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sexta-feira, 20 de março de 2020

Meu amiguinho Teddy


Nunca na minha vida eu poderia imaginar que iria estar na situação que estou hoje: “descornado”.

Apesar de tentar falar para mim mesmo de forma insistente essa frase “não dava mais” como um mantra, não consigo esquecer essa desgraçada. Agora que três meses já se passaram, me pego sozinho nessa porcaria de apartamento tentando não pensar nela, em vão. É a quinta garrafa de whisky que derrubo de dois meses para cá. Toda noite um porrezinho, meia carteira de cigarro, lágrimas de saudade e a imagem dela que não sai da minha cabeça.

Alice, que cagada fui fazer! Achei que poderia ficar sem você ou mesmo que você era de fato o problema. Mas não. Agora sinto a tua falta, e pelos cantos durante a madrugada fico chorando com o copo na mão feito um imbecil lamentando minhas burradas. O pior de tudo é que agora é tarde, pois já achou outro cara, outro “boy” como as mulheres adoram dizer, ou como ela mesma disse para suas amigas.

“Boy”, puta que pariu!.

Minha única ligação com a Alice agora é você Teddy, capetinha Yorkshire. Quando que iria imaginar que tua companhia seria meu alento nessas longas noites? Mesmo após ter detonado uns quantos pares de tênis meus, sem falar do último controle remoto da TV que você comeu inteirinho. Agora somos nós dois, cachorrinho. E, nem meu, eu posso dizer que você é, pois ainda tenho que dividir a sua guarda com Alice. Bem, ao menos foi esse o subterfúgio que usei para poder continuar a vê-la, mesmo que por uns minutos quando ela vem te pegar ou te devolver. E quantas vezes já propus a ela para que eu o levasse a sua casa, mas acho que ela não quer que a veja com seu novo... boy. Puta que pariu!

- Que situação hein, Teddy? Agora aqui, deitado na cama, e conversando com um cachorro sob meu abdômen, pois é o que me resta. Olha para mim e me diz Teddy, o que eu faço com essa minha porcaria de vida?

- Bom, para começar tem que parar de chorar feito uma menininha.

De onde veio essa voz?

- Teddy, chega pra lá. Deixa eu... Quem tá falando?

- Sou eu o vacilão!

- Teddy?

- Não, o travesseiro. Claro que sou eu o imbecil.

Ai meu Deus. Acho que tô a um passo do alcoolismo.

- Viu só Teddy, já estou ouvindo você falar, ah ah ah.

- Por que você trocou o Jack Daniel’s por Natu Nobilis. A grana tá tão curta assim?

- Não é que fui ao mercado e só achei.... Teddy?! É você mesmo?

- Não o mané, já disse que é o travesseiro. E aí, vamos conversar ou não?

- Ma..mas, como isso é possível?

- Assim, um fala e outro escuta. Que tal?

- Teddy?!....

- Sou eu porra! Só porque sou um Yorkshire acha que eu só serviria para cagar, mijar e empatar a foda de vocês?

- “Empatar foda”?

- É, não era do que você me chamava quando estavam transando e eu pulava na cama e lambia a cara de vocês? “Empata foda”, Ah ah ah,! Cara, como era divertido ver você ficar puto comigo. Mais divertido ainda quando você ia tentar me pegar e eu ia para baixo da cama. Ah ah ah.

- Meu Deus, não tô acreditando. Não sabia que essa porcaria de bebida dava alucinações. Agora estou eu falando com meu Yorkshire.

- Seu não, de vocês dois. E Natu Nobilis não dá alucinação, dá dor de cabeça. É ruim mesmo.

- Tá bem. Vou fazer de conta que isso tá acontecendo. Talvez eu possa ouvir uns conselhos seus então...

- Isso, vai sendo sarcástico. Mas lembra de que é você que está na fossa, não eu! Seguinte, vamos ter que agir.

- Ã..., er...Bem. Tá certo.

- Tá a fim de ouvir o que tenho a dizer ou não?

- Ca...claro.

- Beleza. Seguinte, bateu fome, traz um rango pra mim. Pode ser aquele petisco sabor salmão.

- Ta..tá bem. Vou pegar.

- OLHA, NÃO COMPRA MAIS SABOR DE FRANGO. JÁ ENJOEI.

- NÃO GRITA CACHORRO INFELIZ. ALGUÉM PODE OUVIR.

- NINGUÉM VAI ENTENDER. FICA FRIO.

- Toma aqui!

- Valeu. Glop glop... isso é que é comida! Depois lembra de trocar a água do meu pote. Faz mais de semana que você só bota água e não troca. Tá com gosto da minha baba.

- Tá bem!

- Bom, vamos aos fatos. O lance é o seguinte, você foi o maior mané, vacilão e trouxa. Poderia estar numa boa mesmo sem a Alice, mas prefere ficar nessa bad aí. Cara, até a gostosona da Larissa deu bola e você nem as horas...

- Que Larissa?

- A mina do Pet Shop. Aquela bunduda. Ô meu, que filé!

-Teddy! Como você sabe disso?

- Ela só falava de você durante o banho. Aliás, isso é uma coisa que daqui a pouco vamos negociar. Essas porcarias de banho.

- Ah cara, você sabe. Não consigo tirar da cabeça a Alice, então nem olho direito para outras...

- Eu sei, eu sei. Por isso resolvi ter um tête-à-tête contigo. Vamos bolar um plano para consertar tudo isso.

- Como assim?

- Negócio é o seguinte: o cara que tá com ela é o maior babaca, um idiota de marca maior. Ô meu, você não tem noção. Acredita que ele implica com a Alice porque ela bate a colher na borda da panela quando cozinha?

- Sério isso? Mas ela nem gosta de cozinhar...

- É, as coisas mudam. Ou talvez você de tão trouxa não percebia isso.

- Será?

-Aham. Dentre outras coisas. A principal e mais importante de todas é que ele não topa com a minha cara e nem eu com a dele. Já tomei uns três chutes dele que quase me machucaram seriamente. A Alice não viu nada disso e estou de saco cheio desse cara.

- Ele te chutou? Aquele filho da p...

- Calma! Você não tem o que fazer. Até porque ela não iria acreditar que o Yorkshire de vocês fala. Se liga né meu.... Depois, em segundo lugar é o fato de que ela não te esqueceu.

- Como sabe disso?

- Molezinha. Volta e meia ela me pega no colo e me leva pra cama. Aí pega o celular e fica fuçando no teu Facebook. Claro que não vai encontrar nada de novo porque você é um mané, bonitão e sarado, mas que fica choramingando e não é capaz de pegar ninguém e....

- Dá um tempo o cachorro de merda!

- Foi mal, foi mal... Bom, mas aí um desses dias eu a vi revirando teu Facebook e quando vi ela começou a me apertar e a chorar. Então, a dedução é simples.

- Sério isso?

- Pode crê magrão! Então, achei que tava na hora de eu entrar em campo. Sabe, o inverno vai chegar e dormir no meio de vocês é tudo de bom.

- Vira-lata interesseiro.Ah ah ah.

- Yorkshire, por favor!

- Muito bem. Qual é o plano?

- Seguinte: eu bolei quatro etapas. A primeira depende só de você. Tem a segunda que é por minha conta, a terceira e a quarta... são com você também. Portanto, a primeira vai consistir em você mudar alguns hábitos e algumas posturas. Não adianta fazer nada se você não estiver preparado para segurar a onda. Não pode ser como antes.

- Como assim?

- Cara, eu sei que você gosta de ler e tal, mas não pode ficar seu tempo todo livre mergulhado em livros. Olha, eu curto os seus livros, tipo aqueles do Conan Doyle e do Alla Poe, mas você tem que dar mais atenção para ela. Tem que fazer coisas que ela gosta também, como um barzinho de vez em quando, um motelzinho.... Isso se der certo o plano e vocês voltarem, claro

- É, já notei isso. Nem sempre o que me agrada agradava a ela. Então, realmente, acho que eu deveria... Espera aí? Como pode um cachorrinho que nem você saber  o que ela gosta ou o que leio?

- Bom, primeiro porque ela vive falando essas coisas para as amigas dela, aí sou forçado a ouvir sempre a mesma historinha. Segundo, porque manjo de leitura labial. Você não sabe ler sem mexer os lábios. Li junto contigo seus livros só olhando para os seus beiços enquanto os lia. Puxa, me lembrei quando leu aquele último do Umberto Eco. Putz, que livro chato...

- Teddy?!

- Ainda bem que parou de ler Schopenhauer. Tava me dando um nó na cabeça e não entendia porra nenhuma. Cara, odeio filosofia!

- Teddy?!

- Viu, deixa eu te sugerir uma coisa. Que tal começar a ler em voz alta comigo? Cansa ficar olhando para a tua boca toda a hora.

- Teddy?!

- Vai só ficar falando “Teddy, Teddy, Teddy”? Que coisa chata....

- Tá bom, tá bom... É que é uma novidade pra mim você estar assim...

- ...falando.

- É! Meu Deus, tô ficando louco...

- Tá não meu velho. Relaxa. Deixa eu te contar outra daquele carinha: é o maior porcão. Esses dias chegou lá em casa numa paulada de bêbado e numa chubasa do caralho.

- “Chubasa”?

- O combo “chulé, bafo e asa”. Cara, a Alice botou ele pra correr, não dava pra aguentar a caatinga. Foi assim que eu vi a primeira decepção dela com ele. Ela nem quis dar pra ele naquele dia.

- Vai tomar no cu, seu merdinha!

- Ah, cai na real! Olha só, aí comecei a investigar mais. Teve um dia que eles estavam transando e...

- Teddy, dá um tempo!

- Quer ouvir ou não?

- Tá, fala!

- Aí eles estavam transando e fui fuçar nas roupas dele e peguei sua cueca que tava jogada no chão. Foi aí que plantei a primeira sementinha do mal. Eh eh eh.

- Como assim?

- Tinha uma baita freada de bicicleta na cueca dele. Levei a cueca pra cama e larguei na cara dela. Ela viu aquilo e ficou toda sem jeito. O cara queria me matar na hora.

- Ah ah ah. Sério?

- Tô te falando brother! E tem mais: ele é fake!

- Fake?

- Sim! Precisa de azulzinho pra funcionar, senão o pinto dele fica meia bomba. No bolso da calça dele sempre tinha uma cartela. Contei quantos comprimidos tinha antes e depois do sexo deles.

- Não tô acreditando...

- Sério. Nada contra, pois sei que as vezes você também usava com ela.

- Teddy?!

- Para com isso. Sem stress, as vezes tem que usar mesmo pra não dar fiasco. Não lembra da vez que você encontrou um azulzinho dos seus no chão? Fui eu quem tirei da cartela. Dei umas lambidas e fiquei doidão.

- Foi aquela vez que você não recolhia mais seu pinto?

- Sim. Isso é outra coisa a negociar depois.

- Eh, eh, eh. Teddy, você é sensacional!

- Eu sei, meu querido. Ah, tem outra. O cara é o maior sem-vergonha!

- Como sabe disso?

- Durante uma transa deles peguei o celular dele. Acessei o Whatsapp dele e estava cheio de galinhagem com umas biscates.

- Como você fez isso?

- Peguei a manha. Eu o fiz ver que estava com o celular dele na boca, lambi o sensor de digital para deixar todo melecado, então ele só conseguia acessar digitando a senha. Foi quando a roubei. Depois eles estavam deitados e eu acessei. Foi barbada.

- Teddy, você é incrível!

- Eu sei meu querido, não precisa me bajular. Bom, a parada é a seguinte: ela já está de saco cheio dele, então só falta um empurrãozinho. Vou fazer isso na próxima transa deles. Deixa pra mim! Depois você entra com a terceira e a quarta fase do plano. A terceira você vai ter que causar ciumes nela.

- De que jeito?

- Usa a imaginação. Bota essa cachola pra funcionar. Você sabe que ela é ciumenta. Além do mais, quando ela sentir ciúmes de você novamente, já era: peixe fisgado!

- Tá bem. Vou pensar em alguma coisa. E a quarta?

- É levá-la para sair. Tenho certeza de que ela vai topar.

- Mas ela tá com o cara!

- Depois que eu entrar em campo, tudo vai mudar meu velho, fica gelo. Mas antes de tudo...

- Antes de tudo o que?

- Vamos negociar.

- Negociar? Tá bem, quais a condições?

- Em primeiro lugar: banho só com a gostosa da Larissa e no verão. Nada de banho no inverno. Cara, vocês nem me deixam ir direito pra rua, pô! Eu nem fico sujo.

- Combinado!

- A segunda é a seguinte: nada de castração. Esse papo de que eu vou viver mais e que não vou ter doenças e tal não cola. Já faz um tempo que vocês diziam que iam me ferrar e não tô a fim de perder minhas bolas.

- Tá bem!

- A terceira: quero sempre uns pedacinhos de carne dos churras que você faz. Enche o saco só ração. Já melhorou com aqueles petiscos de salmão, mas nem se compara com carne né. E quero entrecot!

- Teddy?!... tá bem.

- E por último: sabe a Tifany? Aquela cadelinha Yorkshire do 302? Quero dar uns pegas nela.

- Mas como eu vou fazer isso? Ela até castrada é!

- Não sei. Te vira! Ela é castrada, mas tem pepeca. Lembra quando dei umas lambidas nela no jardim da frente do prédio a um tempo atrás? Fiquei locão e ela também.

- Tá combinado. Mas como vai fazer pra dar o tal empurrãozinho?

- Na próxima transa deles. Quando estiverem trepando, vou morder a bunda dele. Vai doer, tanto pra ele quanto pra mim, porque vou levar um pau. Mas aí vai ser a gota d’água para ela. Você sabe o quanto ela me ama e, como já disse, ele me detesta. Já deixou bem claro para ela isso várias vezes, e ela não gostou nadinha.

- Tá bem Teddy!

- Agora vamos dormir. Não aguento esse teu bafo de whisky vagabundo e você tem que trabalhar. Vai, deixa eu dormir de conchinha aí....

No outro dia...

Meu Deus. Que sonho mais louco! Então, passei a noite inteira conversando com meu Yorkshire. Só eu mesmo!

- Bom dia Cassiano.

- Oi, bom dia Alice.

- Desculpa a demora, mas o trânsito tava horrível e...

- Não, não! Sem problemas. Aproveitei o tempo de sua espera para ler um pouco com o Teddy aqui no colo. Tá um dia bonito e resolvi trazer um pouco ele aqui fora no parquinho.

- Sim, tá um dia lindo. Que coisa engraçada, é impressão minha ou você estava lendo para o Teddy?

- Na...não! É que eu vi na internet que, lendo em voz alta a gente assimila mais rápido o conteúdo. Então estou praticando.

- Ah, entendi. Muito bem, vamos então Teddy? Vamos caminhando com a guia, para você se exercitar um pouco.

- FICA FRIO O VACILÃO, VAI DAR TUDO CERTO!

- Alice, você ouviu isso?

- Sim! Não sei por que motivo, mas o Teddy passou a dar uns latidos diferentes de uns tempos pra cá.

Ou eu ainda estou bêbado ou esse cachorro fala mesmo? Bem, mais um final de semana sozinho, sem ninguém, nem mesmo meu amiguinho Teddy. Se aquilo tudo foi um sonho ou não, só sei que passei a gostar mais daquele fedorentinho.

Dois dias depois...

- Alô! Como vai Alice?

- Oi Cassiano. Pode falar?

- Sim, claro!

- Então, Cassiano, preciso te contar uma coisa. É sobre o Teddy.

- Aconteceu alguma coisa?

- Sim. O Anderson se irritou com ele e... chutou ele pra valer. O pobrezinho voou contra a parede.

- Não acredito nisso! Mas que filho da...

- Sim, é um filho da puta. Mandei ele a merda, não quero mais ver ele na minha frente. Mas não se preocupe, ele está na clínica do Pet Shop, foi examinado, mandei fazer raio-x e ultrassom, não tem nenhuma lesão grave, só está um pouco amoladinho. Ele vai ficar lá em observação. Ai Cassiano, me perdoa. Se eu soubesse que isso iria acontecer...

- Calma Alice, tá tudo bem. Se você disse que ele está bem...

- Sim, nosso fofinho está bem. As meninas do Pet Shop  inclusive se propuseram a ficar com ele hoje e amanhã para observação na casa delas. Só não sei se deixo aos cuidados da Sofia ou da Larissa.

Quem sabe agora? Hora de fazer um "ciumezinho".

- Olha, eu acho a Larissa muito legal e atenciosa, seria uma boa deixa-lo com ela. E, se quiser, posso busca-lo amanhã.

- Ah, bem,... pode ser. Por falar nessa Larissa, eu sei que não é hora, mas... Posso te perguntar uma coisa?

- Sim, claro?

- Você andou pegando ela?

Bingo!

- Quem? A Larissa? Por que essa pergunta agora?

- Porque ela não parava de perguntar de você quando levei o Teddy. Primeiro, veio com o papo perguntando se a gente realmente tinha se separado. Depois, quando eu disse que sim, nem disfarçou mais.

- Desculpa Alice, mas agora quero saber do Teddy. E acho que não teria problema algum se tivesse algo com ela, não é?

- Tá bem, desculpe. Fiquei muito nervosa e confusa com o que aconteceu.

- Se quiser, podemos conversar melhor. Tem compromisso hoje? Não quer comer alguma coisa comigo?

- Ah, pode ser. Acho que vai ser uma boa a gente conversar um pouco. Você andou mudando de habitos? Nunca gostou de sair.

- Talvez.

- Com a Larissa?

- Nossa! Que isso?

- Desculpe, não tenho esse direito. Me pega em casa?

- Sim, te pego as oito da noite.

- Tá, te espero.

Cinco dias depois...

- Boa tarde Dona Francisca!

- Boa tarde Cassiano!

- Dona Francisca, eu soube que a Sra. vai fazer uma excursão com o grupo de idosos do bairro por uma semana, mas não tem com quem deixar a Tifany.

- Sim é verdade.

- Bem. Se a Sra. quiser, ela pode ficar lá em casa...


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Apenas uma forma de amar



O que fazer quando as palavras faltam ou simplesmente o pronunciar delas não é o suficiente para descrever aquilo que se sente?

Foram anos tentando entender tudo isso para que um dia, se tivesse a oportunidade, te dizer algo a respeito.

É verdade que nunca me esforcei muito para entender. Talvez porque, à medida que o tempo passava, tinha presente comigo que ele se encarregaria de tudo, quando a inocência em nossas vidas daria lugar às experiências maliciosas, dolorosas e cruéis que a maturidade iria apresentar.

Mas não, não se apagou.

Como uma centelha na lareira teimosa em não se apagar, sempre lá estava aquela lembrança: brilhando e ardendo, num cantinho secreto em nossos corações. Por mais fraca que pudesse estar ou que parecesse destinada a se apagar, bastaria um simples sopro para reavivá-la. E assim ela permaneceu por todos esses anos, e nunca se apagou

Foi uma grande paixão adolescente, não tenho dúvidas disso, daquelas de dar febre. Naqueles dias quase não dormia a noite me revolvendo na cama lembrando de teu sorriso, mesmo quando o coração parecia querer saltar do peito quando te via descendo as escadas abraçando os livros escolares ou sentada com as colegas nos bancos do pátio. Aquele “oi” de voz suave e levemente rouca nunca sairia da minha cabeça. Cada dia a espera ansiosa pela chegada do recreio para poder ouvi-lo. Me lembro que era um garoto envergonhado, encabulado até a raiz do cabelo, sem um mínimo de coragem para sequer segurar tua mão, quem diria um beijo.

Ah sim, o beijo. Hoje me tomo a rir sozinho quando me recordo desse delicioso momento: o dia em que me enchi de coragem e a ti lhe perguntei em voz tremula se podia lhe dar um beijo. E tu dissestes “sim”.

“E agora, o que faço?”

Meu Deus, eu não sabia como chegar perto de ti, muito menos como te abraçar. Por sorte tu fizestes isso por nós ao se aproximar e entrelaçar teus braços em meu pescoço. Então senti teu perfume e o calor de teu corpo. Sim, tu também estavas nervosa.

E assim nos beijamos. Um beijo breve, totalmente sem jeito, mas não menos apaixonado. Depois disso, um abraço, o mais longo abraço que poderíamos nos dar. Não vimos o tempo passar. Dez, quinze, vinte minutos... não sei. Só não queria que acabasse. Não queria que tu saísse de meus braços.

Não éramos donos de nossos narizes, pois ainda éramos crianças, eu com quatorze e tu com treze anos. Até hoje não perdoo meus pais por me trocarem de escola. “Lá estavam todos os meus amigos” eu dizia e eles, sempre escondendo o real motivo pela minha relutância na mudança. Até hoje lembro do quanto chorei escondido no pátio do colégio e fui flagrado pelo zelador da escola. Não foi difícil dissimular e dizer a ele que minhas lágrimas eram por causa da troca de escola, ao invés de falar a verdade sobre o que realmente estaria deixando para trás.

E assim o tempo foi passando. Já não conseguia te ver todos os dias, senão cruzando contigo de vez em quando pelas ruas, pois para piorar ainda éramos vizinhos de bairro. Estávamos em diferentes escolas e já não tínhamos mais amigos em comum. Aos poucos tua lembrança ia se enfraquecendo a medida em que raramente nos víamos. Parecia que o tempo de fato faria seu trabalho e aquele amor adolescente se dissiparia.

Aos poucos percebia o quanto estávamos ficando cada vez mais diferentes e por consequência mais distantes. Virei roqueiro, guitarrista de banda, cabeludo e tatuado, um rebelde sem causa ainda sem gostar muito de estudar. Ao contrário de ti, bailarina, educada e amante dos livros, a menina doce e de refinada educação, como sempre. Minha juventude, regada a bebida, rock’n roll e festas na qual minhas atitudes enlouqueciam meus pais contrastava com a tua, com apresentações de ballet, aulas de piano, viagens europeias, intercâmbios estudantis e bolsas de estudo mundo afora. Já tínhamos estilos diferentes de ver o mundo, o que me deixava claro o quão distante nos tornamos. Me imaginava como seriamos se um dia nos tornássemos de fato namorados, noivos ou até mesmo marido e mulher. Não tinha como, não encaixávamos. Mesmo assim, de alguma forma tua lembrança sempre esteve viva e em meus pensamentos.

Seguimos adiante, cada um com a sua vida: nos formamos, nos casamos, constituímos famílias, criamos diferentes círculos de amigos, deixei minha rebeldia de lado e amadureci. Vibrei com tua entrada na faculdade, com teus sucessos pessoais, mesmo que não tivesse certeza que tu pudesses sentir o mesmo comigo. Virei gente, homem responsável e pai de família, e assim tornamo-nos realizados e felizes. Era nítido o amor gerado por ti junto a teu marido e teus filhos, assim como ocorreu comigo. Minha esposa aliás, sempre soube de tua existência, pois desde o começo expus todos os momentos especiais em minha vida e a ela apresentei teu nome. Tu nunca foste, no entanto, motivo de ciúmes ou de qualquer incerteza junto a ela, assim como tenho certeza do mesmo de tua parte para com teu esposo, pois éramos apenas uma doce lembrança adolescente para ambos.

Dessa forma, nossas vidas tornaram-se paralelas e destinadas a assim seguirem, sem haver um vislumbre para que ambas novamente se encontrassem. Na verdade, sempre tive receio disso, pois não queria de forma alguma acabar com toda essa magia do mais puro e inocente sentimento que nutri em minha vida.

Aí veio a internet. Oh, tecnologia maravilhosa! A cada foto, cada postagem minha um “like” seu. E vice-versa. Uma sensação gostosa. Nada de mais, claro, senão a demonstração de um enorme carinho e atenção que tu nunca deixaste de demonstrar. Ao menos agora poderíamos saber um pouco mais e assim compartilhar e admirar os acontecimentos na vida de cada um de nós. Foi muito legal quando publiquei uma foto de meu certificado de conclusão do meu curso de mestrado quando tu fostes a primeira a curtir, da mesma forma como te felicitei junto as fotos publicadas por ti do nascimento de teu filhinho e de tua formatura. Muito bacana, mesmo a distância e na forma paralela como nossas vidas se desenvolveram, podíamos nos ver.

E o teu aniversário? Nunca esqueci do dia vinte e quatro de novembro, mesmo nunca podendo te dar os parabéns. Ao menos até agora. Toda o cuidado tinha que ser tomado. Os melindres não poderiam surgir, dúvidas não podiam ser geradas, mas eu tinha que fazer. Até que nesse dia, há dois anos, tomei coragem e te mandei uma mensagem de parabéns. Algo simples, discreto, privado e sem malícia alguma, tal qual sempre foi nossos breves olhares e trocas de palavras. Minha alegria quando tu respondeste, não com relativa secura a qual não estranharia se assim fizesse, mas com alegria e atenção que me surpreenderam. Sinceramente, nunca gerei expectativa alguma em sentimentos teus para comigo aos dias de hoje, mesmo que alguma manifestação tua pudesse me dar abertura para tal. E assim nos víamos, e assim nos tínhamos: a distância, zelosos com as palavras, mas não menos atenciosos entre nós.

Mesmo assim, apesar de todo esse tempo, apesar de toda a pureza que sempre permeou a relação de nossas almas, sempre quis te perguntar. Sempre quis saber, afinal de contas, o que tu sentias por mim. Eu precisava saber, mesmo que isso não fosse mudar nada em nossas vidas.

E tu, será que, se tivéssemos essa oportunidade, farias essa pergunta mim? Se a fizesse, fico pensativo no que te responderia. “Não sei”, seria a primeira resposta a vir em minha boca. Aliás, já respondi isso para alguém que um dia me perguntou, uma amiga em comum. Disse a ela que não saberia descrever, pois é algo difícil de encontrar palavras para tal. Minha própria esposa já me fez essa pergunta e a ela disse “nada demais”. De certa forma, não menti, pois nunca mais a desejei como uma paixão, nunca mais desejei seu corpo ou seu coração só para mim. Não, a ela eu não menti, e acho que entendeu. Até mesmo porque não trocaria tudo que até então construí por mais uma aventura, pois isso não deixaria de ser. Preferiria, portanto, manter tudo como está, da forma como temos hoje: algo distante, uma lembrança, um carinho.

Eu sei, eu me penitencio. Todas as coisas na vida as quais me arrependi não foram aquelas que fiz, mas as que deixei ou levei muito tempo para fazê-las. E agora não podia ser diferente. Poderia ter tomado essa atitude a muito tempo atrás e com isso poria um fim a essas dúvidas, que volta e meia teimavam em surgir em minha memória. Ou talvez, seria meu intrínseco e inconsciente desejo de sempre cultivar essas constantes dúvidas? Quem sabe. Se nem eu mesmo consigo responder isso, quem mais poderia?

É verdade que, eventualmente trocávamos mensagens nas redes sociais, mas, como já disse, todas superficiais, leves e até mesmo um tanto formais, o suficiente para nutrir alguma ligação, algum contato, mesmo que apenas a vista dos atuais meios digitais. Então, de uma forma astuciosa de minha parte, me cerquei de certezas para que não ouvisse – ou lesse – um “não” de tua parte, e a ti sugeri que nos encontrássemos para finalmente olhar em teus olhos e dizer e perguntar tudo aquilo que a quase trinta anos consumia um cantinho do meu coração. Tua expressão afirmativa para tal me encheu de euforia ao mesmo tempo que me tomei da ciência de manter-me austero, calmo e até mesmo cético com o que poderia ocorrer. E como faríamos isso, me perguntava, pois somos conhecidos em todo os cantos que possamos nos apresentar? A visita profissional que te faria em teu local de trabalho seria um bom pretexto.

Mas não foi dessa forma que aconteceu, não é mesmo? Tu fostes embora e na tua despedida eu não tive como participar. Apenas aqueles do teu círculo de convívio puderam lá estar e eu não tinha como. Então tu partiste, e não conseguimos nos ver a tempo. Percebi então que minhas perguntas a teu respeito não mais poderiam ser respondidas. Tudo, enfim, se tornaria uma forte, doce e apaixonante lembrança e nada mudaria isso.

Mesmo assim, eu não poderia deixar de tentar. Eu precisava conversar contigo. Eu precisava te dizer, eu precisava te perguntar. Seja qual fosse a forma, eu precisava fazer. E agora aqui estou, diante de ti, de teu túmulo, na última forma que me resta de em paz poder ir ao teu encontro, mesmo tendo teu silêncio como resposta.

Aqui estou agora, em pé diante de ti. No momento em que teria todo o tempo do mundo e ninguém para me importunar minhas palavras somem, meus pensamentos se acomodam, meu coração sossega. O sol mágico do fim da tarde está iluminando a tua foto onde consigo ver o mesmo sorriso de quando tu tinhas treze anos. Sem nenhuma palavra dita ou ouvida na companhia do vento norte sobre as árvores, tu, de uma forma que nunca irei entender, responde, como num estalo de dedos, todas aquelas perguntas que um dia eu teria a te fazer. Nesse momento, tu conseguiste fazer-me lembrar de todas essas e ao mesmo tempo respondê-las. Tu me fizeste agora ver que sempre tive as respostas comigo.

Tudo o que construímos, muitas vezes sem sabermos que estávamos fazendo. Tudo o que vivemos e sentimos juntos e ao mesmo tempo distantes um do outro. Todos os sonhos compartilhados entre nós, mesmo que não soubéssemos. Uma forma diferente de querer alguém mesmo à distância, por entre as diferenças que a vida nos impôs, de forma silenciosa, pura e sincera.

Sim Cecilia, agora eu sei. Tudo isso nada mais foi do que apenas uma forma de amar.