinária história de respeitadíssimo e ilustre personagem da história contemporânea do Brasil: Cândido Rondon.


Ainda sobre os índios, Narloch detona a ideia de que o choque cultural entre índios e brancos acelerou a dizimação dos povos indígenas no Brasil. Cita, para tanto, o historiador americano Warren Dean:

"É difícil imaginar o quanto deve ter sido gratificante seu súbito ingresso na Idade do Ferro [...]". 

E complementa:

"No começo, os portugueses tentaram esconder dos índios a técnica de produzir metais, proibindo os ferreiros de ter índios como ajudantes. Mas a metalurgia escapou do controle e se espalhou pela floresta. A técnica foi transmitida entre os índios a ponto de os europeus, quando entravam em contato com um tribo isolada, já encontrarem flechas com pontas metálicas."

Sobre outro mito: o convívio harmonioso entre índios e o meio ambiente. Essa trecho é fantástico:

"...Em janeiro de 2009, um texto informativo da exposição Oreretama, do Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, dizia que a sociedade indígena 'era um tipo de organização que tendia a manter  o equilíbrio entre as comunidades humanas e o meio ambiente'. Não é bem assim. Antes de os portugueses chegarem, os índios já haviam extinguido muitas espécies e feito um belo estrago nas florestas brasileiras. Se não acabaram com elas completamente, é porque eram poucos par uma floresta tão grande.
As tribos que habitavam a região da Mata Atlântica botavam o mato abaixo com facilidade, usando uma ferramenta muito eficaz: o fogo."

Já passou pela sua cabeça esse tipo de coisa?

O único "senão" de Narloch sobre suas afirmações está justamente nas suas fontes. Na questão dos índios, por exemplo, o autor toma uma fonte (no caso o autor já citado Warren Dean) citando-a várias vezes e considerando-a como verdade absoluta, sem espaço para sua contestação.
Por conta disso, alguns o detonam, como o Prof. de História da América Leandro Karnal, no vídeo abaixo:



Isso pode significar várias coisas que vão desde a já mencionada forçação de barra ideológica que Narloch quis impingir em detrimento a tudo aquilo que ele condenou com relação à história contada pelos intelectuais de esquerda, passando por talvez o simples fato de que a natureza de sua obra ser justamente isso: perturbadora, instigadora, reacionária.
Talvez Narloch não queira ser conhecido como um renomado historiador, mas sim por ser autor de um livro divertido de se ler  recheados com fatos descritos que dão a contrapartida ao que hoje é oficialmente aceito. Talvez ele queira que pensemos e reflitamos a fim de entender como a história é contada.
Não acredito que seus livros, e em especial este que estamos abordando, venha a ser adotado como um livro didático nas salas de aula. Mas tenho certeza de uma coisa: aquele professor de história responsável irá apresentar e levar esse livro para a sala de aula para discussão. Um bom trabalho de sala de aula seria feito, assim como boas risadas. Enfim, uma maneira divertida de conhecer nosso país e sua riquíssima história.
Em breve outros posts a respeito de passagens sobre esse livro.
Porque ele é muito bom!
E recomendo...
Humilde opinião de quem vos escreve.


sábado, 4 de março de 2017

A Lista

Nos recônditos de Washington existe uma lista curta e ultrassecreta na qual constam nomes de pessoas que representam grandes riscos aos Estados Unidos. Sua mais recente adição é o Pregador, um terrorista que realiza sermões on-line incentivando jovens muçulmanos a assassinar figuras políticas e depois se suicidar por Alá. Não se conhece o nome, o rosto ou a localização do Pregador. Assim, o caso é passado para o Rastreador, um experiente oficial da Tosa - a Atividade de Apoio a Operações Técnicas -, com a missão de identificar, localizar e eliminar essa ameaça.

Mais um livro na estante dos "lidos".
Dessa vez novamente saboreando uma obra do mestre Forsyth: "A Lista". Lançado em 30 de abril de 2014. Aqui no Brasil, pela Editora Record.


Antes, porém, de se iniciar uma dissertação a respeito da obra, julgo mais do que conveniente apresentar seu autor, mestre dos romances de espionagens, o britânico Frederick Forsyth. Mas para isso, vamos atalhar caminho e pedir ajuda ao Wikipedia mais uma vez:


Começou a servir a RAF (Royal Air Force) como um dos mais jovens pilotos, tendo servido até 1958. Depois começou a trabalhar no Eastern Daily Press como repórter. Em 1961, se tornou correspondente da Reuters em Paris. Trabalhou também na Alemanha Oriental e na Tchecoslováquia, países onde obteve muitas informações que seriam, posteriormente, publicadas em seus livros. Retornando a Londres em 1965, trabalhou como repórter de rádio e televisão na BBC, o que lhe proporcionou a oportunidade de conhecer a fundo os grandes dramas da política internacional. Essa experiência no jornalismo o ensinou a ser minucioso e preocupado com as verdades históricas. Como correspondente diplomático assistente, cobriu o lado biafrense da guerra entre a Nigéria e Biafra de julho a setembro de 1967, e isto forneceu a ele conhecimento de política internacional, especialmente sobre o mundo dos soldados mercenários. Foi este trabalho e a pesquisa relacionada que interessaram a ele como verdade histórica. Em 1968, deixou a BBC para retornar para Biafra e cobriu a guerra, primeiro como freelance e depois para o Daily Express e para a revista Time.
Em 1970, após nove anos de intensa carreira jornalística, Forsyth teve a idéia de escrever um livro onde poria à prova os métodos de investigação de sua atividade como repórter. Escolheu um tema romanesco e de certo modo misterioso: as tentativas da extrema direita francesa de assassinar o General Charles De Gaulle, presenciadas por Forsyth em 1962 em Paris. Nasceria assim o primeiro de sua longa lista de sucessos: O Dia do Chacal.
A lista de thrillers que escreveu após o grande sucesso deste livro o tornou um best-seller internacionalmente reconhecido. Especializou-se em romances envolvendo espionagem e política internacional. Com O Fantasma de Manhattan, flertou com romances de suspense, mas o resultado foi decepcionante para seus antigos leitores. Estão entre seus grandes livros os romances A Alternativa do Diabo, Dossiê Odessa e O Quarto Protocolo,
Frederick Forsyth fala francês, alemão e espanhol fluentes, e tem viajado por toda a Europa, Oriente Médio e África, e estas experiências podem ser vistas na autenticidade dos seus livros.

Pronto. Thanks Wikipedia!

Dos livros escritos pelo cara, já devorei: Cães de Guerra, O Dia do Chacal, O Dossiê Odessa e agora A Lista. Destes, O Dia do Chacal ainda é o mais legal além de ser o mais antológico devido a sua versão cinematográfica e a lembrança do mais famoso terrorista do mundo, Carlos o Chacal. 





Mas isso é papo pra outro post. Vamos ao livro.

Como não poderia deixar de ser, o livro é mais uma aula de história e geopolítica contemporânea descrevendo e citando fatos e personagens da atualidade. O que chama a atenção de imediato, assim como nas demais obras e em suas respectivas épocas em que a narrativa ocorre, é a sintonia fina para com a realidade do momento, descrevendo os novos desafios das potencias globais a elas impostas por seus novos inimigos após a Guerra Fria e o 11 de setembro. Estamos falando do terrorismo islâmico salafista.

PS: Salafismo (do árabe سلفي, salafī, "predecessores" ou "primeiras gerações") ou movimento salafista é um movimento ortodoxo ultraconservador dentro do islamismo sunita. A doutrina pode ser resumida por ter "uma abordagem fundamentalista do Islã, emulando o profeta Maomé e seus primeiros seguidores".
Obrigado novamente Wiki...

Novos inimigos, sem uma pátria definida e espalhados pelo mundo, usando e abusando das novas tecnologias de informação e comunicação disseminadas pelo globo e alcançando a todos, cujo controle é praticamente impossível.

Tudo isso é, portanto, pano de fundo para a trama da obra A Lista. Creio eu que, por detalhe, Forsyth não tenha citado o ISIS (o tal Estado Islâmico) no contexto da obra. Talvez porque seu lançamento tenha sido em 2014  (considerem ainda alguns anos antes para a concepção da obra) e naquele ano esses caras não estariam tanto em evidência assim. Mas já vemos a citação da morte de Osama Bin Laden. Para deixar o lance mais tenso, Forsyth ainda aborda no contexto da obra a pratica da pirataria na costa da Somália e suas características.


Drones, hackers, telefones via satélite, redes sociais, criptografia,... uma parafernália tecnológica é empregada na descrição da narrativa com detalhes excelentes mas com linguagem não menos acessível. Mas sabe como é: quem conhece um pouco mais vai curtir mais e entender melhor o que ele queria descrever.

Além disso, CIA, FBI, Seals, SAS, Mariners, Delta Boys, Pathfinders MI-6,... um punhado de organismos e unidades de combate e defesa dos EUA e Grã-Bretanha são citados e descritos durante a narrativa, bem como os laços de comunicação e cooperação entre si, ao mesmo tempo em que o autor deixa claro todas as dificuldades que estas tem em combater inimigos silenciosos que agem nas sombras, como os terroristas da atualidade.

Toda essa caracterização me levou a imaginar como deve ter sido o processo de concepção desta obra. Fico imaginando o quanto Forsyth leu, pesquisou, consultou, investigou, entrevistou... Sem falar na porrada de contatos que ele deve ter feito para poder compilar tanta informação num único romance e de forma tão concisa quanto este. Trabalhar com um cara desses poderia ser o céu ou o inferno, dependendo do ponto de vista. Céu por tudo o que se poderia aprender com o cara. E inferno o quanto lixo o cara poderia se sentir próximo de alguém com tamanha capacidade intelectual.

A velocidade da narrativa é padrão Forsyth: rápida e de tirar o fôlego. Em determinados momentos o livro se torna enfadonho (qualquer livro tem essas partes) onde a gente cansa. Mas do meio para o final a coisa deslancha e prende de vez a nossa atenção quando não vemos a hora de ver como será o desfecho de tudo.

O único ponto fraco (se é que posso dizer que existe), é o final da narrativa que se resume numa cena de ação. Assim como nos demais livros de Forsyth, a cena final é descrita com riquíssimos detalhes, mas é curta e com um desfecho muito sóbrio, chegando a decepcionar o leitor um pouco.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o título: "A Lista". Não me pareceu ser um titulo muito apropriado tendo em vista que "a lista" resumiu-se a apenas um único inimigo. Não entendi o porquê da escolha desse titulo, mas...

Vale a pena?

Ah, vale!

Especialmente para aficionados em história como eu.

Melhor seria se rolasse uma versão cinematográfica.

Humilde opinião de quem vos escreve.

sábado, 29 de outubro de 2016

Anjos em chamas

A sequência de Voo fantasma, best-seller do Sunday Times e uma bomba de adrenalina de tirar o fôlego
Um cadáver pré-histórico sepultado dentro de uma geleira ártica, chorando lágrimas de sangue.
Uma ilha invadida por primatas raivosos fugitivos de um laboratório de pesquisas classificado com o nível máximo de biossegurança.
Um gigantesco hidroavião escondido debaixo de uma montanha, contendo uma sinistra carga nazista.
Um órfão sequestrado de uma favela africana, tendo em mãos a chave para a salvação do planeta.
Quatro viagens aterrorizantes. Um caminho intransponível.
Só um homem capaz de atravessá-lo.
Will Jaeger. O caçador.

by Skoob.



Quem ainda não conhece Bear Grylls?
Rapidinho então, da Wikipedia: 

Edward Michael Grylls, conhecido como Bear Grylls (nascido dia 7 de junho de 1974 na Irlanda do Norte), é um ex servidor das Forças Especiais Britânicas, aventureiro, escritor, apresentador de televisão e montanhista britânico. Ficou mundialmente conhecido ao apresentar o programa "À Prova de Tudo" e também "No Pior dos Casos" pelo canal a cabo Discovery. É atualmente Chefe dos Escoteiros da Inglaterra. A Prova de Tudo e No Pior dos Casos foram alguns de seus programas que colocaram sua vida em jogo.


O programa de TV de Bear Grylls, À prova de tudo, exibido pelo Discovery Channel, tornou-se uma das séries mais vistas no planeta, com uma audiência de mais de 1 milhão de pessoas.
Bem...
Aos poucos fui ficando fã do cara...
Mais ainda quando descobri que era chefe dos escoteiros ingleses. Sem dúvida se tornou uma referencia para muitos jovens mundo afora.
De bobeira passando na Saraiva quando me deparo com um livro onde estava escrito em letras garrafais o seu nome. Só não esperava que seria um romance. Então percebi que o cara também estava brincando de escritor.
O livro tem uma parceria em sua divulgação com o Discovery Channel Brasil e com a União dos Escoteiros do Brasil. Legal ne? Não é por menos, Bear é o Chefe Escoteiro da Associação dos Escoteiros do Reino Unido e tem uma legião de fãs no movimento escoteiro brasileiro, que atinge direta ou indiretamente 500 mil pessoas.

A foto dispensa legendas...
Uma agradável surpresa, ainda mais pela proposta de sua obra: um romance de espionagem e ação ao estilo Frederick Forsyth com pitadas de Dan Brown. Se consultarmos o site Skoob, vemos o livro indicado para fãs de livros de guerra, de espionagem, e de ação, como os de Frederick Forsyth, e de aventura e sobrevivência na selva.
Mas vamos à resenha do livro em si. Apesar da rasgação de seda e da real admiração pelo cara, devo ser honesto quanto ao livro.

Quer saber o que tem a ver essa imagem com o post? Leia o livro... os primeiros capítulos serão o suficiente.

Bem, nosso estimado chefe escoteiro está longe de se tornar um desses autores, seja o canastrão Dan Brown ou, muito menos ainda, o renomadíssimo Forsyth. Mas a tentativa é válida, pois resultou num inegável bom roteiro para um filme de ação e espionagem.
Como disse, a ideia é legal. Mas...
Ao tomar o livro nas mãos, confesso, me impressionei com as chamadas na capa e contra-capa: mulher congelada em uma geleira, hidroavião gigante nazista, macacos doidões, um garoto que é a esperança de tudo...enfim, de fazer os olhinhos brilharem. Logo de início, a explicação do autor sobre sua motivação em escrever esta obra também contribuiu para o aumento da expectativa quanto a narrativa desta estória.
Eis o problema: durante o transcurso da narrativa, os elementos são apresentados em suas devidas cenas e capítulos, mas de uma forma fria, superficial, e em muitos casos de uma forma coadjuvante, sem importância, levando o leitor a se perguntar: "tá, e daí?".
Parece que falta alguma coisa. O que se leu nas sinopses criou a expectativa de uma intrincada trama recheada com aqueles elementos e argumentos que os envolveriam. Mas não é o que acontece. Parece que muitos desses elementos estão ali apenas por estar sem fazer muito sentido , ou mesmo diferença, para a estória em si. Como se as pontas, embora não fiquem soltas, ao final da história pareçam que estão um tanto frouxas.
E convenhamos: "Caçadores Secretos" é muito clichê! Não é spoiler, mas se quer saber o que é , vá ler o livro.
Para um filme talvez seria o suficiente, mas para um livro creio que faltam argumentos para aqueles elementos fortemente anunciados tanto fora quanto dentro da narrativa do livro.
O ponto forte do livro é o esforço do autor em criar uma história verossímil, rica no detalhamento das cenas de ação, bem como nos elementos bélicos apresentados. 
Drones, dirigíveis, metralhadoras, helicópteros, trajes especiais,tudo ali bem descrito em detalhes técnicos. Uma diversão a parte pesquisar essa parafernália na web e constatar que de fato ela existe. Deem uma olhada...

Eis o airlander. Para saber mais, leia o livro...


Eis o Reaper. Para saber mais, leia o livro...

Outra coisa legal no livro é que ele trata de assuntos da atualidade. Sobrou até mesmo para menções ao Brasil e a nossa então presidente Dilma, citada somente como "a presidente". Nesse ultimo caso, é interessante notar como alguém enxerga o Brasil em uma trama sob o ponto de vista de um autor estrangeiro.
Por fim, é necessário enaltecer a grande sacada de Grylls em utilizar sua experiencia militar diretamente na narrativa da obra, bem como aspectos históricos riquíssimos da participação de membros de sua família na Segunda Grande Guerra: as reais motivações para esta obra.
Enfim...
O livro está longe de ser ruim. Mas não dá pra dizer que é um clássico da espionagem. Embora em muitos momentos da narrativa o autor me remonte a Frederick Forsyth e seus clássicos "Cães de Guerra" e "Dossiê Odessa".
Bear Grylls não faz feio como autor, mas eu pessoalmente esperava mais pois a expectativa foi grande.
Valeu como diversão. Me deu vontade de ler "Vôo Fantasma", primeiro de seus romances.



Humilde opinião de quem vos fala...

sábado, 30 de julho de 2016

Marco Polo

Não sei se com mais alguém funciona assim: dependendo de como as coisas estão em uma determinada época, a música, ou o filme, ou a roupa, ou a série de TV que o cara tá vendo acabam por ficarem marcadas. Há um ano atrás estava assistindo "Sons of Anarchy" e só não assisti toda ela porque o Netflix dispõe os episódios estilo a la Jack. Aí veio "Blacklist" e outras. Bem, caí fora da empresa em que trabalhava e tal e tentei assistir a série "Sherlock", mas como disse, essa aí marcou a época triste e chata que estava passando e não me deu tanta vontade assim de continuar assistindo, além de ser muito enfadonha.


Então, viramos a página... e despretensiosamente escolho a série produzida pelo Netflix "Marco Polo". Juro, de maneira despretensiosa. O que me agradou foi o título da série: personagem principal, remendo a uma temática histórica e tal. Nossa, que golaço.
Pra não ficar enchendo linguiça, vou fazer um Ctrl+C e Ctrl+V da sinopse da série:

Marco Polo é uma série de televisão dramática sobre os primeiros anos de Marco Polo na corte de Kublai Khan, o Khagan do Império Mongol e fundador da Dinastia Yuan, que durou de 1271 a 1368. A série estreou na Netflix em 12 de Dezembro de 2014.

A série foi criada e produzida por John Fusco e é protagonizada por Lorenzo Richelmy como Marco, com Benedict Wong no papel de Kublai Khan. Com um investimento estimado em 90 milhões de dólares, Marco Polo foi a iniciativa mais custosa produzida pela Netflix. Muitos fãs comparam o ambiente de intrigas e sexo com o criado pela série Game of Thrones.

A série é produzida pelo estúdio The Weinstein Company.

Em 7 de Janeiro de 2015, Marco Polo foi renovado pela Netflix para uma segunda temporada com 10 episódios."


Tá, é isso. Obrigado Wikipedia.
Agora é a minha vez.
Eu não sabia que, ao começar a assistir seus episódios, este seria um ano de alvoroço por causa da série. Afinal, seria em 2016 o lançamento da sua segunda temporada, já que a primeira fora tanto badalada e comentada. Bem, parece que nada é por acaso.
Não preciso também dizer que tá cheio de material sobre a série na web, então não vou ser pretensioso a ponto de tentar fazer uma resenha toda bancando o critico cinematográfico, a não ser dar minha opinião.
Em primeiro lugar, já no primeiro episódio o bagulho me agradou. De cara deu pra ver o capricho da produção, o que me deixou empolgado. Figurino, cenário, ... Tudo show de bola.
Em segundo, me chamou a atenção a ausência de grandes nomes no elenco, a começar pelo ator que interpreta o protagonista. Talvez por não ter um quilate suficiente deixou com que o personagem fosse sugado pelas sombras dos demais e da trama em si. Não que ele não tenha talento ou que comprometesse algo, mas bem que ele poderia ter dado mais peso ao personagem através de uma interpretação melhor. Aos demais, como a coisa toda se passa no coração da China, fica difícil juntar atores conhecidos e origem asiática. É ruim, hein?! Mas quanto a estes as interpretações matam a pau, o cara que faz o Kublai merece um premio. Achei 10!
Em terceiro, tem ação! E na medida certa. Não deve ser fácil manter o ritmo pirado de uma história de aventura e ação em uma série, dada a problemática e dificuldade de produção para com muitos episódios e tal. Mas tem muito kung-fu e luta de espada de qualidade. Bem legal! e sem exagerar, na medida certa.


Quarto: tem sexo e nudez! É ,... tem sim! Mas também na medida certa. Nada espalhafatoso como "Spartacus" mas também nada que não seja adequado para crianças menores de 16 anos. Dá pra dizer que tais cenas também são de bom gosto, mas tirem as crianças da sala.



Quinto: tem história. E é aí que tá. Toda a trama é baseada em contextos históricos, tanto sobre as viagens de Marco Polo, quanto as cruzadas e as conquistas mongóis. Mas historicamente elas sem encaixam?
Alguns podem dizer: que se dane, quem se importa se os fatos históricos precedem. Outros, como eu, gostariam de saber se tudo, alguma coisa ou nada, de fato, ocorreu na história.
Nossa querida Wikipedia nos ajuda (https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Polo). Marco Polo, de fato percorreu com seu pai e seu tio a Rota da Seda e se encontrou com Kublai Khan.



A última Cruzada foi em 1270 (a oitava cruzada). Marco nasceu em 1254 e morreu em 1324 e, portanto, ainda era contemporaneo das Cruzadas, o que respalda o envolvimento dos Cruzados na trama da série.
Pra finalizar, a brincadeira custou 90 milhões ao Netflix. Carinho, mas também mostra como eles tão levando a sério o projeto, o que é legal. E percebe-se pela qualidade.


Marco-Polo-Netflix5

Alguns mais exaltados ainda tentam compara-la ao "Game of Thrones". Bem, eu não assisto ao "Game..." porque é muito fictício e prefiro algo embasado em história mesmo, mas os que acompanham dizem que "Marco Polo" não chega aos pés de "Games"  em tramas e ação. Por mim não tem problema, esse não é mesmo o objetivo.
De qualquer forma, é uma bela série e suas duas temporadas possuem enredos distintos mas não discrepantes deixando motivos para imaginar o que virá na terceira, pois a coisa termina com muito em aberto.
Espero, pra finalizar, que nos próximos episódios o protagonista esteja mais presente, bem como seu ator mais imponente em sua interpretação. E é só! Se continuar assim, dosando as cenas de lutas, ação, sexo, nudez e diálogos, que alguns inclusive acham chatos e tal e eu não concordo com isso,está de bom tamanho. Os diálogos de Kublai com Marco são ótimos. Um embate interessante. Tão interessante quanto é a forma como a série na sua primeira temporada tentou mostrar o choque cultural de Marco.
Enfim, adorei... e recomendo.
Abaixo um trailerzinho pra dar água na boca.



Humilde opinião de quem vos escreve!

terça-feira, 28 de junho de 2016

O poço e as botas

Puxa...
Não tinha percebido que já era noite. Acho que tá na hora de dormir. Lavei minhas botinas de couro e as deixei para secar sob o para-peito do poço no fundo de casa, onde pega sol por mais tempo durante o dia. Acho que já devem estar secas.
Interessante! Acabo de ver que realmente escureceu. Como escureceu rápido! Céu limpo, crivado de estrelas. Uma bela noite, quente de verão. Lá no oposto do céu a lua cheia imponente a ponto de iluminar o velho pátio de casa.
A, esta casa: da minha família a mais de 60 anos. Existe à 80. Foi a casa paroquial antes. Volta e meia descobrimos segredos nelas, principalmente quando o reboco de alguma parede cai ou quando alguma parte da tinta se descasca, sem falar nas antigas moedas encontradas quando trocamos o assoalho. Alguns dizem que no porão da casa uma senhora morreu, quando estava sendo tratada pelo vigário da paroquia, escondida do resto das pessoas por estar sofrendo de tuberculose. Bobagem! nunca via nada, mas os arcos que sustentam as paredes, os antigos tijolos franceses maciços e o chão batido daquele porão dão mesmo um aspecto sombrio.
Enfim, adoro esse lugar e nunca vi nada que me assustasse de verdade, a não ser um gambá espertalhão que entrou para roubar algumas batatas do saco que o vô tinha comprado.
Ai, minhas botas.
Sabe duma coisa? Nunca tinha reparado direito nesse poço. O vô sempre pega água dali, todos os dias. E não tem jeito de convencer ele de instalar uma bomba. Não! Me lembro quando criança que ele não deixava de jeito nenhum que algum de nós se aproximasse dele. Ele dizia que era perigoso alguém cair e morrer afogado. Então eu e meus irmãos e primos sempre respeitamos. Talvez por isso esse poço tenha ficado esquecido, embora sua visão tenha se tornado a mais rotineira e comum, dentre tantos outros locais e formas que aquela casa tinha.
Então de longe começo a reparar naquele poço. Que interessante! Nunca reparei naquela mureta em torno do muro Agora, olhando bem, parece com aqueles poços de filmes: uma mureta de pedra, meia baixa, bem rústica. Na verdade, bem charmosa, daria para fazer boas fotos em torno daquele poço, bastaria ajeitar um pouco o cenário com algumas flores ou mais algum madeirame antigo com alguns baldes de latão velho, sei lá... Mas como não tinha reparado nisso antes?
Então, quando chego perto do poço, estando a dois passos dele, a escuridão da noite, mesmo que amenizada pela beleza daquela lua, me aplica uma peça e me faz tropeçar numa raiz de árvore saliente. Poutz, seria um baita tombo se não houvesse... o muro. foi nele que consegui me apoiar projetando meus braços e conseguindo me apoiar para não cair.
Beleza! Acidente evitado, se não fosse pelo esbarrão ter lançado meu par de botas pra dentro do poço.
Ah não!
Só que um detalhe me chamou a atenção: não ouvi barulho das botas caindo n'água. O que ouvi forma elas batendo em um chão seco. Que estranho! Hoje pela tarde o vô veio aqui pegar água e não falou nada que o poço poderia estar seco ou coisa parecida. E ainda entrou em casa com um balde cheio d'água do poço.
Bem, não sou mais guri. Acho que não preciso mais ter medo de me afogar. Claro, tá noite, e qualquer vacilada poderia sim causar um acidente nada leve por ali. Mas me chamou a atenção o fato de não haver barulho d'água, ou melhor, do poço estar seco.
Volto para a casa correndo e pego uma lanterna para dar uma olhada naquele poço. Ligo-a e projeto o foco de luz sobre o poço.
Nossa!
Que legal!
Foram minhas primeiras expressões. Então ali, a luz de um lanterna de pilhas, pela primeira vez nesses meus 39 anos de idade, olho para dentro daquele poço e me deparo quase que como um cenario de filme: um túnel de mais ou menos 5 metros de profundidade, todo ele revestido de pedras regulares, dispostas como um muro cônico de contenção. Nada de água, só consigo ver seu fundo, bem nítido por sinal, totalmente calçado com as mesmas pedras regulares das paredes daquele poço. Interessante é que, ao fundo, as laterais do poço apresentavam uma escuridão, com ose houvessem saliencias, ou como acusasse uma continuidade daquele poço na horizontal, como um túnel, um corredor, sei lá. E as botas, adivinha? Sumiram!
Embora eu realmente precisasse daquelas botas para trabalhar amanhã, não era isso que estava me intrigando nesse momento. O que está me deixando inquieto é esse bendito poço. E alguma coisa que, de alguma forma que não sei como explicar, me faz ignorar uma atitude obvia: chamar o vô e contar o que aconteceu e pedir algum tipo de explicação. Mas não.
 O poço não é muito largo, é bem estreito e as pedras que foram usadas nas paredes dele, embora regulares, ficavam bastante salientes, Dava para usa-las de forma bem segura como degraus. Sabe, um pé aqui, outro com a perna atravessando o poço. Não tinha como cair, não mesmo. E, apesar das 22 horas da noite, de não ter avisado ninguém, todo e qualquer medo ou simples receio de se machucar sumiu. Vou descer e ver o que tem lá.
A medida em que vou descendo, começo a ver mais claramente. Mais claramente? De noite, na escuridão, adentando um poço? Como assim? Não sei explicar. Em primeiro lugar, parecia que o poço estava se alongando, ou seja, não tinha apenas 5 metros. Mas estava ficando mais claro, mais nítido. Depois, faltando alguns metros para chegar ao solo percebo que não trouxe minha  lanterna mas consigo ver a minha esquerda que realmente havia uma saliencia na parede, bem grande. Era uma passagem e dela vinha um pequeno faixo de luz, amarelada como de vela ou fogo. Não foi preciso botar os pés no chão para já perceber que era uma passagem sim, e dava para algo tipo um corredor, um túnel, sei lá. A passagem era iluminada fracamente pela luz que imediatamente
identificava como de velas. Ela adentrava a esquerda daquele poço por uns 3 ou 4 metros, quebrando o acesso para a direita. De onde vinha a iluminação um pouco mais forte e que se projetada naquelas paredes de pedra regular. Parecia um daqueles corredores de castelos medievais.


O estranho é que o raciocínio da razão havia me deixado. Eu não estava questionando, ponderando nem medindo nenhum aspecto daquelas circunstancias. Alguma coisa fazia eu apenas avançar.
Então começo a percorrer aquele lugar. Andava, de uma forma instintiva, para frente. Faço a curva daquele corredor e percebo que ele se estende por unas bons metros. haviam umas 5 ou seis tochas pregadas na parede e acesas iluminando o caminho no qual já se percebia alguns acessos em suas laterais parecendo serem portas.
Em alguns momentos lampejos de razão me visitavam. Aquele corredor? Debaixo do quintal de casa? Será o que o vô sabe disso? Quem fez isso? Quem acendeu essas tochas? Então tem alguém aqui... Mas alguma coisa me dizia que aquelas coisas, aquelas tochas, simplesmente estavam ali. Assim, simplesmente, sem resposta para quem as acendeu, ou quem as colocou ali, ou mesmo quem construiu tudo aquilo. Mas alguém construiu aquele túnel.
Então começo a andar, a iluminação é fraquíssima. E logo a direita vejo uma porta enorme, pesada. Na verdade tudo aquilo parecia um galeria de celas, uma masmorra. Essa primeira porta que vislumbro está encostada, então eu entro. Me deparo com uma sala com uma mesa rústica e pesada com um castiçal de três velas acesas sobre ela e um livro grande, com encadernamento de couro. Não há ninguém na sala. Só aquela cena. Atrás da mesa, outra porta.
Me aproximo da mesa e foleio o livro. São palavras desconhecidas, todas elas. O livro não é impresso mas manuscrito. Instintivamente fecho o livro e olho em volta. Não há mais nada naquela sala. A porta por onde passei está fechada. Não me lembro de te-la fechada.
Então sigo, passo pela mesa e continuo abrindo aquela outra porta que havia avistado. Há mais um corredor, dessa vez sem iluminação alguma, senão a do candelabro que ainda repousa na mesa. Ando alguns passos e vejo outra porta a direita. Avisto uma mesa pequenina, como se fossem feitas para anões ou crianças e nela estão sentados dois gatos, um pardo e outro preto. Eles estão disputando queda-de braço sobre a mesa. Eu me aproximo deles mas minha presença não faz diferença alguma a eles. Sou totalmente ignorado.
Então saio daquela sala por onde vim e sigo mais a frente. Há outra porta, dessa vez a esquerda. Ao entrar vejo um senhor, um velhinho sentado em numa mesa onde aprecia de maneira concentrada um tabuleiro de xadrez com as peças já desarrumadas como se uma partida estivesse em andamento. O velhinho, de aspecto caricato, com um longo nariz, calvo mas com longos cabelos ao redor de sua calvície, usando um par de óculos arredondado de grossas lentes, veste uma túnica preta se dá ao trabalho de erguer a cabeça e me olhar muito brevemente demonstrando um constante sorriso. Olha para mim e logo baixa a cabeça voltando à sua concentração. Não vejo suas mãos. E não me importo muito com isso. Revolvo-me nos calcanhares para sair de mais aquele aposento. Quando estou passando pela porta ouço ele dizer em voz tremula "xeque-mate".
Retorno ao corredor e nesse momento não me lembro mais por onde vim, e nem mesmo reconheço aquele corredor por onde recém havia entrado. Mas dou mais alguns passos a frente e vejo outra porta, agora a minha esquerda. Então eu entro e vejo outra mesa com mais um castiçal de três velas acesas iluminando o ambiente sobre ela e um cálice de vinho de  cobre. Era vinho, eu sabia desde o começo que nele havia vinho. Então o apanho e bebo todo o vinho. Por que eu fiz isso, eu não sei.
ao baixar o cálice na mesa, vejo ao fundo daquela sala, na penumbra, uma armadura de cavaleiro medieval ao lado de outra porta.
Então vou para lá e ao me aproximar a armadura se move e com seu braço abre esta porta destrancando uma antiquada fechadura. Eu não me assusto, tampouco sinto medo. A próxima sala é a sala do Rei. E ali está ele sentado em seu trono com o dedo em riste aos berros chamando e dando ordens para um lacaio que não aparece. O Rei não se incomoda com a minha presença, nem mesmo a acusa. Parecia ser um rei sem reino.
Eu dou meia volta e, ao lado da porta que passei, outra está aberta e projetando uma fraca luz de velas. Passo então por esta porta e percebo que estou pisando em moedas. Não sei se valem alguma coisa ou não, mas dá pra perceber que são moedas. Ao levantar minha cabeça depois de contempla-las percebo estar em outro grande corredor onde no meio dele, exatamente no meio, há um aparador com um espelho e sobre esse aparador outro castiçal com tres velas acesas. Chego próximo ao espelho e vejo meu reflexo. Nada de anormal. Sigo por este corredor até seu fim onde há outra porta.
Então abro esta porta e vejo alguém sentado em uma mesa. Uma pessoa sentada em uma mesa com um baralho na mão Essa pessoa veste uma especie de habito com capuz. Não vejo seu rosto. Me sento a sua frente e recebo as cartas. Estou jogando um jogo que não conheço as regras, nem sabia que conhecia algum tipo de jogo de cartas. Mas estou jogando.
O jogo termina. Sem saber quem ganho ou perdeu, assim como nenhuma palavra entre eu e aquela pessoa é trocada.
Ao sair pela porta de onde vim percebo que exatamente a esta existe um acesso que não havia percebido antes. É um acesso para uma escada. E é por lá que eu vou. Então começo a subir uma escada circular. A escada parece não ter fim. Parecia estar em uma torre ou algo assim onde lá em cima dá pra avistar uma janela de onde incide a luz da lua. Mas estou muito cansado, sento nos degraus para descansar.
Que houve?
Acordo com alguns raios de sol que passam pela janela mal fechada do meu quarto. Então foi um sonho! Apenas isso. Mas que sonho mais louco. Se eu ainda bebesse ou usasse algum tipo de entorpecente, mas nem um tapinha num baseado eu dou. que coisa estranha. Então salto da cama e pela janela vejo aquele poço e sua mureta. Fico parado em pé na janela por alguns minutos, meio que me acordando ainda daquele sonho louco que tive. O interessante é que lembro de cada detalhe. Nossa, muito estranho. E por uns 5 ou 6 minutos fico ali, entre as lembranças daquele sonho e a visão do poço, onde supostamente seria o cenário daquela aventura surreal. Até o momento que percebo o gosto estranho na minha boca: vinho.
Logo em seguida, meu vô bate na minha porta e me entrega minhas botas. "Ve se deixa elas caírem no poço de novo..", . Estavam encharcadas d'água. Quando pego uma delas de mau jeito, o cano da bota se projeta para o chão deixando cair algo que estava dentro dela: o cavalo, uma das peças de um tabuleiro de xadrez.
Então olho para minha cama e percebo algo debaixo do travesseiro. duas cartas de um baralho. O coringa e o Rei de Copas. A fisionomia do coringa não me era estranha: o velhinho xadrezista.
Olho para a minha porta e vejo meu vô que se dirige a mim: "Escuta rapaz, tu sabe o que minha lanterna estava fazendo lá fora no chão, do lado do poço?"
Ele me dá uma piscadela e volta pra cozinha.




segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Mistério de Rennes-Le-Chatêau

Depois de quase dois meses de ausência, cá estou novamente.
Após um crash em meu notebook, a maior parte da minha antiga pesquisa sobre o Santo Graal (ou melhor, toda ela) foi pro saco. Fazia tempo que gostaria de retornar a escrever sobre o tema ou assuntos que orbitassem essa demanda, mas, para isso, seria necessária uma pequena pesquisa sobre o assunto.
Então vamos lá: o tema em questão deste post há muito tempo gostaria de abordá-lo, mas sequer em minhas anteriores pesquisas eu o havia feito tamanha foi a riqueza de detalhes que o compõem. É claro que, com o passar do tempo, passamos a ser mais criteriosos no que lemos e escrevemos, discernir um pouco mais o que é sério do que é fanfarra.
Bem, o mistério sobre a aldeia francesa de Rennes-Le-Chatêau é um misto dessas duas coisas. Mas para não comprometer o grau de curiosidade sobre o assunto, vamos imediatamente nos remeter ao que elevou este lugarejo misterioso a local de peregrinação de vários entusiastas das conspirações históricas.


Rennes-Le-Chatêau situa-se ao sul da França, na região de Provence, mais especificamente no Languedoc logo acima dos Pirineus, antigamente conhecida como Oquitânia (Occtane). Esta região por si só já é berço de muita história interessante e de especulações em torno dela.
O mito de Rennes-Le-Chatêau está em torno da figura do padre Bérenger Saunière que fora transferido para a paróquia local em 1877 com então 33 anos. Conta-se que o então pároco dá início a pequenas obras de restauração na igreja da aldeia dedicada à Santa Maria Madalena e que durante estes trabalhos encontra um possível tesouro que abala totalmente sua vida refletindo em suas próximas ações ao longo de seu trabalho na paróquia.


De forma sintética, tudo começa quando o padre resolve remover o altar-mor da nave da igreja e encontra em uma das colunas de sustentação, uma cavidade contendo jóias e manuscritos. Ao descobrir tais objetos imediatamente suspende as obras dispensando os pedreiros envolvidos e começa a trabalhar solitariamente a fio por dias e noites.
Após esta descoberta, Saunière começa a gastar quantias incompatíveis com a sua condição de padre nas obras de reformas da igreja, do cemitério em anexo bem como na construção de novos prédios adjacentes a estrutura. Não somente a origem do dinheiro empregado passa a ser já um mistério como também a forma como o empregou, começando por detalhes peculiares na ornamentação da igreja, sugerindo a adição de mensagens subliminares ao longo de toda a estrutura, assim como em pequenas viagens de destino desconhecido e hábitos extravagantes, como a coleção de tecidos e selos.

      

Para poder contextualizar um pouco, convém remontarmos um pouco da história daquele local e vinculação com fatos históricos remotos.
Em 66 d.C. a Palestina revoltou-se contra o domínio romano. Foi o Imperador Tito que em 70 d.C. deu um fim a situação quebrando o pau e arrasando Jerusalém expulsando de vez os judeus da Palestina (a famosa Diáspora). O Templo de Salomão foi saqueado e o seu conteúdo foi levado em grande pompa para Roma. Para a chegada do espólio do saque à Cidade Eterna, um enorme cortejo foi organizado de modo a receber um tão ilustre tesouro. Pois bem...
No ano 410 Roma cai e a Cidade Eterna foi saqueada pelos bárbaros visigodos chefiados por Alarico, o Grande. Todas as riquezas da cidade foram capturadas e o tesouro do Templo nunca mais foi visto. Durante a Alta Idade Média, conhecida como a Era das Trevas devido a queda de Roma e a falta de organização política e militar da Europa, a região do Languedoc foi de domínio de vários povos até a sua tomada pelos Francos sob o domínio de Clóvis: Iberos, Estrogodos, Celtas e...Visigodos. Sim, a região do Languedoc teve presença visigótica de 440 a 720.
A partir daí muitas peças começam a se encaixar, pra quem tem uma boa imaginação e gosta de histórias de mistérios...
Pra início de conversa, é no sul da França que surgiram muitas das lendas referentes ao Santo Graal e suas derivações. A mais famosa delas na atualidade, a de que o Santo Graal é na verdade um conhecimento e não um objeto cálice, como sendo a menção ao "Sangue Real" (uma linhagem de reis merovíngios descendentes diretamente de Jesus Cristo com Maria Madalena) obtém contextualização através de várias lendas locais. Uma delas fala sobre o suposto desembarque de José de Arimatéia que levava Maria Madalena e sua filha Sara (filha de Jesus) fugidos da Palestina, onde Sara passaria a ser venerada por uma imagem conhecida como a "Santa Negra" devido a sua pele mais escura. Segundo a lenda, Sara teria originado a linhagem dos reis merovíngios. Outras tantas, como a lenda do Rei Pescador, somam-se ao passado mitológico da região. Soma-se a tudo isso o fato de que esta região foi também refúgio dos cátaros (dediquei um post só sobre esse assunto a um tempo atrás), ceita medieval que também carregou consigo uma boa dose de mito a cerca de serem possíveis guardiões do Santo Graal.
Enfim, voltando a Rennes-Le-Chatêau...
Como já falamos, tudo começa quando Saunière resolve trabalhar em reformas na igreja.
Na igreja, começou por efetuar apenas as alterações essenciais. Durante estes primeiros trabalhos, decorridos por volta de 1886-87, Saunière tentou remover o altar-mor da igreja, peça composta por uma pedra que descansava sobre dois pilares. Segundo se diz, um estava em bruto e o outro esculpido. Em um destes pilares afirma-se ter descobertos dois tubos de madeira contendo pergaminhos.
Ainda durante as obras de restauro da igreja de Sta. Maria Madalena, Saunière levantou um bloco de pedra que estava colocado com a face para baixo em frente ao altar, recorrendo à ajuda de dois trabalhadores. Estes teriam notado imediatamente que se tratava de uma sepultura. Segundo a tradição oral da aldeia, Saunière mandou-os imediatamente embora, exigindo não ser perturbado e proibindo a entrada de quem quer que fosse na igreja. Nesse dia teria trabalhado até tarde, e mesmo noite a dentro, no interior da igreja. Teria comunicado pouco tempo depois a descoberta aos seus superiores imediatos. Não se sabe ao certo o que estaria debaixo do bloco, que teria sido esculpido no século VII ou VIII, mas provavelmente cobria uma câmara funerária. É perfeitamente possível que ocultasse uma câmara com restos mortais e até pequenos tesouros de antigos senhores da região. De fato, Saunière ofereceu a alguns amigos moedas de ouro, um cálice e até jóias visigóticas. Esta pedra ficou conhecida por "la Dalle des Chevaliers" (a Laje dos Cavaleiros).
A partir desse momento, Saunière começa literalmente a viajar na batatinha (ou nem tanto, veja no fim do post porque). Uma série de providências esquisitas a cerca da ornamentação da igreja foi tomada pelo padre aguçando a curiosidade, consumando assim o mistério de Rennes-Le-Chatêau.
Em 1891, quatro anos depois da remoção do altar-mor da igreja, Saunière decidiu aproveitar o pilar esculpido do altar-mor e colocou-o no exterior, debaixo de uma estátua da Virgem de Lourdes. Ao fazê-lo, mandou gravar uma inscrição que ainda hoje é suficientemente legível: "Mission 1891". Há quem veja esta inscrição como um marco deixado por Saunière para a posteridade, assinalando o ano de 1891 como o ano do início da sua "missão". Que missão seria esta? Não se sabe, mas estará certamente relacionada com as várias restaurações e construções que Saunière empreendeu em Rennes-le-Château.
E assim o padre seguira com uma série de ações bizarras, tais como:
a) Ter gravado na entrada da igreja a frase em latim terribile est locus iste (este lugar é terrível);


b) Postado na entrada da igreja a estátua de um demônio ao qual alguns creem ser a imagem do demônio Asmodeo, guardião dos tesouros;


c) A colocação de uma via-sacra no interior da igreja, da esquerda para a direita, apresentando uma série de inconsistências, algumas óbvias, outras sutis sendo as duas principais: na oitava estação, há uma criança vestida com uma capa escocesa e na décima quarta, onde está retratado o episódio de Jesus a ser levado para o túmulo, o céu está pintado num tom escuro, noturno, como se sugerisse que Jesus tinha sido enterrado à noite. 

     

d) A profanação de túmulos do cemitério ao lado da Igreja, como a do sepulcro de Marie de Négri-d'Ables, mulher do marquês de Hautpoul de Blanchefort, que teria sido desenhado e construído um século antes pelo padre Antoine Bigou, o mesmo que se diz ter sido o autor de dois dos pergaminhos atrás mencionados. Na pedra sepulcral, Bigou mandou gravar uma inscrição aparentemente normal, apesar de conter erros de soletração e de espaçamento, mas que curiosamente constituiria um anagrama perfeito para a decodificação do segundo texto descoberto por Saunière.


e) A aquisição de uma cópia de uma pintura de Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie ("Os pastores da Arcádia"). Até há bem pouco tempo, perto de Rennes-le-Château, em Arques, existia uma sepultura igual à pintada por Poussin.


f) A construção de uma mística torre, a Torre Magdala, nos arredores da aldeia.


g) E por aí vai...

Só que tem muita coisa mal contada nessa história...
Esta trama histórica cruza-se, por "acaso do destino", com a de dois amigos parisienses, entusiastas do esoterismo e da mitologia, que tinham ouvido falar dos caçadores do tesouro de Rennes-le-Château e das aventuras e desventuras do "padre dos milhões". Tratava-se de Pierre Plantard, mitômano erudito de aspirações aristocráticas, e Phillipe de Chérisey, marquês de título, ator e surrealista, escritor e fiel braço direito de Plantard. Juntos, percorrem o sul de França e a região de Rennes-le-Château, recolhendo depoimentos da boca dos habitantes locais. Conseguem construir sobre as lendas do padre Saunière, uma boa atochada, um conjunto de mitos modernos e antigos baseado em meias verdades e meias mentiras onde nomes de locais reais e de pessoas reais são misturados com acontecimentos fantasiosos e com documentação forjada. Plantard apresentava-se como "Pierre Plantard de Saint-Clair", o herdeiro legítimo do trono de França, descendente do rei merovíngio Dagoberto II, uma realização inventiva de Chérisey, o artista. Foi Chérisey que criou falsos pergaminhos em código que, supostamente descobertos por Saunière durante as suas obras de restauração da igreja de Santa Maria Madalena provariam a veracidade deste "grande segredo oculto durante séculos". Os picaretas resolvem dar mais credibilidade à sua montagem depositando documentos falsos na Biblioteca Nacional em Paris ao longo dos anos sessenta onde está afirmado que existe uma organização secreta de mais de mil anos chamada de "O Priorado de Sião". Plantard e Chérisey apresentavam-se como a face do Priorado, onde este é responsável por proteger uma linhagem real secreta, da qual Plantard seria o atual descendente. A mitologia de Rennes, graças aos caçadores de tesouros e ao "Priorado de Sião" cresce em popularidade, atingindo toda a França.

Pierre Plantard (1920-2000)
Pierre Plantard
O assunto se globaliza com a entrada em cena dos britânicos Lincoln, Baigent e Leigh. Este trio tinha ouvido falar da história do padre de Rennes, e achou que era matéria de best-seller. Não podiam estar mais certos. Na internacionalização do mistério, foi decisivo o papel destes que escreveram em conjunto a obra Holy Blood, Holy Grail (editado no Brasil como O Santo Graal e a Linhagem Sagrada).
A história deturpada de Rennes iria encontrar uma fama bem maior do que aquela para a qual tinha sido destinada. O trio britânico iria fazer escola, levando ao aparecimento de uma claque de seguidores, que surgiriam mais tarde com as suas obras, e cujo babaca que vos escreve nesse momento comprou uma pá de livros nos seu calor de euforia sobre o assunto. Autores como Lionel e Patricia Fanthorpe, Michael Bradley, Richard Andrews e Paul Schellenberger, Robin Mackness e Guy Patton, David Icke, Ean Begg, David Wood, Ian Campbell, Patrick Byrne, Lynn Picknett e Clive Prince, Christopher Knight e Robert Lomas, Marilyn Hopkins, Graham Simmans, Timothy Wallace-Murphy, Andrew Sinclair, Laurence Gardner, Barbara Thiering e Margaret Starbird fazem todos parte da criativa "geração Rennes". Nasceram e cresceram com a leitura das obras de Gérard de Sède, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln. Todos se tornaram adeptos da mitologia de Rennes, e as suas obras revelam uma adesão total e inabalável às teses do Priorado de Sião. Frequentemente, fazem referências cruzadas às obras uns dos outros, elogiando-se e prefaciando-se mutuamente, de forma a transmitir ao leitor a ideia falsa de que há consenso e plausibilidade científica nas suas teorias. Portanto, se verem algum livro destes caras em alguma livraria, afaste-se imediatamente.
Então, pra fechar a conta, temos o espertíssimo caça-níqueis do Dan Brown, "O codigo Da Vinci" que mais uma vez dá uma ressuscitadazinha  na mitologia de Rennes-Le-Chatêau e consagra a questão da linhagem sagrada como o maior manancial para romances e obras literárias distorcidas dos anos 2000.
Ta bom, ta bom, mas... e os outros detalhes pitorescos elencados acima sobre as excentricidades do padre acerca da reforma da Igreja em Rennes? Evidentemente que, para cada uma destas e tantas outras peculiaridades na história de Saunière em Rennes deve-se ter uma atenção toda especial, pois é devido ao conjunto de todas estas que fazem da mitologia desta aldeia única. Os argumentos que recém apresentei acerca da vigarice de Plantard e seu comparsa desmontam sim boa parte da mitologia moderna de Rennés-Le-Chatêau (moderna porque surgiram em meados dos anos 70 e 80 graças a safadeza dos supracitados). No entanto, não destrói com a mística do local nem com a totalidade de seus mistérios, longe disto. Embora muitas das ações misteriosas do padre possam ter explicações simples e não muito retumbantes, outras ainda permanecem passíveis de especulação histórica e fantasiosa. Além do mais, convenhamos: o padre Saunière é, sem dúvida alguma, um personagem pitoresco e intrigante, pois foi capaz de captar para si inúmeros mistérios onde cada um deles pode até ter explicações, mas de diferentes naturezas e sempre com um pouco de esforço imaginativo. Obviamente que não poderei me dedicar a elucidar todos esses pontos porque senão teria que dedicar um blog inteiro sobre o assunto.
Na verdade, o que temos aqui, portanto, é a detonação de um mito? Talvez sim talvez não. Mas mesmo assim o fascínio por histórias como esta estão longe de acabar... e da própria Rennés.
Para quem quer ler mais sobre o assunto, uns link legais:

Abração a todos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O Dossiê Odessa

Fazia tempo em que um livro não prendia tanto a minha atenção e entusiamo em sua leitura quanto este, pois, fissurado por história e apaixonado pela II Guerra Mundial, suas causas e consequencias, como sou, minha empolgação ao ler este livro não poderia ser diferente.
Romance clássico de espionagem de autoria do especialista no assunto Frederick Forsyth, O Dossiê Odessa é muito mais que um bom romance no momento em que consideramos muitas de suas passagens como factuais, pois de fato, elas são.
O que me deixa puto da cara (comigo mesmo, diga-se de passagem) é: "como não li esse livro antes?" Já havia ouvido falar de Frederick Forsyth, inclusive já lido um de seus livros (Cães de Guerra), então como que ainda eu não tivera conhecimento deste? Ao comentar com meu tio, este prontamente afirmou já ter ouvido falar do livro "pois era um clássico do gênero", segundo ele mesmo. Porra meu...


Então, apresentemos a obra:
Forsyth nos apresenta logo no prefácio que o significado de Odessa nada tem a ver com a cidade Russa ou a cidade homônima nos Estados Unidos e sim uma abreviação para Organisation Der Ehemaligen SS-Angehorigen (não sabem como foi horrível escrever o significado dessa sigla) que significa, em resumo Organização dos Ex-Membros da SS, sendo esta o tema central do plot do livro.
Em síntese, a narrativa conta a história do repórter freelancer Peter Miller que se envolve numa investigação e ao acaso se ve envolvido com a Odessa. Não é minha intenção, como de praxe em meus posts, descrever ou sintetizar a obra mas sim analisá-la e contextualizá-la.
Vários foram os aspectos que me chamaram a atenção nesse comance publicado em 1972. O primeiro deles é o período e local onde a história se passa: a Alemanha do pós-guerra, 1963, justamente quando o Presidente dos EUA John Kennedy é assassinado em Dallas. O assassinato de Kennedy em si não reflete em nenhum momento na trama senão no auxilio ao leitor para que se situe na geopolítica daquele momento. Forsyth cita em sua obra personagens verídicos, mesmo que em alguns casos brevemente, como o Presidente Egípcio Anuar Saddat, o premier alemão Konrad Adenauer, entre outros.
Sempre foi de meu interesse saber um pouco mais de como era a Alemanha, sua organização política e economica, logo após a II Guerra e o livro tem como pano de fundo justamente essa realidade. A obra retrata o milagre economico alemão do pós-guerra e a crise cultural, ética e moral vivida por sua população ante os crimes horrorosos promovidos pelos nazistas à humanidade e desconhecidos por ela. O protagonista da trama Peter Miller possuia apenas 29 anos e seus questionamentos frequentes sobre os fatos ocorridos há 20 anos atrás em seu país permeiam a narrativa.

Frederick Forsyth
Outro aspecto interessantíssimo sobre este livro é o fato de que o mesmo fora usado para promover a caça a nazistas e a denúncia da existencia da Odessa. Em determinado ponto da narrativa, o protagonista Peter Miller encontra-se com o renomado Simon Wiesenthal, judeu sobrevivente dos campos de concentração nazista que se tornou após a guerra caçador de nazistas, para que o ajude na caça a um fugitivo nazista ex-oficial da SS de nome Eduard Roschmann, conhecido como "O Açougueiro de Riga". De fato, Wiesenthal existiu (falecido em 2005  em Viena aos 97 anos), bem como Roschmann, que vivera em segredo até ser encontrado morto na Argentina. A bem da verdade é que Wiesenthal usou a obra de Forsyth  (com sua conivência, é claro) para que a Odessa fosse realmente denunciada. Com o advento da obra, as autoridades alemãs entre outras tornam-se mais empenhadas na caça a antigos membros da SS e demais nazistas ainda escondidos pelo mundo, principalmente na America do Sul, como relata o livro.

Simon Wiesenthal
A obra de Forsyth também fala da tensa questão no Oriente Médio quando aborda as mobilizações militares de Israel e Egito que culminaram na Guerra dos Seis Dias em 1967, bem como as movimentações diplomáticas da então Alemanha Ocidental pró-Israel que motivaram a Odessa a tomar partido da causa árabe por os considerarem "antigos amigos do Reich".
Assim como seus outros livros como: Cães de Guerra e O Dia do Chacal, O Dossiê Odessa foi parar nas telas em 1974 tendo como interpretw do protagonista nada mais nada menos que John Voight. O filme também ajudou a alavancar a causa de Wiesenthal (cabe aqui lembrar que Wiesenthal foi consultor durante as filmagens). Taí mais um filme em que me faz ficar fodido da vida por até então nunca ter ouvido falar na sua existencia, o que me faz ficar obcecado por assisti-lo. Mas, como é de praxe, por já ter lido o livro, é de se esperar a inferioridade da obra cinematográfica.
Mesmo assim não vou descançar se não encontrar esse troço.


É evidente, no entanto, que o livro nos trás um pouco de reflexão e não apenas puro entretenimento e informação. Forsyth nos leva a entender que em um momento da recente história mundial o mundo não foi somente bipolar com comunistas de um lado e capitalistas de outro, mas que houve uma terceira ideologia que ceifou a Europa e muitas outras nações no início do séc. XX. Noutro determinado ponto da narrativa onde Peter Miller finalmente está cara-a-cara com Roschmann, o perseguido assim se pronuncia:
 "...Quer uma prova da nossa grandeza? Veja a Alemanha de hoje. Esmagada e destroçada em 1945, completamente destruída a mercê dos bárbaros do Leste e dos loucos do Oeste..."
Ou seja, a Alemanha nazista era o contraponto entre o capitalistmo yanque e o comunismo bolchevique. O filme A Soma de Todos os Medos,cujo protagonista é o agente Jack Rian (o mesmo de Caçada ao Outubro Vermelho, Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato) também conta uma história semelhante onde uma aliança de líderes europeus de extrema direita planeja o início da Terceira Grande Guerra com atentados terroristas.


Entretanto, a existencia da Odessa, ao que tudo indica, não tinha como objetivo a priori fomentar uma revolução de larga escala mundial ou mesmo a construção de um futuro 4º Reich Alemão, senão apenas a proteção de ex-membros da SS perseguidos nos tempos já de paz por suas atrocidades durante a guerra, principalmente contra judeus nos inúmeros campos de concentração.
Está claro, tanto no livro quanto em demais fontes de pesquisa que pude consultar, que os fundos criados durante a guerra para o financiamento das operações da Odessa foram usados apenas para  a proteção e fuga de seus membros.
É fato, no entanto, que a Odessa teve inúmeros êxitos, por mais que muitos carrascos nazistas viessem a ser capturados. Muitos deles viveram seus ultimos dias em paz e no anonimato, sob falsas indentidades em países distantes da Alemanha. A Argentina foi o principal destino destes ao final da guerra principalmente pela simpatia que Perón tinha pelos nazistas (até nisso esses castelhanos cagaram no pau). Hoje, certamente que existem alguns membros vivos da Odessa, mas devem estar usando fraldas geriátricas sentados numa cadeira de rodas com um chale no colo.
A Odessa deixou de ser uma organização temida.
Graças aos novos valores universais do nosso contemporaneo os ideais nazistas deixaram de ser uma ameaça sobrevivendo apenas na cabeça de alguns jovens imbecis que possuem vácuo ao invés de massa encefálica, pois não são capazes de se preocupar em conhecer os estudos que expoem as teorias xenofobas ao ridículo.
Com os nazistas e fascistas varridos da Europa bem como a queda da Cortina de Ferro, ficamos assim, a mercê dos arrogantes yanques e da real organização que deveria ser temida. Nada de Maçonaria, nada de Iluminatti, nada de Rozacruz, nada de Comissão Trilateral ou Comissão Bilderberg... Só que se eu disser quem eu penso ser, irei preso por xenofobia.
Abaixo, um link sobre um documentário no TerraTV sobre a Odessa. É longo, tem mais de 45 minutos mas vale a pena.

http://terratv.terra.com.br/videos/Diversao/Documentarios/History-Channel/4689-391030/Cacadores-de-Misterios-A-Ascensao-do-Quarto-Reich.htm

Humilde opinião de quem vos escreve.