sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Apenas uma forma de amar



O que fazer quando as palavras faltam ou simplesmente o pronunciar delas não é o suficiente para descrever aquilo que se sente?

Foram anos tentando entender tudo isso para que um dia, se tivesse a oportunidade, te dizer algo a respeito.

É verdade que nunca me esforcei muito para entender. Talvez porque, à medida que o tempo passava, tinha presente comigo que ele se encarregaria de tudo, quando a inocência em nossas vidas daria lugar às experiências maliciosas, dolorosas e cruéis que a maturidade iria apresentar.

Mas não, não se apagou.

Como uma centelha na lareira teimosa em não se apagar, sempre lá estava aquela lembrança: brilhando e ardendo, num cantinho secreto em nossos corações. Por mais fraca que pudesse estar ou que parecesse destinada a se apagar, bastaria um simples sopro para reavivá-la. E assim ela permaneceu por todos esses anos, e nunca se apagou

Foi uma grande paixão adolescente, não tenho dúvidas disso, daquelas de dar febre. Naqueles dias quase não dormia a noite me revolvendo na cama lembrando de teu sorriso, mesmo quando o coração parecia querer saltar do peito quando te via descendo as escadas abraçando os livros escolares ou sentada com as colegas nos bancos do pátio. Aquele “oi” de voz suave e levemente rouca nunca sairia da minha cabeça. Cada dia a espera ansiosa pela chegada do recreio para poder ouvi-lo. Me lembro que era um garoto envergonhado, encabulado até a raiz do cabelo, sem um mínimo de coragem para sequer segurar tua mão, quem diria um beijo.

Ah sim, o beijo. Hoje me tomo a rir sozinho quando me recordo desse delicioso momento: o dia em que me enchi de coragem e a ti lhe perguntei em voz tremula se podia lhe dar um beijo. E tu dissestes “sim”.

“E agora, o que faço?”

Meu Deus, eu não sabia como chegar perto de ti, muito menos como te abraçar. Por sorte tu fizestes isso por nós ao se aproximar e entrelaçar teus braços em meu pescoço. Então senti teu perfume e o calor de teu corpo. Sim, tu também estavas nervosa.

E assim nos beijamos. Um beijo breve, totalmente sem jeito, mas não menos apaixonado. Depois disso, um abraço, o mais longo abraço que poderíamos nos dar. Não vimos o tempo passar. Dez, quinze, vinte minutos... não sei. Só não queria que acabasse. Não queria que tu saísse de meus braços.

Não éramos donos de nossos narizes, pois ainda éramos crianças, eu com quatorze e tu com treze anos. Até hoje não perdoo meus pais por me trocarem de escola. “Lá estavam todos os meus amigos” eu dizia e eles, sempre escondendo o real motivo pela minha relutância na mudança. Até hoje lembro do quanto chorei escondido no pátio do colégio e fui flagrado pelo zelador da escola. Não foi difícil dissimular e dizer a ele que minhas lágrimas eram por causa da troca de escola, ao invés de falar a verdade sobre o que realmente estaria deixando para trás.

E assim o tempo foi passando. Já não conseguia te ver todos os dias, senão cruzando contigo de vez em quando pelas ruas, pois para piorar ainda éramos vizinhos de bairro. Estávamos em diferentes escolas e já não tínhamos mais amigos em comum. Aos poucos tua lembrança ia se enfraquecendo a medida em que raramente nos víamos. Parecia que o tempo de fato faria seu trabalho e aquele amor adolescente se dissiparia.

Aos poucos percebia o quanto estávamos ficando cada vez mais diferentes e por consequência mais distantes. Virei roqueiro, guitarrista de banda, cabeludo e tatuado, um rebelde sem causa ainda sem gostar muito de estudar. Ao contrário de ti, bailarina, educada e amante dos livros, a menina doce e de refinada educação, como sempre. Minha juventude, regada a bebida, rock’n roll e festas na qual minhas atitudes enlouqueciam meus pais contrastava com a tua, com apresentações de ballet, aulas de piano, viagens europeias, intercâmbios estudantis e bolsas de estudo mundo afora. Já tínhamos estilos diferentes de ver o mundo, o que me deixava claro o quão distante nos tornamos. Me imaginava como seriamos se um dia nos tornássemos de fato namorados, noivos ou até mesmo marido e mulher. Não tinha como, não encaixávamos. Mesmo assim, de alguma forma tua lembrança sempre esteve viva e em meus pensamentos.

Seguimos adiante, cada um com a sua vida: nos formamos, nos casamos, constituímos famílias, criamos diferentes círculos de amigos, deixei minha rebeldia de lado e amadureci. Vibrei com tua entrada na faculdade, com teus sucessos pessoais, mesmo que não tivesse certeza que tu pudesses sentir o mesmo comigo. Virei gente, homem responsável e pai de família, e assim tornamo-nos realizados e felizes. Era nítido o amor gerado por ti junto a teu marido e teus filhos, assim como ocorreu comigo. Minha esposa aliás, sempre soube de tua existência, pois desde o começo expus todos os momentos especiais em minha vida e a ela apresentei teu nome. Tu nunca foste, no entanto, motivo de ciúmes ou de qualquer incerteza junto a ela, assim como tenho certeza do mesmo de tua parte para com teu esposo, pois éramos apenas uma doce lembrança adolescente para ambos.

Dessa forma, nossas vidas tornaram-se paralelas e destinadas a assim seguirem, sem haver um vislumbre para que ambas novamente se encontrassem. Na verdade, sempre tive receio disso, pois não queria de forma alguma acabar com toda essa magia do mais puro e inocente sentimento que nutri em minha vida.

Aí veio a internet. Oh, tecnologia maravilhosa! A cada foto, cada postagem minha um “like” seu. E vice-versa. Uma sensação gostosa. Nada de mais, claro, senão a demonstração de um enorme carinho e atenção que tu nunca deixaste de demonstrar. Ao menos agora poderíamos saber um pouco mais e assim compartilhar e admirar os acontecimentos na vida de cada um de nós. Foi muito legal quando publiquei uma foto de meu certificado de conclusão do meu curso de mestrado quando tu fostes a primeira a curtir, da mesma forma como te felicitei junto as fotos publicadas por ti do nascimento de teu filhinho e de tua formatura. Muito bacana, mesmo a distância e na forma paralela como nossas vidas se desenvolveram, podíamos nos ver.

E o teu aniversário? Nunca esqueci do dia vinte e quatro de novembro, mesmo nunca podendo te dar os parabéns. Ao menos até agora. Toda o cuidado tinha que ser tomado. Os melindres não poderiam surgir, dúvidas não podiam ser geradas, mas eu tinha que fazer. Até que nesse dia, há dois anos, tomei coragem e te mandei uma mensagem de parabéns. Algo simples, discreto, privado e sem malícia alguma, tal qual sempre foi nossos breves olhares e trocas de palavras. Minha alegria quando tu respondeste, não com relativa secura a qual não estranharia se assim fizesse, mas com alegria e atenção que me surpreenderam. Sinceramente, nunca gerei expectativa alguma em sentimentos teus para comigo aos dias de hoje, mesmo que alguma manifestação tua pudesse me dar abertura para tal. E assim nos víamos, e assim nos tínhamos: a distância, zelosos com as palavras, mas não menos atenciosos entre nós.

Mesmo assim, apesar de todo esse tempo, apesar de toda a pureza que sempre permeou a relação de nossas almas, sempre quis te perguntar. Sempre quis saber, afinal de contas, o que tu sentias por mim. Eu precisava saber, mesmo que isso não fosse mudar nada em nossas vidas.

E tu, será que, se tivéssemos essa oportunidade, farias essa pergunta mim? Se a fizesse, fico pensativo no que te responderia. “Não sei”, seria a primeira resposta a vir em minha boca. Aliás, já respondi isso para alguém que um dia me perguntou, uma amiga em comum. Disse a ela que não saberia descrever, pois é algo difícil de encontrar palavras para tal. Minha própria esposa já me fez essa pergunta e a ela disse “nada demais”. De certa forma, não menti, pois nunca mais a desejei como uma paixão, nunca mais desejei seu corpo ou seu coração só para mim. Não, a ela eu não menti, e acho que entendeu. Até mesmo porque não trocaria tudo que até então construí por mais uma aventura, pois isso não deixaria de ser. Preferiria, portanto, manter tudo como está, da forma como temos hoje: algo distante, uma lembrança, um carinho.

Eu sei, eu me penitencio. Todas as coisas na vida as quais me arrependi não foram aquelas que fiz, mas as que deixei ou levei muito tempo para fazê-las. E agora não podia ser diferente. Poderia ter tomado essa atitude a muito tempo atrás e com isso poria um fim a essas dúvidas, que volta e meia teimavam em surgir em minha memória. Ou talvez, seria meu intrínseco e inconsciente desejo de sempre cultivar essas constantes dúvidas? Quem sabe. Se nem eu mesmo consigo responder isso, quem mais poderia?

É verdade que, eventualmente trocávamos mensagens nas redes sociais, mas, como já disse, todas superficiais, leves e até mesmo um tanto formais, o suficiente para nutrir alguma ligação, algum contato, mesmo que apenas a vista dos atuais meios digitais. Então, de uma forma astuciosa de minha parte, me cerquei de certezas para que não ouvisse – ou lesse – um “não” de tua parte, e a ti sugeri que nos encontrássemos para finalmente olhar em teus olhos e dizer e perguntar tudo aquilo que a quase trinta anos consumia um cantinho do meu coração. Tua expressão afirmativa para tal me encheu de euforia ao mesmo tempo que me tomei da ciência de manter-me austero, calmo e até mesmo cético com o que poderia ocorrer. E como faríamos isso, me perguntava, pois somos conhecidos em todo os cantos que possamos nos apresentar? A visita profissional que te faria em teu local de trabalho seria um bom pretexto.

Mas não foi dessa forma que aconteceu, não é mesmo? Tu fostes embora e na tua despedida eu não tive como participar. Apenas aqueles do teu círculo de convívio puderam lá estar e eu não tinha como. Então tu partiste, e não conseguimos nos ver a tempo. Percebi então que minhas perguntas a teu respeito não mais poderiam ser respondidas. Tudo, enfim, se tornaria uma forte, doce e apaixonante lembrança e nada mudaria isso.

Mesmo assim, eu não poderia deixar de tentar. Eu precisava conversar contigo. Eu precisava te dizer, eu precisava te perguntar. Seja qual fosse a forma, eu precisava fazer. E agora aqui estou, diante de ti, de teu túmulo, na última forma que me resta de em paz poder ir ao teu encontro, mesmo tendo teu silêncio como resposta.

Aqui estou agora, em pé diante de ti. No momento em que teria todo o tempo do mundo e ninguém para me importunar minhas palavras somem, meus pensamentos se acomodam, meu coração sossega. O sol mágico do fim da tarde está iluminando a tua foto onde consigo ver o mesmo sorriso de quando tu tinhas treze anos. Sem nenhuma palavra dita ou ouvida na companhia do vento norte sobre as árvores, tu, de uma forma que nunca irei entender, responde, como num estalo de dedos, todas aquelas perguntas que um dia eu teria a te fazer. Nesse momento, tu conseguiste fazer-me lembrar de todas essas e ao mesmo tempo respondê-las. Tu me fizeste agora ver que sempre tive as respostas comigo.

Tudo o que construímos, muitas vezes sem sabermos que estávamos fazendo. Tudo o que vivemos e sentimos juntos e ao mesmo tempo distantes um do outro. Todos os sonhos compartilhados entre nós, mesmo que não soubéssemos. Uma forma diferente de querer alguém mesmo à distância, por entre as diferenças que a vida nos impôs, de forma silenciosa, pura e sincera.

Sim Cecilia, agora eu sei. Tudo isso nada mais foi do que apenas uma forma de amar.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Anjos da Noite




Odeio 12 de junho.

Odeio!

Ai, que ódio! Quando vou poder me sentir normal? 19 anos e sem namorado.

Droga, mais um dia dos namorados sozinha. Deveria ter me acostumado já, mas aí me pergunto: acostumada com o quê, se eu nunca tive um namorado? Não tô nem falando de beijinho, amasso, ou mesmo de transar, até porque nem sei o que é isso ainda. Só queria um namorado, uma companhia, um colinho, alguém que segurasse a bacia de pipoca. Não tem como não pensar que o problema é eu mesma. Aí me olho no espelho, será que é por isso: meu cabelo azul, batom roxo, meia arrastão, saia rondada, coturno, piercing no supercílio...?

Ah que se dane. A mãe já disse que é esse meu visual que afugenta os guris, que sou muito louca, barulhenta. Só não sabe que nenhum daqueles grupinhos de nojentinhas do colégio me aceitou até hoje e que sempre tive pouquíssimos amigos. Eu era a estranha de aparelho, com a cara cheia de espinhas, óculos e gorda. Em algum buraco eu tinha que me esconder.
Se bem que, isso foi há 4 ou 5 anos. Tá certo, muita coisa mudou. Até que estou aceitando meu corpo agora, ao menos me gosto do que vejo no espelho, meu bumbum aé que fica bonitinho com numa calcinha fio-dental. Já o aparelho e as espinhas são lembranças horrorosas do meu recente passado.

Acho que realmente mudei um pouquinho, e para melhor. Ao menos é que o espelho e os likes nas redes sociais dizem... Ao menos.

Mas então, por que diabos estou sozinha? Não posso ser tão assustadora assim, não sou de outro planeta.
Ai, como eu queria ter o Stefano para mim. Não tem como não sonhar com aquele garoto. É fácil reconhecer ele chegando no clube, sempre dou um jeito de sair uns minutos antes da academia para ver aquele estilo desportista, sempre de agasalho e mochila, entrando em direção ao vestiário da piscina. Ele é lindo! Usa óculos. Adoro garoto que usa óculos. Mas quando os tira e vejo ele só de sunga quando vai nadar, nossa. Só me resta morder os lábios e sonhar.

Como eu queria aquele moleque pra mim. Mas...

O jeito é fazer essa noite dos infernos passar logo. Eu Odeio o Dia dos Namorados!

- Boa noite mãe, durma bem. Sim, não vou esquecer de deixar a luz do corredor acesa. Vou ficar um pouco acordada lá no quarto, estou sem sono. Vou ver se acho alguma coisa para fazer. Beijo.

Vou ligar essa porcaria de notebook. Ouvi dizer que aquelas salas de chat das antigas que a mãe acessava ainda são um pouco divertidas. Quem sabe eu dê umas risadas e faça essa porcaria de noite passar logo. Vamos ver aqui: Chat...Salas...Sei lá... Solteiros... Ah, vai ser essa. Meu nickname vai ser, deixa ver: “Freyja”. Pronto, foi... vamos ver o que eu encontro aqui.

Imediatamente alguém virtualmente me aborda. Então, inicio a frenética digitação das conversas de forma mnemônica desrespeitando toda e qualquer regra gramatical.

Prisco: “Boa noite, quer tc”?

Freyja: “oi, boa noite. Claro pq não?”

Prisco: “Muito bem, de onde você é?”

Freyja: “Porto Alegre, RS, e vc?”

Prisco: “De vários lugares, nesse momento estou em Lisboa”

Freyja:”ah então vc é português?”

Prisco: “Não não. Apenas por um tempo aqui”

Freyja:”hum, idade?”

Prisco: “Pareço com um homem de uns 30 anos”

Freyja: “como assim, parece?”

Prisco: “Sou mais velho do que aparento”

Freyja:”ah sei. Casado?”

Prisco: “Já fui, muitas vezes.”

Freyja: “nossa. como assim? Não deu certo com nenhuma?”

Prisco: “Rssss, mais ou menos. Eu penso que sim, deu certo muitas vezes. Ao mesmo tempo que não. E vc? Solteira?”

Freyja: “sim, encalhada rssss. to nessa sala por causa disso. Em pleno 12 de junho sem ninguém. que ódio. que raiva. todas minhas amigas com namorado menos eu. Ai...desculpa, to chateada. desculpa o desabafo.”

Prisco: “Está tudo bem. Imaginei que algo do tipo tivesse passando com você. Uma menina em pleno 12 de junho numa sala de bate-papo”

Freyja: “como sabe que ainda sou menina?”

Prisco: “Desculpe, apenas supus. Mas vou tentar adivinhar. Você deve ter uns 20 anos.”

Freyja: “sim, 19. Vc tá fazendo o que aqui? “

Prisco: “Meus hábitos são noturnos. Optei por viver a noite de forma plena.”

Freyja: “uau, então estou falando com um vampiro? Rssss”

Prisco:” E se eu fosse? Me responda uma coisa: por que Freyja?”

Freyja: “deusa da magia”

Prisco: “Ah sim, o panteão nórdico”

Freyja: “Simmmmm. Acho que já sacou minha vibe, ne?”

Prisco: “Sim, é moda hoje ser viking. Aqui ne Europa também é uma febre entre os jovens.”

Freyja: “e vc? o que significa seu nickname?”

Prisco: “Meu o quê?”

Freyja: “seu apelido. o q significa Prisco?”

Prisco: “Sim. Na verdade não é apelido. É meu nome mesmo. Acredito que tão diferenciado, não haveria problema em usá-lo. Até mesmo porque não há o que esconder.”

Freyja: “então é seu nome?”

Prisco: “Sim, meu nome é Prisco. Muito prazer.”

Freyja: “igualmente, mas não vou dizer meu nome rsssss. ta diz aí, como assim viver a noite?”

Prisco: “Me sinto mais confortável a noite para trabalhar, ler, conversar”

Freyja: ”trabalha com o que:”

Prisco: ”Minha família tem muitos negócios. Temos muitos imóveis aqui pela Europa. É de onde vem meu sustento”

Freyja: “Humm, tá mas não entendi algumas coisas. perguntei que idade tinha e vc não falou. agora esse papo de negócios da europa. olha, se quer tirar onde, to caindo fora. o jeito como escreve ta parecendo um guri de poa mesmo.”

Prisco: “Sim, entendi você. Não estou zombando. Vou tentar explicar. Morei em muitos lugares, inclusive no Brasil por muitos anos. Nasci na Alemanha, mas tenho muitas nacionalidades. E minha idade, se eu lhe contasse acho que não iria acreditar.”

Freyja: “pq não? mas se não quer falar, td bem. então me diz: como você é?”

Prisco: “Fisicamente?”

Freyja: “Sim”

Prisco: “Depende”

Freyja: “como assim?”

Prisco: “Depende da pessoa e do que sinto por ela. Se gosto dela chego a parecer um anjo. Caso o contrário, minha aparência pode chocar.”

Depois de mais de hora de conversa, por algum motivo súbito, o tom das palavras daquele cara cujo pseudônimo – ou nome real - era “Prisco” mudaram de uma forma leve e agradável para uma sombria e apavorante. Parei uns minutos com os olhos vidrados no monitor lendo e relendo aquela última mensagem. Aquilo mexeu comigo. Não sei se esse cara estava tirando onda, mas sei que atiçou minha curiosidade e agora, gostaria de ir mais longe e descobrir o máximo dele.

Freyja: “nossa, me assustou. se descreva vai. fiquei curiosa”

Prisco: “Se eu me apresentasse a você, veria um homem alto de pele clara. Tenho m torno de 1,85m e meu porte é atlético. As mulheres que me conheceram me consideravam muito atraente”

Freyja: “xiii, pelo visto tem gente que se acha. qual a cor de seus olhos, castanhos, azuis, verdes”

Prisco: “Nenhuma dessas cores”

Freyja: “ah não inventa. Vai me dizer que são vermelhos que nem um vampiro agora?”

Prisco: “Não não, rsssss. São cor de âmbar.”

Abro uma página em paralelo no browser do notebook para pesquisar e ver o que são olhos cor de âmbar. Nossa! Que lindos!

Freyja: “uau! Que lindo. Pesquisei aqui.”

Prisco: “Obrigado, é herança genética. A aldeia onde nasci predomina essa característica”

Freyja: “qual sua idade?”

Prisco: “Que tal falar um pouco de você agora? Mora sozinha?”

Freyja: “não, moro com minha mãe.”

Prisco: “Você não tem pai, não é?”

Freyja: “como sabe?”

Prisco: “Apenas um palpite, a considerar que você disse morar com sua mãe. Logo deduzi a ausência do pai.”

Freyja: “sim, mas morar com a mãe não significaria que não teria um pai, eles poderiam ser separados”.

Prisco: “Como disse, foi um palpite”

Freyja: “tudo bem”

Prisco: “Pode falar sobre isso? Sobre não ter um pai?”

Freyja: “ah pra mim é tranquilo. não sinto tanto pq nunca tive. não conheci meu pai. minha mãe também não fala sobre ele, eu pergunto mas ela nunca responde então não forço. pq esse interesse todo?”

Prisco: “Nada demais, não se assuste. Eu gosto de ouvir a história das pessoas, apenas isso. Fale mais de você. Descreva sua personalidade”

Freyja: “tá bem. sou uma nerd.um tanto anti-social pq nem tenho muitos amigos, gosto de ler, de assistir filmes, curto um som pesado.”

Prisco: “Heavy Metal”

Freyja: “yes. Gosto de um som pesado e denso, melancólico. Tipo Lacuna Coil, Tristania, Within Temptation e Nightwish”

Prisco: “Desculpa, estou bastante desatualizado. Nunca parei para apreciar esse estilo, tampouco sou familiarizado com os artistas desse meio.”

Freyja: “são estilos de música gótica. Sabe anjos da noite, trevas, frio, lua cheia, vampiros, etc...”

Prisco: “Ah, sim a escola ultrarromântica. Como os contos de Edgar Allan Poe”.

Freyja: “vc tb curte Alla Poe?”

Prisco: “Já li alguns textos dele”

Freyja: “show”

Prisco: “Então aprecia a subcultura gótica?”

Freyja; “gosto da estética. me visto um pouco assim. se me visse no dia-a-dia pensaria que eu saí de uma capa de um cd dessas bandas. Kkkkkk. mas não se preocupe, só me visto como uma vampira, não mordo.”

Prisco: “Tenho certeza disso. O que sabe sobre eles?”

Freyja: “quem”

Prisco: “Vampiros, você disse que adora se vestir como um”

Freyja; “ah sim,ao menos como a gente ve em livros e cinema. é como eu disse antes, gosto da estética apenas. Pq? Vai me dizer que eles existem agora”

Por uns instantes, fiquei com um pouquinho de medo. Não tinha como não fantasiar certas coisas depois daquela pergunta que ele me fez. “O que sabe sobre eles?”. Então um cara de longe e desconhecido que recém conheci numa sala de chat me pergunta uma coisa dessas no início de uma madrugada. Só podia me dar um arrepio na espinha. Mas, ao mesmo tempo em que me assustei, uma certa excitação me tomou conta, como se quisesse saber um pouco mais sobre aquele homem e iniciar uma pequena aventura entre as palavras. Era um papo gostoso, porém era nítida a diferença entre nós. Dava para ver o quão mais velho ele era em relação a mim e como ele estava um tanto desconexo com os assuntos da atualidade. Parecia alguém que se trancou anos numa biblioteca, mesmo que sua forma de se comunicar pelo chat não deixasse tanto a desejar, como se já tivesse uma certa tarimba daquele ambiente.

Prisco: “Os vampiros de certa forma existem sim. Mas não como aqueles descritos na literatura. Eles não viram morcego e nem bebem sangue. Mas se alimentam de outras coisas”

Freyja: “interessante, mas como assim?”

Prisco: “É que na verdade, o conceito de vampiro é o de um ser que se alimenta das essências vitais de outros seres, não necessariamente sangue. Nesse caso, existem muitos vampiros emocionais e psíquicos. Eles podem roubar de você muitas coisas, inclusive a vontade de viver das pessoas”

Freyja: “credo, eu hein. como sabe de tudo isso. vc curte vampiros também, pelo visto.”

Prisco: “Não “curto” essas pessoas, pelo contrário. Afinal, elas foram más, e pela maldade elas mantém-se vivas”

Freyja: “acredito.”

Prisco: “Talvez não acredite, mas sou um vampiro”

Freyja: “hein? tá bem. fez bobagem então”

É claro: havia entendido a analogia do vampiro como uma pessoa má e, de certa forma, já havia lido algo de que ser um vampiro poderia significas coisas bem diferentes, como pessoas sem escrúpulos, que não dão um mínimo de importância para com as outras pessoas. Mesmo assim, já estava um pouco arrepiada com o rumo da conversa com aquele indivíduo que aos poucos ia se demonstrando mais misterioso e soturno.

Aí ele me escreve aquilo.

Prisco: “Sim. Já fiz muita coisa de ruim para as pessoas. Estou cansado disso.”

Freyja: “ta me assustando mas tb fiquei curiosa. pode contar mais?”

Prisco: “Posso sim, é importante para mim compartilhar essa dor. Fiz muitas coisas ruins, garota. Magoei pessoas, enganei pessoas, entre outros pecados maiores que não vou ousar relatar-te. Eu nunca me arrependi de nenhum deles”

Freyja: “será que estou falando com um criminoso?”

Prisco: “Crimes são aqueles atos errôneos aos olhos dos homens. Eu tenho pecados. Enquanto não me arrepender deles, estarei com minha alma ardendo em brasa e àqueles que atingi.”

Agora sim, fiquei com medo. Meu coração disparou. Depois de uns instantes me acalmei, olhei para os lados e percebi que nada poderia acontecer comigo e que eu poderia estar apenas conversando com um espertalhão se passando por um vampiro com crise existencial. Então resolvi continuar aquela conversa me propondo a não demonstrar minha tensão. Agora sim, queria ir mais a fundo e ver onde aquele papo iria chegar.

Freyja: “nossa, como vc é dramático rsssss”

Prisco: “Não teria como me expressar diferente. Mas estou disposto a resolver e aparar essas arestas hoje mesmo, nessa noite. Foram muitos os pecados que cometi durante muitos e muitos anos. Já está na hora de me arrepender deles, menos de um.”

Freyja: “qual?”

Prisco: “Gosta de flores?”

Freyja: “ah não sou lá uma grande apreciadora, mas me agradam”

Prisco: “Que tal rosas brancas?”

Freyja: “rosas brancas?”

Prisco: “Sim, significa beleza e pureza. Nada muito passional, porém não menos delicado”?

Freyja: “que legal, nunca tinha parado para apreciar elas”

Prisco: “Combina com você”

Freyja: “será?”

Prisco: “Tenho certeza disso”.

Freyja: “qual pecado?”

Prisco: “Digamos que foi um roubo”

Freyja: “roubo?”

Prisco: “Está na hora de devolver certas coisas a alguém. Estou farto do meu próprio egoísmo. Vivemos em mundos opostos. Não tenho como sequer toca-la.”

Freyja: “só podia ser mulher. que excitante. deixa eu adivinhar, vc ama ela mas ela não”

Prisco: “Não, ambos nos amamos. Mas minha possessividade doentia praticamente a amaldiçoou. Eu sou um ser das trevas garota, não percebeu ainda?”

Freyja: “nossa, amaldiçoou!!!! pelo visto sua autoestima está mais baixa do que a minha”

Prisco: “Não se trata de autoestima. Se trata de reconhecer os erros e admitir o inevitável. Quanto a ti, posso garantir que tua autoestima não será mais problema em breve”.

Freyja: “rsssss amém parceiro”

Prisco: “Acho que está bastante tarde. Você precisa descansar”

Freyja: “nem tanto. podemos continuar o papo. gostei de você. é bastante misterioso. além do mais, nunca conversei com um vampiro antes, rsssss.”

Prisco: “Acredito. Preciso lhe dizer algo, já que estamos nos despedindo”

Freyja: “ah já vai? pelo visto não é bem eu que estou cansada. Mas pode falar”

Prisco: “Pode parecer que nada tu possas fazer, mas ao menos saber sobre meus arrependimentos para mim é o suficiente: a todos que mal eu causei peço o perdão. Me arrependo de cada um deles, menos de você”.

Freyja: “tá bem. Não entendi o que quer dizer, mas tudo bem. Viu, gostaria de conversar mais vezes contigo.”

Prisco: “Se assim desejar, poderemos sim Não sabe o prazer que terei. E Serei muito grato a ti por isso”.

Freyja: “Mas mata minha curiosidade”

Prisco: “Pergunte”

Freyja: "quem foi esse seu grande amor?"

Prisco: “Era uma moça linda que errou. Sem saber ela cultuava o mal. Digamos que ela era uma bruxa. Uma bruxa que não soube enxergar a linha tênue entre o bem e o mal da magia que ela começou a praticar percorre. Eu apareci na vida dela por causa disso. Elas me chamam e para elas eu apareço, como em inúmeras outras vezes. Roubei seu coração e sua alma e hoje ela sofre. Eu não podia ter feito isso com ela. É só isso que posso dizer, o resto creio que você não irá compreender.”

Freyja: “ultima pergunta Prisco, sua idade?”

Prisco: “318”

Freyja: “??????????”

Silêncio. Não sei o que dizer. Já não sei se estou diante de um esquizofrênico, de um fanfarrão ou de um apaixonado cheio de metáforas e retóricas.

O despertador do celular toca acusando já 6:30 da manhã e o fato de tê-lo esquecido ativado, mesmo que hoje viesse a ser domingo e, portanto, sem compromisso matinal algum. Me vejo só de calcinha e debaixo de meus edredões, algo normal, a considerar que durmo desse jeito todos os dias. Começo a me despertar preguiçosamente aos poucos me lembrando de um bate-papo estranho e misterioso. Imediatamente procuro com os olhos meu notebook que repousa desligado sobre minha escrivaninha. Aos poucos vou me lembrando de detalhes, de palavras, de reações, ...

Mas era apenas um sonho.

Não há sinal algum. Nenhum rastro digital, nada. A sala de chat sequer existe. Nenhum...Como era mesmo? “Priscos”. Sim, esse era o seu nome.

- Bom dia dorminhoca.

- Bom dia mãe. Como você está diferente?

- Como assim filha?

- Mãe, nunca te vi com esse sorriso. Nossa mãe, como você está bonita, está brilhante.

Era uma manhã de domingo. Um domingo muito diferente. Minha mãe estava de fato com um semblante lindo e brilhante como eu nunca tinha visto antes. Aquele sonho maluco não saia da minha cabeça e ver minha mãe daquele jeito só atordoou mais meus pensamentos.

Também pudera. Via minha mãe desde sempre melancólica e deprimida. Diagnósticos de ansiedade e Síndrome do Pânico segundo psiquiatras. Desde criança a vejo entre idas e vindas a consultórios médicos e psicólogos e muita medicação. Hoje penso inclusive que, se minhas atitudes ou posturas venham a ser um pouco rebeldes ou fora do esquadro social, talvez reflitam tudo o que passei durante toda a minha vida junto a minha mãe.

Ah, mãe, que exemplo, minha rainha. Professora de mão cheia, batalhadora e de um caráter sem igual. Todas as virtudes que procuro numa mulher, senão sua constante e aparentemente eterna tristeza. Por que ela não abre o jogo pra mim? Por que não conta suas mais profundas aflições? Eu bem que já tentei, mas em vão. Mas hoje nada disso mais importa, ali em minha frente posso jurar que estava vendo uma nova mulher, minha nova mãe, aquela que nem nas mais profundas orações ao Anjo da Guarda – a única oração que ela me ensinou – eu poderia ousar em pedir. Ali estava ela, como se acordasse de um grande e profundo pesadelo.

Resolvi apenas observar. Então ela se dirige novamente a mim.

- Filha, eu estava pensando: acho que podemos nos aproximar mais. A gente pode começar a conversar mais ne?

- Por que diz isso mãe, que estranho você pedir isso...

- Nada demais. Parei para pensar e acho que perdemos muito tempo afastadas. Acho que eu mesma perdi muito tempo. A tristeza me cansou. Além do mais, penso que podemos e devemos ser amigas. Você já é uma mulher, e eu não vi você crescer.

Sim, isso era verdade. Não nos falávamos, apesar de sermos apenas nós duas a vida inteira dentro daquele apartamento. Minha mãe se afundava em seu trabalho, com muitas pesquisas e muitas orientações a alunos e bolsistas dando pouca ou apenas a necessária atenção para que eu me mantivesse nos eixos. Eu percebia que ela sempre desejava me dar mais carinho, mas alguma coisa a impedia. O trabalho era apenas uma fuga para ela de algo que nunca compreendi, mas que a assombrava por todo o sempre. A referência masculina para mim nunca existiu em meu lar. Nunca conheci meu pai, minha mãe nunca falava dele e se recusava a isso, além de nunca ter demonstrado para mim interesse em algum outro homem. Talvez nunca a tinha questionado de forma mais severa por ser criança e toda e qualquer resposta bastaria. Mas agora eu tinha 18 anos e não engoliria qualquer bobagem.

No entanto, a partir daquele momento minha mãe passou a demonstrar um interesse e um carinho por mim como nunca. Eu estava assustada e sem entender absolutamente nada. Todavia, devo admitir que o que estava acontecendo em nossa casa era tudo o que eu mais desejava.

As surpresas daquele dia não acabaram por aí. Eram entorno das 20 horas quando minha mãe vem até mim e com um beijo em minha testa me deseja boa noite, e se recolhe a seu quarto. Bem, em primeiro lugar, ela nunca dormia antes da 01 hora da madrugada. Em segundo, ela nunca deixaria a luz do corredor apagada, tampouco a porta de seu quarto fechada. Porém, assim estava. A sensação era de que encontrara uma paz antes perdida, até mesmo para sua noite de sono.

O amanhecer de segunda-feira é como o anterior: estranho. Porém, não menos prazeroso. Nunca tive a companhia da minha mãe no café da manhã, mas dessa vez lá estava ela. Cabelo amarrado com um rabo de cavalo e um semblante sereno e altivo. Nossa, como minha mãe é linda!

- Bom dia mãe. Tô indo. Beijo!

Já eram 13 horas e 15 minutos. Indo para a aula de inglês com meus inseparáveis fones de ouvido vejo passar aquele garoto maravilho!

Ai, como eu queria aquele nerd, de óculos e tudo. Como pode um garoto tão lindo ficar mais lindo de óculos? Ah, como eu queria ele para mim. Mas, como sempre, ele passará por mim e sequer notará minha vã existência. Definitivamente não é para ser meu. Talvez “eu” não seja para esse mundo.

Mas hoje não!

Stefano não passou por mim, mas veio diretamente até mim. Pensei por um momento que seria por algum motivo bobo, talvez pedir uma informação ou um simples favor, mas não. Eu já havia ouvido sua voz, mas daquela forma, me deixou completamente surpresa, para não dizer embasbacada:

- Oi!

E eu respondi:

- O...Oi!

- Ah, desculpa,... É que.... Bom, não sou muito bom nisso sabe, mas...

- Tá tudo bem Stefano?

- Tá sim, é que... Bom... Fazia tempo que queria conversar contigo e...

Agora sim. A cereja do bolo. Não me faltava mais nada. Nunca na minha vida imaginaria isso acontecer. Quando iria eu imaginar o quanto ele poderia ser introvertido e encabulado? Então percebi que deveria agir de forma que ele ficasse o menos possível sem jeito.

Ai, fala duma vez guri...

- Sim, pode falar...

- Ah,... seguinte: quer ir no cinema comigo amanhã?!

- Eu? Eu?

- É.., sim. Por favor, não dá risada. Nossa, eu tô todo errado!

- Calma, não! Quer dizer, sim. Claro que sim. Gostaria muito!

- Posso passar na tua casa? Eu te busco as 16 horas.

- Voce sabe onde moro?

- Sim, sei.

- Como você sabe?

- Não vai pensar bobagem. Mas eu já te segui.

Não! Isso não podia estar acontecendo comigo. Eu só posso estar sonhando. Aliás, o que está acontecendo afinal?

O dia amanhece e mais uma vez tenho a agradável companhia da mãe no café da manhã.

- Bom dia filha!

- Bom dia mãe!

- Viu, eu tava pensando: poderíamos ir ao cinema hoje. Acho que nunca fizemos nada disso e faz anos que não vou a um cinema...

- Ai mãe, puxa eu quero muito, mas pode ser outro dia? Hoje não vai dar, já marquei um cinema com o Stefano.

- Quem?

- Stefano, meu colega de cursinho.

Do nada minha mãe começa a encher os olhos d’água sobrepondo sua mão em seu peito fazendo-se emocionar.

- Ai filha!

Bate as 16 horas e toca a campainha. Vou na sacada e lá está ele abanando suavemente para mim. Ao atendê-lo sou presenteada com um “oi” seguido daquele sorriso lindo. Mas uma surpresa maior me traria: Stefano estava sem óculos e somente agora pude reparar em seus olhos. Não eram azuis, nem verdes ou castanhos: eram cor de âmbar.

Tentei disfarçar a surpresa ao mesmo tempo em que flashes de um sonho maluco são relembrados aos poucos.

- Vamos?

- Sim, vamos! Peraí, deixa eu pegar minha bolsa e retocar o batom. Não te importa com batom roxo né?

- Não, não (risos). Aliás, é seu charme, sabia? Mas antes, posso te dar um presente?

- Sim, claro.

Não havia reparado, mas Stefano estava com sua mão esquerda para trás desde que chegou. Então a estende:

- Para você!

- Nossa!

Eram duas rosas brancas.

Fiquei sem ação, e não menos encantada. O garoto dos meus sonhos me presenteando com flores. Gente, acho que vou desmaiar! Meu coração vai sair pela garganta.

- Nossa Stefano, são lindas! Mas por que brancas?

- Não gostou?

- Não, não. Adorei! Amei, amei, amei. É diferente. Todo o mundo dá rosas vermelhas.

- Sempre gostei de rosas brancas. Não sei por quê. Bem,...vamos?

- Sim, vamos. Peraí que vou guardar as flores.

Ele sequer me tocou, sequer conversamos mais do que uma dezena de palavras, e eu já estava em êxtase. Subi aquelas escadas como se fosse uma criança de sete anos correndo atrás da mãe. Queria mostrar para ela aquele presente e pegar uma dica de como mantê-las.

- Mãe, mãe, olha o que ganhei!...

Então vejo minha mãe na sacada soluçando de tanto chorar. Mas não era um choro de tristeza e sim de felicidade, de satisfação. Sim, era pura emoção e não havia como ela pudesse disfarçar. E notoriamente foi por minha causa. Minha mãe, a bela Izabel, de cabelos cor de fogo e cacheados que um dia penderam até a cintura estava emotiva ao ver sua filha finalmente cortejada, e agraciada com o mais singelo e emblemático presente.

Nesse momento comecei a entender as coisas.

- Mãe, o Stefano está lá embaixo me esperando. Pode guardá-las para mim?

- Sim filha, colocarei num vazo com água. Elas são lindas!

- Elas te lembram alguma coisa?

- Sim filha. Como sabe?

- Mãe, você nunca me disse isso antes. Agora preciso saber. Qual era o nome do meu pai?

- Por que essa pergunta agora Priscilla?

terça-feira, 28 de março de 2017

Narloch e seu Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

Recentemente concluí a leitura de mais um livro: trata-se do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, escrito pelo jornalista Fernando Narloch.
O livro, como muitos já devem saber, é bastante polêmico, pois traz uma proposta revisionista da história do Brasil e da forma como essa mesma história é contada.
Entretanto, a fórmula como a qual esta obra foi concebida foi comercialmente um sucesso. Tanto, que Narloch se animou a escrever mais dois livros nos mesmos moldes, e não menos polêmicos: "O guia politicamente incorreto da história do mundo" e "O guia politicamente incorreto da América Latina".
Antes de entrarmos discussão a dentro (e se tem muito o que dizer sobre esse livro), convém descrever um pouco sobre o mesmo.

PS: só pra lembrar: não dou muita bola com os erros de ortografia, embora tente evita-los ao máximo. Sou blogueiro por esporte, não um jornalista profissional. Se não gostou, sorry...


O livro de 350 páginas é escrito de forma despojada, com uma linguagem nada rebuscada senão até mesmo apelando para o coloquialismo, sendo esse o motivo de ser um livro leve, fácil e pouco enfadonho de ser lido. Porém, embora venha a ser um texto leve, é irreverentemente inquietante e petulante para com os maiores conceitos que aprendemos nos bancos escolares sobre a história do Brasil.

"Zumbi tinha escravos"
"Santos Dumont não inventou o avião"
"João Goulart favorecia empreiteiras"
"A origem da feijoada é européia"
"Aleijadinho é um personagem literário"
"Antes de entrar em guerra, o Paraguai era um país rural e burocrático"
"Quem mais matou os índios foram os índios"

Estas são algumas das afirmações inquietantes que o livro trás, contrariando o que a academia brasileira tradicional prega sobre a história brasileira, especialmente a partir do período pós-ditadura militar, quando os esquerdas tomaram de assalto os diretórios acadêmicos dos cursos de ciências humanas nas universidades. É desde então que vemos a opinião pública malhar a campanha brasileira da Guerra do Paraguai tratando o Brasil como um marionete britânico, ou elevando as revoltas de Canudos e a figura de Zumbi dos Palmares como os maiores exemplos nacionais sobre a luta de classes, e por aí vai.
Até aqui não escrevi nada que em 5 minutos não se encontre no Google sobre o livro. A partir daqui vou passar a escrever o que realmente vi. Mas pra isso, devo falar um pouco do autor: Leandro Narloch. E como introdução... Wiki!



Leandro Narloch (Curitiba, 1978) é um jornalista e escritor brasileiro. Foi repórter da revista Veja e editor das revistas Aventuras na História e Superinteressante, do Grupo Abril. É mestre em filosofia pela Universidade de Londres.
Durante dois anos (de Dezembro de 2014 a Novembro de 2016), Narloch manteve a coluna O Caçador de Mitos no site da revista Veja. Desde Dezembro de 2016, mantém uma coluna no jornal Folha de S.Paulo.
Ganhou notoriedade em 2009, ao publicar o livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, abordando imagens criadas em torno de personalidades e eventos marcantes da História do Brasil. O livro foi um sucesso de vendas.

Pois bem, além da Wikipedia, também saí campeando sobre o tal Narloch pela web onde encontrei manifestações de amor e ódio para com o moço.  É inegável, em primeiro lugar, a enorme carga ideológica nas suas três obras (mas, "quem não...?"), a ponto de eu mesmo reconhecer que ele pegou pesado em algumas coisas e forçou em outras, mesmo que tenha adorado a forma como ele esculhambou com os esquerdinhas que pintavam  a história ao seu bel prazer e como bem queriam que todos a conhecessem.
Narloch é polêmico. Mesmo tendo uma nítida opinião de direita, ainda não é consenso por aqueles hoje conhecidos como membros da "nova direita" (mesmo que ele também possa ser considerado um dos membros). Olavo de Carvalho, por exemplo, detona ele, conforme o video abaixo:


Mesmo assim, as opiniões de Narloch são contundentes e inquietantes. Sua forma despojada de escrever eleva o raciocínio ao sarcasmo, algo bastante característico nas redações da Super Interessante e da Veja que simplesmente irrita aqueles que estão sendo desafiados e leva os simpatizantes (como quem vos escreve) aos risos.
Esse é o Narloch.
No entanto, um detalhe quanto ao Narloch escritor. Ele se meteu no terreno espinhento por demais que é a história brasileira. Assim como Eduardo Bueno, Narloch está sendo mal aceito como escritor de livros de história por não ser historiador e sim jornalista. Essa é uma treta velha cujo argumento foi usado também para desfazer as obras de Eduardo Bueno, outro jornalista reconhecido por uma postura ideológica, não digo de direita, mas anti-petista.
De fato, trabalhar com história é complicado. Embora o jornalista também venha a consistir em intensa pesquisa, a formulação de textos e de teses históricas não poderá se restringir a leitura e compilação de registros históricos já existentes, mesmo que o processo de historização passe por isso também, mas sim na identificação de documentos, fragmentos, depoimentos, objetos e demais evidencias.
Mesmo assim, o livro (relembrando: estamos falando especificamente do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil") também recebe boas considerações por historiadores e especialistas da área quando afirmam que a obra se trata de uma nova forma de se abordar a história brasileira  e da necessidade de se extirpar estigmas maliciosos oriundos de manifestações ideológicas exacerbadas. A todo instante, o autor sempre relembra que os fatos históricos até então apresentados nos bancos escolares são produtos de interpretações ideológicas de intelectuais brasileiros de esquerda que gostariam de contar a história da forma como eles queriam e como queriam que nós a entendêssemos.

A história é contada pelos vitoriosos. 

E desde 1984 os vitoriosos, ano a ano, foram os intelectuais da esquerda: desde a tucanada (sim, eles são esquerda) até a petezada.
Mas,...
O livro é interessante. E faço questão de comentar algumas passagens que marquei.
Vambora.

 Narloch cita o historiador José Murillo de Carvalho logo no início do livro:

"A geração anterior foi muito marcada pela luta ideológica,exacerbada durante os governos militares, Divergências eram logo transpostas para o campo político-ideológico, com prejuízo para o diálogo e a qualidade dos trabalhos. A nova geração formou-se em ambiente menos tenso e polarizado, com maior liberdade de debate e um ambiente intelectual mais produtivo".

Essa foi a melhor definição, ao meu ver, de como a história do Brasil foi tratada por toda minha formação no ensino médio. Não é a toa que a minha geração formou professores de esquerda em sua maioria, o que já não ocorre tanto hoje, mesmo que os diretórios acadêmicos ainda estejam infestados pelos malas do PCdoB e do PSTU.
Ainda no inicio do livro se escreve sobre essa nova geração que não aceita mais a simplórias conclusões históricas após a redemocratização:

"...as interpretações que tiram do armário são mais complexas e, numa boa parte das vezes, saborosamente desagradáveis para os que adotam o papel de vítimas ou bons mocinhos...".

Divino!

O trecho agora trata do mito sobre o genocídio histórico indígena. Todos nós aprendemos sob a forma de um verdadeiro mantra que os índios foram massacrados no Brasil, especialmente pela dizimação e escravização sistemática dos povos indígenas pelos bandeirantes. Narloch escreve o seguinte:


"Muitos historiadores  mostram números  desoladores sobre o genocídio que os índios  sofreram depois da conquista portuguesa. Dize que a população nativa diminuiu dez, quinze, vinte vezes. As tribos passaram mesmo por um esvaziamento, mas não só por causa de doenças e ataques. costuma-se deixar de fora da conta o índio colonial, aquele que largou a tribo, adotou um nome português e foi compor a conhecida miscigenação brasileira ao lado de brancos, negros e mestiços - e cujos filhos, pouco tempo depois, já não se identificavam como índios".

Embora eu já tinha lido em algum lugar a respeito dessa "teoria", Narloch não trata essa questão como uma teoria, mas uma forte afirmação. Mesmo mostrando a referencias bibliográficas que utilizou para suas afirmações, me incomoda a veemência como se não deixasse espaço para qualquer outra ideia  a respeito respirar. Todavia, são conclusões que possuem sua lógica e evidencias claras na nossa sociedade de hoje. Um ótimo exemplo é a extraordinária história de respeitadíssimo e ilustre personagem da história contemporânea do Brasil: Cândido Rondon.


Ainda sobre os índios, Narloch detona a ideia de que o choque cultural entre índios e brancos acelerou a dizimação dos povos indígenas no Brasil. Cita, para tanto, o historiador americano Warren Dean:

"É difícil imaginar o quanto deve ter sido gratificante seu súbito ingresso na Idade do Ferro [...]". 

E complementa:

"No começo, os portugueses tentaram esconder dos índios a técnica de produzir metais, proibindo os ferreiros de ter índios como ajudantes. Mas a metalurgia escapou do controle e se espalhou pela floresta. A técnica foi transmitida entre os índios a ponto de os europeus, quando entravam em contato com um tribo isolada, já encontrarem flechas com pontas metálicas."

Sobre outro mito: o convívio harmonioso entre índios e o meio ambiente. Essa trecho é fantástico:

"...Em janeiro de 2009, um texto informativo da exposição Oreretama, do Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, dizia que a sociedade indígena 'era um tipo de organização que tendia a manter  o equilíbrio entre as comunidades humanas e o meio ambiente'. Não é bem assim. Antes de os portugueses chegarem, os índios já haviam extinguido muitas espécies e feito um belo estrago nas florestas brasileiras. Se não acabaram com elas completamente, é porque eram poucos par uma floresta tão grande.
As tribos que habitavam a região da Mata Atlântica botavam o mato abaixo com facilidade, usando uma ferramenta muito eficaz: o fogo."

Já passou pela sua cabeça esse tipo de coisa?

O único "senão" de Narloch sobre suas afirmações está justamente nas suas fontes. Na questão dos índios, por exemplo, o autor toma uma fonte (no caso o autor já citado Warren Dean) citando-a várias vezes e considerando-a como verdade absoluta, sem espaço para sua contestação.
Por conta disso, alguns o detonam, como o Prof. de História da América Leandro Karnal, no vídeo abaixo:



Isso pode significar várias coisas que vão desde a já mencionada forçação de barra ideológica que Narloch quis impingir em detrimento a tudo aquilo que ele condenou com relação à história contada pelos intelectuais de esquerda, passando por talvez o simples fato de que a natureza de sua obra ser justamente isso: perturbadora, instigadora, reacionária.
Talvez Narloch não queira ser conhecido como um renomado historiador, mas sim por ser autor de um livro divertido de se ler  recheados com fatos descritos que dão a contrapartida ao que hoje é oficialmente aceito. Talvez ele queira que pensemos e reflitamos a fim de entender como a história é contada.
Não acredito que seus livros, e em especial este que estamos abordando, venha a ser adotado como um livro didático nas salas de aula. Mas tenho certeza de uma coisa: aquele professor de história responsável irá apresentar e levar esse livro para a sala de aula para discussão. Um bom trabalho de sala de aula seria feito, assim como boas risadas. Enfim, uma maneira divertida de conhecer nosso país e sua riquíssima história.
Em breve outros posts a respeito de passagens sobre esse livro.
Porque ele é muito bom!
E recomendo...
Humilde opinião de quem vos escreve.


sábado, 4 de março de 2017

A Lista

Nos recônditos de Washington existe uma lista curta e ultrassecreta na qual constam nomes de pessoas que representam grandes riscos aos Estados Unidos. Sua mais recente adição é o Pregador, um terrorista que realiza sermões on-line incentivando jovens muçulmanos a assassinar figuras políticas e depois se suicidar por Alá. Não se conhece o nome, o rosto ou a localização do Pregador. Assim, o caso é passado para o Rastreador, um experiente oficial da Tosa - a Atividade de Apoio a Operações Técnicas -, com a missão de identificar, localizar e eliminar essa ameaça.

Mais um livro na estante dos "lidos".
Dessa vez novamente saboreando uma obra do mestre Forsyth: "A Lista". Lançado em 30 de abril de 2014. Aqui no Brasil, pela Editora Record.


Antes, porém, de se iniciar uma dissertação a respeito da obra, julgo mais do que conveniente apresentar seu autor, mestre dos romances de espionagens, o britânico Frederick Forsyth. Mas para isso, vamos atalhar caminho e pedir ajuda ao Wikipedia mais uma vez:


Começou a servir a RAF (Royal Air Force) como um dos mais jovens pilotos, tendo servido até 1958. Depois começou a trabalhar no Eastern Daily Press como repórter. Em 1961, se tornou correspondente da Reuters em Paris. Trabalhou também na Alemanha Oriental e na Tchecoslováquia, países onde obteve muitas informações que seriam, posteriormente, publicadas em seus livros. Retornando a Londres em 1965, trabalhou como repórter de rádio e televisão na BBC, o que lhe proporcionou a oportunidade de conhecer a fundo os grandes dramas da política internacional. Essa experiência no jornalismo o ensinou a ser minucioso e preocupado com as verdades históricas. Como correspondente diplomático assistente, cobriu o lado biafrense da guerra entre a Nigéria e Biafra de julho a setembro de 1967, e isto forneceu a ele conhecimento de política internacional, especialmente sobre o mundo dos soldados mercenários. Foi este trabalho e a pesquisa relacionada que interessaram a ele como verdade histórica. Em 1968, deixou a BBC para retornar para Biafra e cobriu a guerra, primeiro como freelance e depois para o Daily Express e para a revista Time.
Em 1970, após nove anos de intensa carreira jornalística, Forsyth teve a idéia de escrever um livro onde poria à prova os métodos de investigação de sua atividade como repórter. Escolheu um tema romanesco e de certo modo misterioso: as tentativas da extrema direita francesa de assassinar o General Charles De Gaulle, presenciadas por Forsyth em 1962 em Paris. Nasceria assim o primeiro de sua longa lista de sucessos: O Dia do Chacal.
A lista de thrillers que escreveu após o grande sucesso deste livro o tornou um best-seller internacionalmente reconhecido. Especializou-se em romances envolvendo espionagem e política internacional. Com O Fantasma de Manhattan, flertou com romances de suspense, mas o resultado foi decepcionante para seus antigos leitores. Estão entre seus grandes livros os romances A Alternativa do Diabo, Dossiê Odessa e O Quarto Protocolo,
Frederick Forsyth fala francês, alemão e espanhol fluentes, e tem viajado por toda a Europa, Oriente Médio e África, e estas experiências podem ser vistas na autenticidade dos seus livros.

Pronto. Thanks Wikipedia!

Dos livros escritos pelo cara, já devorei: Cães de Guerra, O Dia do Chacal, O Dossiê Odessa e agora A Lista. Destes, O Dia do Chacal ainda é o mais legal além de ser o mais antológico devido a sua versão cinematográfica e a lembrança do mais famoso terrorista do mundo, Carlos o Chacal. 





Mas isso é papo pra outro post. Vamos ao livro.

Como não poderia deixar de ser, o livro é mais uma aula de história e geopolítica contemporânea descrevendo e citando fatos e personagens da atualidade. O que chama a atenção de imediato, assim como nas demais obras e em suas respectivas épocas em que a narrativa ocorre, é a sintonia fina para com a realidade do momento, descrevendo os novos desafios das potencias globais a elas impostas por seus novos inimigos após a Guerra Fria e o 11 de setembro. Estamos falando do terrorismo islâmico salafista.

PS: Salafismo (do árabe سلفي, salafī, "predecessores" ou "primeiras gerações") ou movimento salafista é um movimento ortodoxo ultraconservador dentro do islamismo sunita. A doutrina pode ser resumida por ter "uma abordagem fundamentalista do Islã, emulando o profeta Maomé e seus primeiros seguidores".
Obrigado novamente Wiki...

Novos inimigos, sem uma pátria definida e espalhados pelo mundo, usando e abusando das novas tecnologias de informação e comunicação disseminadas pelo globo e alcançando a todos, cujo controle é praticamente impossível.

Tudo isso é, portanto, pano de fundo para a trama da obra A Lista. Creio eu que, por detalhe, Forsyth não tenha citado o ISIS (o tal Estado Islâmico) no contexto da obra. Talvez porque seu lançamento tenha sido em 2014  (considerem ainda alguns anos antes para a concepção da obra) e naquele ano esses caras não estariam tanto em evidência assim. Mas já vemos a citação da morte de Osama Bin Laden. Para deixar o lance mais tenso, Forsyth ainda aborda no contexto da obra a pratica da pirataria na costa da Somália e suas características.


Drones, hackers, telefones via satélite, redes sociais, criptografia,... uma parafernália tecnológica é empregada na descrição da narrativa com detalhes excelentes mas com linguagem não menos acessível. Mas sabe como é: quem conhece um pouco mais vai curtir mais e entender melhor o que ele queria descrever.

Além disso, CIA, FBI, Seals, SAS, Mariners, Delta Boys, Pathfinders MI-6,... um punhado de organismos e unidades de combate e defesa dos EUA e Grã-Bretanha são citados e descritos durante a narrativa, bem como os laços de comunicação e cooperação entre si, ao mesmo tempo em que o autor deixa claro todas as dificuldades que estas tem em combater inimigos silenciosos que agem nas sombras, como os terroristas da atualidade.

Toda essa caracterização me levou a imaginar como deve ter sido o processo de concepção desta obra. Fico imaginando o quanto Forsyth leu, pesquisou, consultou, investigou, entrevistou... Sem falar na porrada de contatos que ele deve ter feito para poder compilar tanta informação num único romance e de forma tão concisa quanto este. Trabalhar com um cara desses poderia ser o céu ou o inferno, dependendo do ponto de vista. Céu por tudo o que se poderia aprender com o cara. E inferno o quanto lixo o cara poderia se sentir próximo de alguém com tamanha capacidade intelectual.

A velocidade da narrativa é padrão Forsyth: rápida e de tirar o fôlego. Em determinados momentos o livro se torna enfadonho (qualquer livro tem essas partes) onde a gente cansa. Mas do meio para o final a coisa deslancha e prende de vez a nossa atenção quando não vemos a hora de ver como será o desfecho de tudo.

O único ponto fraco (se é que posso dizer que existe), é o final da narrativa que se resume numa cena de ação. Assim como nos demais livros de Forsyth, a cena final é descrita com riquíssimos detalhes, mas é curta e com um desfecho muito sóbrio, chegando a decepcionar o leitor um pouco.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o título: "A Lista". Não me pareceu ser um titulo muito apropriado tendo em vista que "a lista" resumiu-se a apenas um único inimigo. Não entendi o porquê da escolha desse titulo, mas...

Vale a pena?

Ah, vale!

Especialmente para aficionados em história como eu.

Melhor seria se rolasse uma versão cinematográfica.

Humilde opinião de quem vos escreve.

sábado, 29 de outubro de 2016

Anjos em chamas

A sequência de Voo fantasma, best-seller do Sunday Times e uma bomba de adrenalina de tirar o fôlego
Um cadáver pré-histórico sepultado dentro de uma geleira ártica, chorando lágrimas de sangue.
Uma ilha invadida por primatas raivosos fugitivos de um laboratório de pesquisas classificado com o nível máximo de biossegurança.
Um gigantesco hidroavião escondido debaixo de uma montanha, contendo uma sinistra carga nazista.
Um órfão sequestrado de uma favela africana, tendo em mãos a chave para a salvação do planeta.
Quatro viagens aterrorizantes. Um caminho intransponível.
Só um homem capaz de atravessá-lo.
Will Jaeger. O caçador.

by Skoob.



Quem ainda não conhece Bear Grylls?
Rapidinho então, da Wikipedia: 

Edward Michael Grylls, conhecido como Bear Grylls (nascido dia 7 de junho de 1974 na Irlanda do Norte), é um ex servidor das Forças Especiais Britânicas, aventureiro, escritor, apresentador de televisão e montanhista britânico. Ficou mundialmente conhecido ao apresentar o programa "À Prova de Tudo" e também "No Pior dos Casos" pelo canal a cabo Discovery. É atualmente Chefe dos Escoteiros da Inglaterra. A Prova de Tudo e No Pior dos Casos foram alguns de seus programas que colocaram sua vida em jogo.


O programa de TV de Bear Grylls, À prova de tudo, exibido pelo Discovery Channel, tornou-se uma das séries mais vistas no planeta, com uma audiência de mais de 1 milhão de pessoas.
Bem...
Aos poucos fui ficando fã do cara...
Mais ainda quando descobri que era chefe dos escoteiros ingleses. Sem dúvida se tornou uma referencia para muitos jovens mundo afora.
De bobeira passando na Saraiva quando me deparo com um livro onde estava escrito em letras garrafais o seu nome. Só não esperava que seria um romance. Então percebi que o cara também estava brincando de escritor.
O livro tem uma parceria em sua divulgação com o Discovery Channel Brasil e com a União dos Escoteiros do Brasil. Legal ne? Não é por menos, Bear é o Chefe Escoteiro da Associação dos Escoteiros do Reino Unido e tem uma legião de fãs no movimento escoteiro brasileiro, que atinge direta ou indiretamente 500 mil pessoas.

A foto dispensa legendas...
Uma agradável surpresa, ainda mais pela proposta de sua obra: um romance de espionagem e ação ao estilo Frederick Forsyth com pitadas de Dan Brown. Se consultarmos o site Skoob, vemos o livro indicado para fãs de livros de guerra, de espionagem, e de ação, como os de Frederick Forsyth, e de aventura e sobrevivência na selva.
Mas vamos à resenha do livro em si. Apesar da rasgação de seda e da real admiração pelo cara, devo ser honesto quanto ao livro.

Quer saber o que tem a ver essa imagem com o post? Leia o livro... os primeiros capítulos serão o suficiente.

Bem, nosso estimado chefe escoteiro está longe de se tornar um desses autores, seja o canastrão Dan Brown ou, muito menos ainda, o renomadíssimo Forsyth. Mas a tentativa é válida, pois resultou num inegável bom roteiro para um filme de ação e espionagem.
Como disse, a ideia é legal. Mas...
Ao tomar o livro nas mãos, confesso, me impressionei com as chamadas na capa e contra-capa: mulher congelada em uma geleira, hidroavião gigante nazista, macacos doidões, um garoto que é a esperança de tudo...enfim, de fazer os olhinhos brilharem. Logo de início, a explicação do autor sobre sua motivação em escrever esta obra também contribuiu para o aumento da expectativa quanto a narrativa desta estória.
Eis o problema: durante o transcurso da narrativa, os elementos são apresentados em suas devidas cenas e capítulos, mas de uma forma fria, superficial, e em muitos casos de uma forma coadjuvante, sem importância, levando o leitor a se perguntar: "tá, e daí?".
Parece que falta alguma coisa. O que se leu nas sinopses criou a expectativa de uma intrincada trama recheada com aqueles elementos e argumentos que os envolveriam. Mas não é o que acontece. Parece que muitos desses elementos estão ali apenas por estar sem fazer muito sentido , ou mesmo diferença, para a estória em si. Como se as pontas, embora não fiquem soltas, ao final da história pareçam que estão um tanto frouxas.
E convenhamos: "Caçadores Secretos" é muito clichê! Não é spoiler, mas se quer saber o que é , vá ler o livro.
Para um filme talvez seria o suficiente, mas para um livro creio que faltam argumentos para aqueles elementos fortemente anunciados tanto fora quanto dentro da narrativa do livro.
O ponto forte do livro é o esforço do autor em criar uma história verossímil, rica no detalhamento das cenas de ação, bem como nos elementos bélicos apresentados. 
Drones, dirigíveis, metralhadoras, helicópteros, trajes especiais,tudo ali bem descrito em detalhes técnicos. Uma diversão a parte pesquisar essa parafernália na web e constatar que de fato ela existe. Deem uma olhada...

Eis o airlander. Para saber mais, leia o livro...


Eis o Reaper. Para saber mais, leia o livro...

Outra coisa legal no livro é que ele trata de assuntos da atualidade. Sobrou até mesmo para menções ao Brasil e a nossa então presidente Dilma, citada somente como "a presidente". Nesse ultimo caso, é interessante notar como alguém enxerga o Brasil em uma trama sob o ponto de vista de um autor estrangeiro.
Por fim, é necessário enaltecer a grande sacada de Grylls em utilizar sua experiencia militar diretamente na narrativa da obra, bem como aspectos históricos riquíssimos da participação de membros de sua família na Segunda Grande Guerra: as reais motivações para esta obra.
Enfim...
O livro está longe de ser ruim. Mas não dá pra dizer que é um clássico da espionagem. Embora em muitos momentos da narrativa o autor me remonte a Frederick Forsyth e seus clássicos "Cães de Guerra" e "Dossiê Odessa".
Bear Grylls não faz feio como autor, mas eu pessoalmente esperava mais pois a expectativa foi grande.
Valeu como diversão. Me deu vontade de ler "Vôo Fantasma", primeiro de seus romances.



Humilde opinião de quem vos fala...

sábado, 30 de julho de 2016

Marco Polo

Não sei se com mais alguém funciona assim: dependendo de como as coisas estão em uma determinada época, a música, ou o filme, ou a roupa, ou a série de TV que o cara tá vendo acabam por ficarem marcadas. Há um ano atrás estava assistindo "Sons of Anarchy" e só não assisti toda ela porque o Netflix dispõe os episódios estilo a la Jack. Aí veio "Blacklist" e outras. Bem, caí fora da empresa em que trabalhava e tal e tentei assistir a série "Sherlock", mas como disse, essa aí marcou a época triste e chata que estava passando e não me deu tanta vontade assim de continuar assistindo, além de ser muito enfadonha.


Então, viramos a página... e despretensiosamente escolho a série produzida pelo Netflix "Marco Polo". Juro, de maneira despretensiosa. O que me agradou foi o título da série: personagem principal, remendo a uma temática histórica e tal. Nossa, que golaço.
Pra não ficar enchendo linguiça, vou fazer um Ctrl+C e Ctrl+V da sinopse da série:

Marco Polo é uma série de televisão dramática sobre os primeiros anos de Marco Polo na corte de Kublai Khan, o Khagan do Império Mongol e fundador da Dinastia Yuan, que durou de 1271 a 1368. A série estreou na Netflix em 12 de Dezembro de 2014.

A série foi criada e produzida por John Fusco e é protagonizada por Lorenzo Richelmy como Marco, com Benedict Wong no papel de Kublai Khan. Com um investimento estimado em 90 milhões de dólares, Marco Polo foi a iniciativa mais custosa produzida pela Netflix. Muitos fãs comparam o ambiente de intrigas e sexo com o criado pela série Game of Thrones.

A série é produzida pelo estúdio The Weinstein Company.

Em 7 de Janeiro de 2015, Marco Polo foi renovado pela Netflix para uma segunda temporada com 10 episódios."


Tá, é isso. Obrigado Wikipedia.
Agora é a minha vez.
Eu não sabia que, ao começar a assistir seus episódios, este seria um ano de alvoroço por causa da série. Afinal, seria em 2016 o lançamento da sua segunda temporada, já que a primeira fora tanto badalada e comentada. Bem, parece que nada é por acaso.
Não preciso também dizer que tá cheio de material sobre a série na web, então não vou ser pretensioso a ponto de tentar fazer uma resenha toda bancando o critico cinematográfico, a não ser dar minha opinião.
Em primeiro lugar, já no primeiro episódio o bagulho me agradou. De cara deu pra ver o capricho da produção, o que me deixou empolgado. Figurino, cenário, ... Tudo show de bola.
Em segundo, me chamou a atenção a ausência de grandes nomes no elenco, a começar pelo ator que interpreta o protagonista. Talvez por não ter um quilate suficiente deixou com que o personagem fosse sugado pelas sombras dos demais e da trama em si. Não que ele não tenha talento ou que comprometesse algo, mas bem que ele poderia ter dado mais peso ao personagem através de uma interpretação melhor. Aos demais, como a coisa toda se passa no coração da China, fica difícil juntar atores conhecidos e origem asiática. É ruim, hein?! Mas quanto a estes as interpretações matam a pau, o cara que faz o Kublai merece um premio. Achei 10!
Em terceiro, tem ação! E na medida certa. Não deve ser fácil manter o ritmo pirado de uma história de aventura e ação em uma série, dada a problemática e dificuldade de produção para com muitos episódios e tal. Mas tem muito kung-fu e luta de espada de qualidade. Bem legal! e sem exagerar, na medida certa.


Quarto: tem sexo e nudez! É ,... tem sim! Mas também na medida certa. Nada espalhafatoso como "Spartacus" mas também nada que não seja adequado para crianças menores de 16 anos. Dá pra dizer que tais cenas também são de bom gosto, mas tirem as crianças da sala.



Quinto: tem história. E é aí que tá. Toda a trama é baseada em contextos históricos, tanto sobre as viagens de Marco Polo, quanto as cruzadas e as conquistas mongóis. Mas historicamente elas sem encaixam?
Alguns podem dizer: que se dane, quem se importa se os fatos históricos precedem. Outros, como eu, gostariam de saber se tudo, alguma coisa ou nada, de fato, ocorreu na história.
Nossa querida Wikipedia nos ajuda (https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Polo). Marco Polo, de fato percorreu com seu pai e seu tio a Rota da Seda e se encontrou com Kublai Khan.



A última Cruzada foi em 1270 (a oitava cruzada). Marco nasceu em 1254 e morreu em 1324 e, portanto, ainda era contemporaneo das Cruzadas, o que respalda o envolvimento dos Cruzados na trama da série.
Pra finalizar, a brincadeira custou 90 milhões ao Netflix. Carinho, mas também mostra como eles tão levando a sério o projeto, o que é legal. E percebe-se pela qualidade.


Marco-Polo-Netflix5

Alguns mais exaltados ainda tentam compara-la ao "Game of Thrones". Bem, eu não assisto ao "Game..." porque é muito fictício e prefiro algo embasado em história mesmo, mas os que acompanham dizem que "Marco Polo" não chega aos pés de "Games"  em tramas e ação. Por mim não tem problema, esse não é mesmo o objetivo.
De qualquer forma, é uma bela série e suas duas temporadas possuem enredos distintos mas não discrepantes deixando motivos para imaginar o que virá na terceira, pois a coisa termina com muito em aberto.
Espero, pra finalizar, que nos próximos episódios o protagonista esteja mais presente, bem como seu ator mais imponente em sua interpretação. E é só! Se continuar assim, dosando as cenas de lutas, ação, sexo, nudez e diálogos, que alguns inclusive acham chatos e tal e eu não concordo com isso,está de bom tamanho. Os diálogos de Kublai com Marco são ótimos. Um embate interessante. Tão interessante quanto é a forma como a série na sua primeira temporada tentou mostrar o choque cultural de Marco.
Enfim, adorei... e recomendo.
Abaixo um trailerzinho pra dar água na boca.



Humilde opinião de quem vos escreve!

terça-feira, 28 de junho de 2016

O poço e as botas

Puxa...
Não tinha percebido que já era noite. Acho que tá na hora de dormir. Lavei minhas botinas de couro e as deixei para secar sob o para-peito do poço no fundo de casa, onde pega sol por mais tempo durante o dia. Acho que já devem estar secas.
Interessante! Acabo de ver que realmente escureceu. Como escureceu rápido! Céu limpo, crivado de estrelas. Uma bela noite, quente de verão. Lá no oposto do céu a lua cheia imponente a ponto de iluminar o velho pátio de casa.
A, esta casa: da minha família a mais de 60 anos. Existe à 80. Foi a casa paroquial antes. Volta e meia descobrimos segredos nelas, principalmente quando o reboco de alguma parede cai ou quando alguma parte da tinta se descasca, sem falar nas antigas moedas encontradas quando trocamos o assoalho. Alguns dizem que no porão da casa uma senhora morreu, quando estava sendo tratada pelo vigário da paroquia, escondida do resto das pessoas por estar sofrendo de tuberculose. Bobagem! nunca via nada, mas os arcos que sustentam as paredes, os antigos tijolos franceses maciços e o chão batido daquele porão dão mesmo um aspecto sombrio.
Enfim, adoro esse lugar e nunca vi nada que me assustasse de verdade, a não ser um gambá espertalhão que entrou para roubar algumas batatas do saco que o vô tinha comprado.
Ai, minhas botas.
Sabe duma coisa? Nunca tinha reparado direito nesse poço. O vô sempre pega água dali, todos os dias. E não tem jeito de convencer ele de instalar uma bomba. Não! Me lembro quando criança que ele não deixava de jeito nenhum que algum de nós se aproximasse dele. Ele dizia que era perigoso alguém cair e morrer afogado. Então eu e meus irmãos e primos sempre respeitamos. Talvez por isso esse poço tenha ficado esquecido, embora sua visão tenha se tornado a mais rotineira e comum, dentre tantos outros locais e formas que aquela casa tinha.
Então de longe começo a reparar naquele poço. Que interessante! Nunca reparei naquela mureta em torno do muro Agora, olhando bem, parece com aqueles poços de filmes: uma mureta de pedra, meia baixa, bem rústica. Na verdade, bem charmosa, daria para fazer boas fotos em torno daquele poço, bastaria ajeitar um pouco o cenário com algumas flores ou mais algum madeirame antigo com alguns baldes de latão velho, sei lá... Mas como não tinha reparado nisso antes?
Então, quando chego perto do poço, estando a dois passos dele, a escuridão da noite, mesmo que amenizada pela beleza daquela lua, me aplica uma peça e me faz tropeçar numa raiz de árvore saliente. Poutz, seria um baita tombo se não houvesse... o muro. foi nele que consegui me apoiar projetando meus braços e conseguindo me apoiar para não cair.
Beleza! Acidente evitado, se não fosse pelo esbarrão ter lançado meu par de botas pra dentro do poço.
Ah não!
Só que um detalhe me chamou a atenção: não ouvi barulho das botas caindo n'água. O que ouvi forma elas batendo em um chão seco. Que estranho! Hoje pela tarde o vô veio aqui pegar água e não falou nada que o poço poderia estar seco ou coisa parecida. E ainda entrou em casa com um balde cheio d'água do poço.
Bem, não sou mais guri. Acho que não preciso mais ter medo de me afogar. Claro, tá noite, e qualquer vacilada poderia sim causar um acidente nada leve por ali. Mas me chamou a atenção o fato de não haver barulho d'água, ou melhor, do poço estar seco.
Volto para a casa correndo e pego uma lanterna para dar uma olhada naquele poço. Ligo-a e projeto o foco de luz sobre o poço.
Nossa!
Que legal!
Foram minhas primeiras expressões. Então ali, a luz de um lanterna de pilhas, pela primeira vez nesses meus 39 anos de idade, olho para dentro daquele poço e me deparo quase que como um cenario de filme: um túnel de mais ou menos 5 metros de profundidade, todo ele revestido de pedras regulares, dispostas como um muro cônico de contenção. Nada de água, só consigo ver seu fundo, bem nítido por sinal, totalmente calçado com as mesmas pedras regulares das paredes daquele poço. Interessante é que, ao fundo, as laterais do poço apresentavam uma escuridão, com ose houvessem saliencias, ou como acusasse uma continuidade daquele poço na horizontal, como um túnel, um corredor, sei lá. E as botas, adivinha? Sumiram!
Embora eu realmente precisasse daquelas botas para trabalhar amanhã, não era isso que estava me intrigando nesse momento. O que está me deixando inquieto é esse bendito poço. E alguma coisa que, de alguma forma que não sei como explicar, me faz ignorar uma atitude obvia: chamar o vô e contar o que aconteceu e pedir algum tipo de explicação. Mas não.
 O poço não é muito largo, é bem estreito e as pedras que foram usadas nas paredes dele, embora regulares, ficavam bastante salientes, Dava para usa-las de forma bem segura como degraus. Sabe, um pé aqui, outro com a perna atravessando o poço. Não tinha como cair, não mesmo. E, apesar das 22 horas da noite, de não ter avisado ninguém, todo e qualquer medo ou simples receio de se machucar sumiu. Vou descer e ver o que tem lá.
A medida em que vou descendo, começo a ver mais claramente. Mais claramente? De noite, na escuridão, adentando um poço? Como assim? Não sei explicar. Em primeiro lugar, parecia que o poço estava se alongando, ou seja, não tinha apenas 5 metros. Mas estava ficando mais claro, mais nítido. Depois, faltando alguns metros para chegar ao solo percebo que não trouxe minha  lanterna mas consigo ver a minha esquerda que realmente havia uma saliencia na parede, bem grande. Era uma passagem e dela vinha um pequeno faixo de luz, amarelada como de vela ou fogo. Não foi preciso botar os pés no chão para já perceber que era uma passagem sim, e dava para algo tipo um corredor, um túnel, sei lá. A passagem era iluminada fracamente pela luz que imediatamente
identificava como de velas. Ela adentrava a esquerda daquele poço por uns 3 ou 4 metros, quebrando o acesso para a direita. De onde vinha a iluminação um pouco mais forte e que se projetada naquelas paredes de pedra regular. Parecia um daqueles corredores de castelos medievais.


O estranho é que o raciocínio da razão havia me deixado. Eu não estava questionando, ponderando nem medindo nenhum aspecto daquelas circunstancias. Alguma coisa fazia eu apenas avançar.
Então começo a percorrer aquele lugar. Andava, de uma forma instintiva, para frente. Faço a curva daquele corredor e percebo que ele se estende por unas bons metros. haviam umas 5 ou seis tochas pregadas na parede e acesas iluminando o caminho no qual já se percebia alguns acessos em suas laterais parecendo serem portas.
Em alguns momentos lampejos de razão me visitavam. Aquele corredor? Debaixo do quintal de casa? Será o que o vô sabe disso? Quem fez isso? Quem acendeu essas tochas? Então tem alguém aqui... Mas alguma coisa me dizia que aquelas coisas, aquelas tochas, simplesmente estavam ali. Assim, simplesmente, sem resposta para quem as acendeu, ou quem as colocou ali, ou mesmo quem construiu tudo aquilo. Mas alguém construiu aquele túnel.
Então começo a andar, a iluminação é fraquíssima. E logo a direita vejo uma porta enorme, pesada. Na verdade tudo aquilo parecia um galeria de celas, uma masmorra. Essa primeira porta que vislumbro está encostada, então eu entro. Me deparo com uma sala com uma mesa rústica e pesada com um castiçal de três velas acesas sobre ela e um livro grande, com encadernamento de couro. Não há ninguém na sala. Só aquela cena. Atrás da mesa, outra porta.
Me aproximo da mesa e foleio o livro. São palavras desconhecidas, todas elas. O livro não é impresso mas manuscrito. Instintivamente fecho o livro e olho em volta. Não há mais nada naquela sala. A porta por onde passei está fechada. Não me lembro de te-la fechada.
Então sigo, passo pela mesa e continuo abrindo aquela outra porta que havia avistado. Há mais um corredor, dessa vez sem iluminação alguma, senão a do candelabro que ainda repousa na mesa. Ando alguns passos e vejo outra porta a direita. Avisto uma mesa pequenina, como se fossem feitas para anões ou crianças e nela estão sentados dois gatos, um pardo e outro preto. Eles estão disputando queda-de braço sobre a mesa. Eu me aproximo deles mas minha presença não faz diferença alguma a eles. Sou totalmente ignorado.
Então saio daquela sala por onde vim e sigo mais a frente. Há outra porta, dessa vez a esquerda. Ao entrar vejo um senhor, um velhinho sentado em numa mesa onde aprecia de maneira concentrada um tabuleiro de xadrez com as peças já desarrumadas como se uma partida estivesse em andamento. O velhinho, de aspecto caricato, com um longo nariz, calvo mas com longos cabelos ao redor de sua calvície, usando um par de óculos arredondado de grossas lentes, veste uma túnica preta se dá ao trabalho de erguer a cabeça e me olhar muito brevemente demonstrando um constante sorriso. Olha para mim e logo baixa a cabeça voltando à sua concentração. Não vejo suas mãos. E não me importo muito com isso. Revolvo-me nos calcanhares para sair de mais aquele aposento. Quando estou passando pela porta ouço ele dizer em voz tremula "xeque-mate".
Retorno ao corredor e nesse momento não me lembro mais por onde vim, e nem mesmo reconheço aquele corredor por onde recém havia entrado. Mas dou mais alguns passos a frente e vejo outra porta, agora a minha esquerda. Então eu entro e vejo outra mesa com mais um castiçal de três velas acesas iluminando o ambiente sobre ela e um cálice de vinho de  cobre. Era vinho, eu sabia desde o começo que nele havia vinho. Então o apanho e bebo todo o vinho. Por que eu fiz isso, eu não sei.
ao baixar o cálice na mesa, vejo ao fundo daquela sala, na penumbra, uma armadura de cavaleiro medieval ao lado de outra porta.
Então vou para lá e ao me aproximar a armadura se move e com seu braço abre esta porta destrancando uma antiquada fechadura. Eu não me assusto, tampouco sinto medo. A próxima sala é a sala do Rei. E ali está ele sentado em seu trono com o dedo em riste aos berros chamando e dando ordens para um lacaio que não aparece. O Rei não se incomoda com a minha presença, nem mesmo a acusa. Parecia ser um rei sem reino.
Eu dou meia volta e, ao lado da porta que passei, outra está aberta e projetando uma fraca luz de velas. Passo então por esta porta e percebo que estou pisando em moedas. Não sei se valem alguma coisa ou não, mas dá pra perceber que são moedas. Ao levantar minha cabeça depois de contempla-las percebo estar em outro grande corredor onde no meio dele, exatamente no meio, há um aparador com um espelho e sobre esse aparador outro castiçal com tres velas acesas. Chego próximo ao espelho e vejo meu reflexo. Nada de anormal. Sigo por este corredor até seu fim onde há outra porta.
Então abro esta porta e vejo alguém sentado em uma mesa. Uma pessoa sentada em uma mesa com um baralho na mão Essa pessoa veste uma especie de habito com capuz. Não vejo seu rosto. Me sento a sua frente e recebo as cartas. Estou jogando um jogo que não conheço as regras, nem sabia que conhecia algum tipo de jogo de cartas. Mas estou jogando.
O jogo termina. Sem saber quem ganho ou perdeu, assim como nenhuma palavra entre eu e aquela pessoa é trocada.
Ao sair pela porta de onde vim percebo que exatamente a esta existe um acesso que não havia percebido antes. É um acesso para uma escada. E é por lá que eu vou. Então começo a subir uma escada circular. A escada parece não ter fim. Parecia estar em uma torre ou algo assim onde lá em cima dá pra avistar uma janela de onde incide a luz da lua. Mas estou muito cansado, sento nos degraus para descansar.
Que houve?
Acordo com alguns raios de sol que passam pela janela mal fechada do meu quarto. Então foi um sonho! Apenas isso. Mas que sonho mais louco. Se eu ainda bebesse ou usasse algum tipo de entorpecente, mas nem um tapinha num baseado eu dou. que coisa estranha. Então salto da cama e pela janela vejo aquele poço e sua mureta. Fico parado em pé na janela por alguns minutos, meio que me acordando ainda daquele sonho louco que tive. O interessante é que lembro de cada detalhe. Nossa, muito estranho. E por uns 5 ou 6 minutos fico ali, entre as lembranças daquele sonho e a visão do poço, onde supostamente seria o cenário daquela aventura surreal. Até o momento que percebo o gosto estranho na minha boca: vinho.
Logo em seguida, meu vô bate na minha porta e me entrega minhas botas. "Ve se deixa elas caírem no poço de novo..", . Estavam encharcadas d'água. Quando pego uma delas de mau jeito, o cano da bota se projeta para o chão deixando cair algo que estava dentro dela: o cavalo, uma das peças de um tabuleiro de xadrez.
Então olho para minha cama e percebo algo debaixo do travesseiro. duas cartas de um baralho. O coringa e o Rei de Copas. A fisionomia do coringa não me era estranha: o velhinho xadrezista.
Olho para a minha porta e vejo meu vô que se dirige a mim: "Escuta rapaz, tu sabe o que minha lanterna estava fazendo lá fora no chão, do lado do poço?"
Ele me dá uma piscadela e volta pra cozinha.